Brasil

Temer: a impressionante invisibilidade de um presidente


Balanço de seus dois anos de governo foram eclipsados pela alta impopularidade e acusações de corrupção. Mas os resultados foram muito bons, sobretudo na economia


  Por João Batista Natali 16 de Maio de 2018 às 14:25

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Algo curioso, mas plenamente esperado: Michel Temer não empolgou os brasileiros com a divulgação das informações –positivas e verdadeiras –sobre seus dois anos de governo.

A cerimônia de 58 minutos nesta terça-feira (15/5), no palácio do Planalto, passou quase despercebida no noticiário e não repercutiu nas redes sociais, que são hoje a grande caixa de ressonância de qualquer episódio político de menor ou de maior peso.

Entre os fatos mencionados pelo presidente estão a reforma trabalhista e a PEC do teto dos gastos, a queda dos juros de 14,25% para 6,5%, a da inflação de 10% para menos de 3%, ou a criação, segundo o Ministério do Trabalho, de 200 mil novos empregos no último trimestre.

São informações positivas. Se elas não mobilizam, o paradoxo está na popularidade cronicamente baixa de Michel Temer. Ainda na segunda (14/5), a última pesquisa do gênero, do instituto MDA para a Confederação Nacional dos Transportes, indicou uma avaliação negativa em 71,2%.

Os números mais recentes do Ibope e do Datafolha vão no mesmo sentido.

Existem dois fatores para justificar a má vontade crônica dos brasileiros para com o atual ocupante do Planalto.

IMPOPULARIDADE HERDADA DE DILMA

O primeiro já estava embutido em 12 de maio de 2016, quando, depois de votação no Congresso, Dilma Rousseff e o PT foram defenestrados do poder.

O raciocínio é simples. Os 4,5 milhões de brasileiros que saíram às ruas em março daquele ano (foi num domingo, e os números são das polícias militares dos Estados) queriam o impeachment da presidente e de tudo o que estava ligado a ela.

Ora, Temer era o vice –escolhido por Lula para as chapas vencedoras de 2010 e 2014. Não haveria eleições diretas para a sucessão naquelas alturas do mandato presidencial.

Desse modo, Temer herdou a impopularidade de Dilma e ainda cacifou por cima sua própria falta de carisma.

O segundo fator está na associação à corrupção do grupo do MDB umbilicalmente mais próximo do atual presidente.

Geddel Vieira Lima – o homem dos R$ 51 milhões no apartamento em Salvador – e Henrique Eduardo Alves foram ministros do novo governo e caíram nas malhas da Lava Jato. Alves, que estava num quartel em Natal (RN), está agora em prisão domiciliar.

O BOMBÁSTICO EFEITO JBS

Quem acompanha o noticiário soube que, por duas vezes, a Procuradoria Geral da República pediu –e não obteve da Câmara dos Deputados –a autorização para processar Temer por corrupção.

Se os deputados autorizassem, Temer teria sido afastado de seu cargo.

Ficaram de fora dessas duas iniciativas o chamado “quadrilhão do MDB”, em que o presidente é suspeito de receber dinheiro da Odebrecht em companhia dos ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco, ou a origem misteriosa do R$ 1 milhão gasto, em dinheiro vivo, para a reforma da casa da filha do presidente, no bairro do Alto de Pinheiros, em São Paulo.

E ficou sobretudo de fora a conversa grampeada por Joesley Batista em 17 de março do ano passado, no palácio do Jaburu, em que – por palavras eufêmicas – acertou-se a entrega a Temer de uma mesada semanal de R$ 500 mil.

A primeira entrega ao emissário Rodrigo Rocha Loures, numa pizzaria da rua Pamplona, em São Paulo, foi filmada pela Política Federal.

Em tempo: não é possível contabilizar entre as causas para a impopularidade de Temer o fato de ele ser supostamente ilegítimo, fruto de um “golpe” denunciado pelo PT.

Dos mais de 70% que criticam e desaprovam o presidente, supõe-se que, no máximo, apenas 32,4% compartilhem a tese petista. São aqueles que, segundo a pesquisa da CNT, hoje votariam em Lula no primeiro turno.

Em tempos normais, o presidente da República já teria caído. Mas são tempos excepcionais e com um cenário eleitoral para 7 de outubro ainda muito nebuloso e complicado.

As entidades empresariais consideram Temer um mal necessário, um mal menor. Os bons resultados produzidos por sua equipe econômica são o ponto alto de um governo que, na área política, coleciona tropeços e trapalhadas.

A questão, porém, está também no fato de a oposição das entidades sindicais não funcionar hoje como um contraponto eficiente. Os sindicatos foram enfraquecidos pelo fim do imposto sindical e recuam para a defensiva.

Exemplo disso está no patético malogro do 1º de Maio unificado, convocado para Curitiba – para ao mesmo tempo reivindicar a libertação de Lula – e que reuniu 5 mil manifestantes, segundo a PM paranaense.

Essa situação poderia estar virando de cabeça para baixo caso algum nome confiável para a reforma da Previdência e para o equilíbrio fiscal encabeçasse as pesquisas de intenção de voto.

Não é o que acontece. Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) são os três, cada um a seu modo, um salto no escuro.

Em razão desse quadro confuso, Michel Temer é apenas um ingrediente de grandeza maior no temível campo de incertezas que se avizinha.

E coloquem temível nisso.

  

FOTO: Beto Barata/Presidência da República