Brasil

Tem muita fumaça e pouco fogo na lista de políticos investigados


Os 76 pedidos de investigação anunciados nesta terça (11/04) alimentam injustamente o preconceito de que "todo político é ladrão" e a ideia de que, no Brasil, a democracia não tem jeito


  Por João Batista Natali 11 de Abril de 2017 às 14:15

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Precisamos saber até que ponto o copo está meio cheio, ou se ele está meio vazio. 

Nesta terça-feira (11/04), foi divulgada a lista elaborada a partir de depoimentos de 77 executivos da Odebrecht.

A Procuradoria Geral da República pediu para que o ministro Edson Fachin (STF) autorizasse a investigação de 76 políticos com foro privilegiado.

É um recorde que assinala o tamanho dos indícios de coorrupção no Executivo (10 ministros), no Legislativo e no Tribunal de Contas da União (TCU), com um ministro envolvido.

Mas há também uma outra leitura dessa lista. Os 39 deputados investigados corrrespondem a apenas um a cada 13 integrantes da Câmara. E, com relação ao Senado, serão investigados um a cada 3,5.

A metáfora mais correta não é, então, a do copo meio vazio. Trata-se, bem mais, de muita fumaça para, em termos quantitativos, pouco fogo.

É claro que essa percepção contraria o senso comum que eclodiu nas últimas horas, segundo o qual "todos os políticos são ladrões" e que, entre os integrantes dos poderes na esfera federal, basta ir mais fundo nas investigações para que não sobre um único inocente.

É justamente o raciocínio que considera a classe política como farinha do mesmo saco (mais uma metáfora). Mas não é.

Vamos considerar alguns exemplos.  

Um deputado recebeu vantagens para assegurar à Odebrecht contratos para a construção da ferrovia Norte-Sul. Trata-se, se for verdade, de corrupção passiva. 

É a acusação que pesa sobre Milton Monti (PR-SP), que no entanto argumentou, segundo o portal G1, que todas as doações eleitorais que recebeu foram feitas legalmente. "É bom que se apure tudo, para que minha inocência seja comprovada".

Mas vejamos outros casos em que uma Ave Maria e um Padre Nosso resolveriam o litígio. Dois deputados do PT,  Carlos Zaratini (SP) e Vander Loubert (MS) receberam, cada um, R$ 50 mil na penúltima campanha em que se elegeram, em 2010.

Os delatores afirmam que foi dinheiro de caixa dois. Mas a é uma quantia irrelevante dentro de orçamentos eleitorais do mesmo gênero, em São Paulo e Mato Grosso do Sul. 

Se eles sabiam que o dinheiro se originava de corrupção da Petrobras, obviamente que devem ser punidos. No entanto, pensando bem, nenhum deles se queimaria por tão pouco.

Proporcionalmente, o mesmo raciocínio se aplica ao senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), atual ministro das Relações Exteriores, que teria recebido R$ 500 mil para a campanha que o elegeu em 2010. Ele nega que se trate de dinheiro frio e afirma que tudo foi contabilizado.

EXISTE CORRUPÇÃO E CORRUPÇÃO

Trocando em miúdos, a corrupção se caracteriza por doações feitas em troca da prestação de um serviço criminoso durante o mandato eletivo. 

O caixa dois –que também é crime e por isso também deve ser punido – acontece quando o candidato aceita doações não contabilizadas, ou, então, e é o caso do senador Valdir Raupp (PMDB-RO), em episódio anterior à atual delação, quando o dinheiro legalmente contabilizado tinha origem espúria.

O fato é que a população, como consequência da fúria denuncista desencadeada pela mídia com o crescimento da Lava Jato, perdeu os parâmetros da graduação do crime cometidos por detentores de mandatos eletivos.

Eles passaram a ser todos nivelados por baixo, quando, em verdade, o Judiciário, na aplicação das leis, consegue classificar a gravidade da falta e absolver quando nenhuma falta existiu.

Até lá, no entanto, a fogueira já estará armada, e reputações dos interessados estará em frangalhos. São exemplos disso dois políticos eleitos por São Paulo, Marta Suplicy, senadora pelo PMDB, e Roberto Freire, deputado pelo PPS. 

Ambos apareceram na lista divulgada na terça-feira, mas como objetos de pedidos de Fachin para que a Procuradoria Geral da República investigue mais um pouco as informações levantadas contra eles. 

Não são formalmente investigados, nem indiciados e nem réus. Mas já estão com seus nomes manchados pelo moralismo tacanho que consiste em acreditar que, indistintamente, são todos culpados e ladrões.

O que podemos então observar é que existem dois planos dentro dos quais as coisas agora acontecem. Há o plano judicial e há o plano imaginário de uma opinião pública descrente e, por isso, sedenta de sangue.

UMA RECENTE HISTÓRIA DA DESCONFIANÇA

As pessoas que pensam assim –muitas delas com alta escolaridade – foram contaminadas por um clima político que banalizou e generalizou a suspeita de corrupção.

No passado, ainda sem as redes sociais da internet, a onda moralista acobertou personagens como Adhemar de Barros, governador de São Paulo, ou destronou, com toda a razão, um personagem como Fernando Collor de Mello, que sofreu impeachment em 1992.

Na esteira de Collor veio o escândalo dos Anões do Orçamento, que em 1993 cassou seis deputados federais e levou quatro outros à renúncia, pela venda a empreiteiras de emendas à lei de diretrizes orçamentárias da União.

Foi um episódio importante e também um sinal de alerta de que a moralizão era uma tarefa ainda incompleta.

Dentro dessa mentalidade, a bancada federal do PT entrou com 17 pedidos de impeachment contra Fernando Henrique Cardoso, durante os dois mandatos presidenciais do tucano paulista.

Postura, na época excessiva e partidarizada, que caiu no colo da oposição, quando, no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, eclodiu o Mensalão.

Com Dilma Rousseff em seu primeiro mandato, aparece a Lava Jato e a ideia de que a corrupção fazia parte do projeto político do PT, o que é em parte verdade.

Com esse histórico, chegou-se a uma espécie de saturação das percepções morais de uma plateia de 200 milhões de brasileiros que, no entanto, tende a se conformar com a existência da rapinagem como característica constitutiva da classe política.

Mas isso gera uma ideologia generalizada e mentirosa. A prova está no fato de, lida ao contrário, a chamada Lista Janot, manchete em toda a mídia nesta quarta-feira, também afirmar, como pressuposto, que 474 deputados federais e 60 senadores não foram citados.

O que, para encerrar o campo metafórico, exige que se vá devagar com o andor, porque o santo é de barro. A democracia brasileira não é tão firme e sólida como aparenta ser. É ruim atirar pedras contra ela.

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