Brasil

Temer finge estar firme e acha que não cai


Presidente não quer deixar o Planalto. Conta com suposto apoio no TSE, mas pode levar golpe mortal em delação de ex-assessor


  Por João Batista Natali 26 de Maio de 2017 às 08:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Eis uma má notícia para quem acreditava que a crise em que o país mergulhou na última quarta-feira (17/05) teria um desfecho rápido. O presidente Michel Temer está apegado ao Planalto e não quer renunciar.

Tampouco leva a sério a possibilidade de ser apeado da Presidência no próximo dia 6 de junho, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgará a chapa Dilma-Temer e poderá, em princípio, oferecer ao atual ocupante do Planalto uma saída honrosa.

O ministro Moreira Franco (Secretaria Geral), o único do circulo mais próximo do presidente que aceita tocar no assunto, disse ao Valor Econômico que não há hipótese de renúncia, e que é uma "precipitação, um açodamento já ficar estimulando candidaturas".

A pressa em ter a questão politicamente resolvida é ao mesmo tempo política e econômica. Na economia, é óbvia a pressão para que o caos se resolva com rapidez, para não comprometer o lento e difícil processo de recuperação da recessão.

Politicamente, o cumprimento do artigo 81 da Constituição, com a escolha de um novo presidente pelo Congresso, preencheria o atual vácuo de poder e de autoridade.

A imagem de Temer está mortalmente machucada depois da divulgação de sua conversa com Joesley Batista, da JBS, e de todos os desdobramentos que o episódio gerou.

No plano político, Temer procurou demonstrar que mantém o comando do Estado, ao convocar o Exército para garantir a segurança de Brasília, depois das manifestações e do vandalismodesta quarta-feira. O presidente voltou atrás 12 horas depois, mas o recado já estava dado. 

Ao mesmo tempo, a Câmara dos Deputados, depois da confusão em plenário que a oposição provocou na tarde de quarta, conseguiu votar no mesmo dia mais tarde - já que a oposição, em clima de boicote, deixou o plenário - oito medidas provisórias que estavam em pauta.

Mesmo assim, nenhum desses dois fatos reflete o "clima de normalidade" que Temer aconselha que seja demonstrado por seus poucos incondicionais aliados no Congresso.

De certo modo, o presidente ganha tempo porque sabe que há um impasse nas discussões sobre quem poderá sucedê-lo. Há rumores de que três ex-presidentes - Sarney, FHC e Lula - dialogam por meio de emissários, mas não chegaram a uma preferência comum.

Basicamente, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) é vetado pelo PT e pelo DEM. Nelson Jobim é vetado por parte dos tucanos e pelo PPS. Rodrigo Maia (DEM-RJ) é vetado pelos tucanos e pelos petistas. E FHC, que circula por fora, seria também vetado pelo PT.

O problema é saber quais desses nomes estariam empenhados em manter os projetos de reforma que Temer, com reconhecida competência, conseguiu pilotar dentro do Congresso.

A impressão é de que Jobim seria o único que, por fidelidade pessoal a Lula, manteria a estabilidade institucional, mas engavetaria a reforma da Previdência.

Outro roteiro, costurado nesta quinta em reunião entre Tasso, FHC e Alckmin, em São Paulo, dá o próprio Tasso como presidente e Jobim como ministro da Justiça.

A CARTADA DO TSE

Outra incógnita neste jogo é a posição da Justiça Eleitoral. Antes que a crise eclodisse, todas as previsões indicavam que, entre os sete ministros, apenas dois votariam pela cassação de Temer (Herman Benjamin e Rosa Weber), com a paralela cassação dos direitos polítios de Dilma Rousseff.

O quadro pode ter mudado. Bastaria que trocasse de lado o presidente do TSE, Gilmar Mendes, que tem liderança para influir no voto de pelo menos mais um ministro. Se isso acontecer, Temer seria afastado pelo placar de 4 a 3.

Dentro do Planalto, a previsão hoje é de que o jogo seria arriscado. Temer acredita ter um trunfo em mãos, que é o fato de ter nomeado dois ministros que tomaram posse recentemente.

Se algum deles quiser demonstrar fidelidade a quem o indicou, ele poderia pedir vistas do processo e, com isso, adiar indefinidamente a votação.

Outra possibilidade seria Temer perder no TSE, mas entrar imediatamente com um recurso no Supremo Tribunal Federal (STF). Começaria então a contar mais um período de semanas para que a questão seja resolvida.

Ao lado de toda esse aspecto judicial, persiste como hipótese o PSDB, o DEM e o PPS comunicarem a Temer que o abandonarão ao relento. Sem condições para governar, o presidente jogaria a toalha. A não ser que se disponha a enfrentar o longo e surreal processo de impeachment - há 13 pedidos sobre a escrivaninha do presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

O LADO POLICIAL DA QUESTÃO

Em termos de investigação acompanhada pela Procuradoria-Geral da República e sob a inspeção do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, os advogados de defesa de Michel Temer apostam suas fichas na demonstração de que não passa de uma montagem a gravação da convesa entre o presidente e Joesley Batista.

Mas há outro temor que corre por fora. Lembre-se do deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), afastado do carto por Fachin e que foi um dos assessores mais próximos da Presidência.

Ele foi filmado ao recolher numa pizzaria R$ 500 mil dentro de uma mala -com R$ 35 mil a menos,  posteriormente entregues à PF -que seria uma mesada da JBS para Temer.

É ao menos esse o conteúdo da delação de um dos executivos da empresa aos promotores da Lava Jato em Brasília.

É onde reside o perigo. Desde terça-feira (23/5), corre em Brasília o rumor de que Rocha Loures sofre forte pressão da família para entrar em regime de delação premiada.

Se ele abrir o bico e disser que sua tarefa se limitou a transportar as propinas pagas ao presidente, o escândalo ganha outra dimensão.

Se até lá Temer ainda estiver no Planalto, Temer seria um peão que cairia facilmente com o choque contra uma bola pesada de madeira num jogo de boliche.

ILUSTRAÇÃO: Thinkstock/William Chaussé/Diário do Comércio

 







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