Brasil

Toda utopia é perigosa, afirma Berlin


Ícone do pensamento liberal, o filósofo Isaiah Berlin explica nesta entrevista porque se emocionou com a queda de regimes marxistas brutais e opressivos da Europa do Leste


  Por Antonio Carlos Seidl 19 de Outubro de 2018 às 08:00

  | Jornalista e economista, foi correspondente internacional da Folha de S.Paulo e autor de "Do Palácio ao Bordel -Crônicas e segredos de um jornalista brasileiro em Londres"


Desfilam pelas 240 páginas de Do Palácio ao Bordel - Crônicas e segredos de um jornalista brasileiro em Londres, 22 personalidades do mundo acadêmico, a exemplo do lendário físico Stephen Hawking; do cinema, de Giuseppe Tornatore, diretor do clássico Cinema Paradiso; e dos negócios, como Anita Roddick, ambientalista fundadora da The Body Shop.

Gente que já morreu e  entrou para a história, todos perfilados pelo jornalista Antonio Carlos Seidl, um carioca radicado em São Paulo que incorporou um certo jeito britânico, depois de viver por quase duas décadas em Londres, parte desse período como correspondente da Folha de S.Paulo.

Neste capítulo de seu livro que será lançado na próxima semana, que o Diário do Comércio publica com exclusividade, Seidl relata um encontro com um dos mais influentes pensadores liberais do século passado, Sir Isaiah Berlin (1909-1997). Suas ideias podem ajudar a iluminar cabeças em um país, nosso Brasil, conflagrado por uma candente disputa ideológica.

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A oportunidade de ouvir face a face as ideias de figuras consagradas do mundo acadêmico no exterior está entre os maiores ganhos pessoais das atividades do correspondente estrangeiro. Equivale a uma pós-graduação particular.

Por exemplo, conversar com um ícone do pensamento liberal, um intelectual com o calibre de sir Isaiah Berlin, descrito pelos seus pares como a personificação do espírito da Universidade de Oxford: moderado, eclético, não dogmático, elegante ao expressar suas convicções e com um senso de humor que pode se transformar em fantasia cômica.

Filósofo e pensador, Berlin tornou-se respeitado pelos seus ensaios. A utopia, para ele “uma forma de despotismo”, era o seu tema predileto. “Sou um liberal, preocupado com a liberdade individual e contrário a soluções finais de qualquer espécie.”

Conferencista por mais de quarenta anos, era venerado pelos alunos e atraía acadêmicos ingleses e estrangeiros para suas aulas no All Souls College.

Depois de aposentado revelou, para surpresa de todos, que jamais gostou de falar em público. “Sentia-me o tempo todo em estado de pânico. Sempre falei muito rápido para chegar logo ao fim. Era como um homem cruzando uma ponte estreita sobre um terreno pantanoso com leões à direita e tigres à esquerda.”.

Sir Isaiah morreu aos 87 anos em 1997. Na ocasião dessa entrevista, o mundo vivia na esteira da queda dos regimes autoritários da Europa Oriental e União Soviética. Anticomunista, ele disse que se sentia “perplexo, animado e feliz”.

“Vivi do começo ao fim o século XX, o pior da história da Europa.”

NO APARTAMENTO

COM 240 PÁGINAS, EDITADO PELA GRUA, O LIVRO CUSTA R$ 44

Ele morava com a mulher, havia muitos anos, em Oxford, mantendo um “pouso em Londres” para a agenda na cidade, que incluía a Royal Opera House, da qual foi presidente.“Você é o primeiro brasileiro que conheço pessoalmente.” Com essa saudação inesperada, sir Isaiah Berlin, então com 82 anos, recebeu-me à porta de seu apartamento no Albany, no centro de Londres, às 16h30, no dia 11 de dezembro de 1991.

A ópera e o compositor italiano Giuseppe Verdi (1813-1901) estavam entre suas grandes paixões. O objetivo era uma entrevista sobre o livro dele The Crooked Timber of Humanity [A madeira torta da humanidade], que acabara de ser lançado no Brasil com o título Os limites da utopia (Companhia das Letras), uma coletânea de oito ensaios defendendo o liberalismo e condenando o autoritarismo e a utopia.

Para chegar ao filósofo, entrei em contato com o agente literário dele, que me instruiu a pedir a entrevista por carta direta a sir Isaiah. Recebi logo a resposta: “Estou disposto a ser entrevistado pela Folha de S.Paulo. Eu suponho que tal entrevista não precise durar por mais, digamos, de uma hora e pouco”.

No dia marcado e na hora certa, cheguei ao apartamento de sir Isaiah, com uma pontualidade de fazer inveja aos melhores ingleses.

De óculos de hastes e lentes grossas, magro e baixo, de terno escuro, com uma modesta gravata cinza, sir Isaiah me convidou a sentar no sofá da sala de estar, em frente à lareira, acesa naquela tarde fria e circundada por uma vasta estante com parte de sua rica biblioteca. Sir Isaiah Berlin foi um ponto de referência do pensamento liberal do século XX.

Fez sua carreira acadêmica na Universidade de Oxford, dos estudos de filosofia, passando pela cátedra de história social, até tornar-se membro do conselho do All Souls College.

