Brasil

Temer é empurrado para o buraco de sua maior crise


Conversa grampeada de Romero Jucá (foto), ministro do Planejamento, insinua que impeachment seria remédio para barrar a Lava Jato. Jucá se "licenciou" do ministério no final da tarde desta segunda-feira


  Por João Batista Natali 23 de Maio de 2016 às 14:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Apenas 12 dias depois de ser investido interinamente na Presidência da República, Michel Temer enfrenta sua maior crise, derivada da gravação de uma conversa telefônica de seu ministro do Planejamento, Romero Jucá, que vincula o impeachment ao bloqueio da operação Lava Jato.

A crise se tornou aguda porque Jucá recusou-se a pedir demissão e chegou a convocar entrevista coletiva para argumentar sua inocência.

Mas diante de um quadro agudo de desconfiança do governo por deputados e senadores, Temer aceitou uma solução salomônica. Jucá anunciou que "se licenciava" da Pasta do Planejamento e voltava ao Senado, para se defender. Ele presidente nacional do PMDB e senador por Roraima em quarto mandato.

A "licença" é uma palavra providencial para designar o afastamento definitivo, sem criar maiores atritos dentro do PMDB, que é um saco de gatos de interesses contraditórios.

O fato é que Temer hesitou por um período de oito horas, o que acarretou desgaste a sua imagem.

Ele também transmitiu a impressão negativa ao se curvar a simpatizantes do Partido dos Trabalhadores no meio artístico, ao recriar no sábado (21/05) o Ministério da Cultura, que no primeiro organograma do governo estava subordinado ao Ministério da Educação.

E nem por esse recuo ele deixou de ser achincalhado durante os espetáculos da Virada Cultural paulistana, quando bandas e cantores juntaram-se a uma parcela do público para gritar “Fora Temer”.

O mais grave, no entanto, está na conversa de Jucá com o ex-presidente da Transpetro e ex-senador Sérgio Machado, hoje no PMDB, um dos operadores do propinoduto da Petrobras que beneficiou seu partido.

“Tem que mudar o governo para estancar essa sangria”, disse ele, no mês de março, com relação à Lava Jato. O diálogo é publicado nesta segunda-feira (23/05) pela Folha de S. Paulo.

O ex-senador e atual ministro disse logo de manhã, a emissoras de rádio, que a palavra “sangria” referia-se ao quadro econômico e ao marasmo político da então presidente Dilma Rousseff. Não convenceu.

Sabia-se que Jucá, antes mesmo da posse de Temer, na quinta-feira da semana retrasada (12/05), estava sendo investigado em três processos da Lava Jato. No dia seguinte, por proposta do Ministério Público, o STF determinou a quebra do sigilo bancário e telefônico dele.

Ainda nesta segunda-feira, por volta do meio-dia, Jucá convocou entrevista coletiva para se defender. Reiterou não ter tido a intenção de bloquear as investigações da Polícia Federal e da Justiça de primeira instância em Curitiba.

Pouco antes,Temer fez chegar aos jornalistas que a Lava Jato era apoiada pelas ruas –manifestações contra a corrupção do PT –e que ela permanecia uma prioridade fundamental do governo.

O problema é que Jucá não foi mais uma vez convincente. Permaneceram dúvidas que acabam por prejudicar o próprio Michel Temer, que passa a carregar a pecha de conivente com a manobra de seu ministro e aliado. Jucá é também o presidente nacional do PMDB.

Antes da entrevista, o PDT anunciou que enviaria representação em favor da cassação de Jucá ao Conselho de Ética do Senado.

É um partido que, ao lado do PT e do PC do B, tem atuado de modo incondicional na defesa de Dilma.

Mas no terreno dos atuais governistas uma cobrança categórica foi lançada pelo senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), para quem Jucá deve ser afastado para que possa explicar a suspeita de que sugeriu um pacto para interromper a Lava Jato.

Nas redes sociais, simpatizantes do petismo passaram a reproduzir com muito barulho a versão – bastante verossímil – segundo a qual a motivação do impeachment não foram os crimes de responsabilidade atribuídos a Dilma, mas, sim, as tentativas de interromper as investigações sobre a corrupção.

Tal argumento não é um simples detalhe. Na votação do Senado do último dia 11, o afastamento de Dilma recebeu 55 votos. Bastariam 41. Mas para que ela seja definitivamente afastada são necessários 54.

Ou seja, basta que dois senadores mudem de posição – e a confusão criada por Jucá seria um bom pretexto – para que Dilma volte à chefia do Executivo.

O PT e o Psol, por meio de deputados de plantão nesta segnda-feira no Congresso, disseram que as afirmações de Jucá, em conversa grampeada, são uma demonstração de que o processo de impeachment "foi viciado".

Os efeitos da gravação da conversa de Jucá repercutiram na Bolsa e no mercado de câmbio. Por volta do meio-dia, o índice Bovespa caia 1,5%, e o dólar subia 1,1%.

Não está clara a origem da gravação da conversa entre Jucá e Machado, ocorrida há dois meses, quando o então senador não estava com seu sigilo telefônico quebrado. Ela hoje se encontra com a Procuradoria Geral da República.

Dois sites de informação disseram que a gravação foi feita pelo próprio Sérgio Machado, que estaria negociando com o Ministério Público as vantagens da delação premiada.

Em São Paulo, onde participavam de evento da Editora Abril, o ministro do STF Luís Roberto Barroso e o juiz Sérgio Moro disseram não acreditar em intervenções políticas na Lava Jato e disseram, com palavras diferentes, que o Judiciário trabalha com plena autonomia.

O episódio, de qualquer modo, eclipsou as expectativas do mercado e do meio político para o anúncio, a ser feito, nesta terça-feira (24/05), sobre as medidas para compensar o rombo fiscal de R$ 170,5 bilhões, anunciado ao fim da semana passada.

Reforçou-se, por fim, a imagem de que Temer pauta em parte seu comportamento pelas pressões que venha a receber.

RECRIAÇÃO CONTROVERTIDA

Há uma série de episódios, como os desconvites de um parlamentar ligado à Igreja Universal para o Ministério da Ciência e Tecnologia ou do advogado Cláudio Mariz de Oliveira para o Ministério da Justiça.

A recriação do Ministério da Cultura, no entanto, está em outro patamar. A classe artística abriu guerra verbal contra o presidente em exercício, e ele acusou o golpe. Poderia manter toda a estrutura herdada de Dilma na Secretaria Especial que havia anunciado.

Mas acabou prevalecendo a versão falaciosa de que os artistas precisam de um ministério todinho para si próprios. Só que Temer, ao acatar a ideia, não recebeu em troca qualquer compensação política. Continuou a ser duramente atacado.

Além das manifestações ocorridas durante a Virada Cultura, em São Paulo, atos contra o presidente interino ocorreram em Brasília, Maceió, Fortaleza, Salvador e Florianópolis.

O MTST reuniu domingo à tarde, em Pinheiros, 5 mil manifestantes (número da PM). Do meio deles saiu um grupo de 150 que acampou a uma distância inferior a 200 metros da casa do presidente em exercício, no bairro do Alto de Pinheiros.

Por volta da meia-noite o acampamento foi dissolvido com jatos de água e bombas de efeito moral, em operação da Polícia Militar.

Os artistas e o MTST não falam exatamente a mesma linguagem. Para o primeiro grupo, a palavra de ordem é hoje “Fora Temer”. Para o segundo, no entanto, fala-se em “Volta Dilma”, que é tão pouco convincente quanto a má reputação política da presidente afastada.

 

FOTO: Helvio Romero/Estadão Conteúdo