Sobre o tema de seu livro, a utopia, sir Isaiah disse que via todas as utopias como perigosas:

“Não podemos reescrever a história. Todavia não quero abandonar a crença de que não seja um sonho utópico imaginar um mundo como uma colcha de retalhos de muitas cores, cada um deles desenvolvendo sua própria identidade cultural e tolerante em relação às outras”. Ele disse que seu interesse intelectual era a história das ideias.

Falava baixo e rápido, com voz grave, um basso profondo, como se quisesse acompanhar a rapidez do seu pensamento —um colega dele de Oxford disse, brincando, que sir Isaiah era “ininteligível em todos os idiomas”.

A entrevista foi publicada na capa do caderno Letras, em 18 de janeiro de 1992, sob o título: “Para Berlin, a utopia é a porta do despotismo”.

No centro da página, sir Isaiah numa pose circunspecta. “Assim como De Gaulle, só saio sério em fotogra?as”, explicou-me, ao se recusar a sorrir para meu trabalho com o “chapéu” de repórter fotográfico.

Sir Isaiah disse que há muitas coisas erradas no mundo. “Imagine que tenhamos sucesso em corrigir muitas delas para muitas pessoas. Os filhos dessas pessoas terão novos problemas criados pela correção de alguns problemas. Portanto, dizer que isso ou aquilo é a solução e que vai durar pelos próximos duzentos anos, não pode ser nunca a verdade.”

Estudioso e crítico de Karl Marx, autor de Karl Marx, escrito em 1939, sir Isaiah disse que o mundo não seria melhor sem Marx, seria diferente.

“Marx foi um gênio, mas não há dúvida de que o efeito do pensamento marxista foi o de diminuir e aumentar a miséria humana. Pode-se traçar um paralelo com Wagner. Depois dele, a música nunca mais foi a mesma. Às vezes, me pergunto: se Wagner não tivesse vivido, a música não teria sido diferente? Talvez não fosse mais interessante, mas certamente seria mais agradável. Marx e Wagner mudaram, talvez não para melhor, a maneira de pensar das pessoas.”

O título original do livro em inglês, The Crooked Timber of Humanity, foi tirado de uma frase de Kant:

“De uma madeira tão torta como essa de que o homem é feito, nada de totalmente reto pode ser esculpido”.

“Por quê, sir Isaiah?”

“Porque quer dizer que da história das ideias que deram forma ao destino do homem, nenhuma verdade mostrou ou nunca mostrará a maneira certa de viver.

Os oito ensaios têm uma preocupação com manifestações de antirracionalismo: ideias ou planos utópicos, fascismo, romantismo e nacionalismo.”

E continuou:

“Maquiavel nos ensinou que os homens são criaturas imperfeitas de forma irredimível, que perseguem objetivos políticos e sociais irreconciliáveis baseados em ideologias incompatíveis. […] Kant pensava que o homem podia ser desentortado; sua ideia de certo e errado sempre foi uma tentativa de retificar a conduta humana. Mas, na minha opinião, essa tentativa de desentortar o homem significa a abolição da variedade. Isso não deve ser feito nem pode ser feito. A variedade é em si mesma um valor. Mas algumas coisas tortas devem ser endireitadas e outras não”.

A questão das revoltas daquela época na Europa Oriental e na União Soviética veio à baila. Para sir Isaiah, ao contrário de revoluções passadas, os movimentos não seriam esmagados, porque tinham se transformado em levantes populares, genuínos e espontâneos, abrangendo todas as classes.

“Estou emocionado em testemunhar a conquista da liberdade por homens e mulheres aprisionados por muitos anos por regimes brutais e opressivos.”

Acrescentou que poderia apenas repetir o que disse madame Bonaparte (a matriarca dos Bonaparte e mãe de Napoleão) ao ser cumprimentada pela distinção histórica de ser mãe de um imperador, três reis e uma rainha: “Oui, pourvu que ça dure”.

Nessa altura, a mulher dele, lady Aline Berlin, entrou na sala com aquele olhar que diz ao repórter que está na hora da última pergunta.

“É verdade que o senhor sempre se sentiu ansioso ao proferir suas conferências?”. Para um dos mais respeitados lecturers da Universidade de Oxford, onde lecionou por cerca de quarenta anos, sir Isaiah fez uma declaração surpreendente:

“Jamais gostei de falar em público. Nunca olhei diretamente para ninguém com medo de um sorriso, uma carranca ou um bocejo. Sempre olhei para o canto direito superior da sala”. E, com o típico humor autodepreciativo britânico, acrescentou: “As conferências faziam sucesso graças à minha ansiedade. A tensão passava para a audiência e, claro, era disso que o público gostava. No final das palestras, eu pensava: ‘Agora eles sabem que não sou um bom professor’”.

Ao nos despedirmos, agradeceu o interesse da Folha pela sua obra. E concluiu: “Quando se fala em Brasil, me lembro do escritor austríaco Stefan Zweig, que se suicidou em Petrópolis durante a Segunda Guerra Mundial."

 

FOTO: Reprodução/Arquivo Pessoal