Brasil

Surpreso com o Carnaval politizado?


Ninguém escapou este ano da ironia dos foliões: Temer e as reformas, a corrupção na Petrobras e a lentidão do Judiciário. Tem sido assim desde a França do século 17


  Por João Batista Natali 14 de Fevereiro de 2018 às 15:50

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Os teóricos de padaria são muito sumários em suas conclusões. Afirmam, por exemplo, que 2018 introduziu a política no Carnaval, resultando, no Rio, em esculhambação da pauta das reformas do governo federal. Culpa da Paraíso do Tuiuti.

Mas não é bem assim. Carnaval e política se misturam desde sempre. No Brasil, por exemplo, o samba mais popular no ano passado foi “O Japonês da Federal”.

Em 2014, blocos falaram do sumiço das vigas de um viaduto do Rio e dos black blocs que infernizaram as manifestações de julho do ano anterior.

Na história do Carnaval de Brasília, o grande marco é o Bloco do Pacotão, que saiu às ruas desde 1978 (em pleno regime militar), e que inicialmente fez galhofa do fechamento do Congresso pelo general Ernesto Geisel, com a criação, por decreto, de regras eleitorais que favoreciam o governo.

O Carnaval europeu também foi sempre político. Na Alemanha, um carro alegórico deste ano trazia o presidente Trump fazendo sexo com um monstro marrom chamado Rússia.

Em termos de historiografia, o grande nome dos estudos europeus é o de Natalie Zenon-Davis, nascida em Detroit, em 1928, mas naturalizada canadense, professora emérita da Universidade de Toronto e respeitabilíssima na Universidade de Paris.

Em “Cultura do Povo- Sociedade e Cultura no Início da França Moderna”, traduzido no Brasil pela Paz e Terra, a historiadora discorre sobre o Carnaval na cidade francesa de Lyon, no século 17.

Os festejos são um ataque generalizado à nobreza e à hierarquia eclesiástica, de foliões embriagados e vestidos de bispo a duques que puxam charretes como se fossem cavalos.

O ataque mais histriônico dos lioneses se dá aos valores familiares e à fidelidade conjugal. Os maridos traídos são amarrados em burros, mas com a cabeça voltada para traseira do animal.

ACADÊMICOS DO TUIUTI

No Brasil, a politização do carnaval repercute na medida em que uma música ou uma escola tem espaço nas redes sociais.

Foi o que ocorreu com a Paraíso do Tuiuti, que desfilou no Sambódromo da Marquês do Sapucaí na madrugada de segunda-feira.

Além do presidente Michel Temer como vampiro, a escola assimilava a Reforma Trabalhista ao retorno à escravidão.

Uma das alas trouxe passistas montados em patos amarelos da Fiesp e enormes mãos que os manipulavam.

“É positivo a gente poder se posicionar”, disse o carnavalesco Jack Vasconcelos, idealizador do protesto.

“Hoje somos oposição, e antes éramos parceiros do governo e não podíamos arranhar a relação.”

Ou seja, a liberdade de criticar não era antes exercida, o que agora ocorre sem maiores problemas, porque a democracia assim o permite.

A relação entre escravidão e registro na carteira de trabalho é meio marota. E o troco veio rapidinho. Já na Quarta-Feira de Cinzas, o Facebook era inundado por uma simples consulta ao Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho, revelando que a Tuiuti só tinha três pessoas com registro em carteira.

Os demais – costureiras, aderecistas, alegoristas – eram todos trabalhadores sem registro, o que é irregular em qualquer legislação.

BEIJA-FLOR DE NINOPOLIS

Ainda no Rio de Janeiro, e na noite seguinte, a Beija-Flor procurou fazer uma analogia entre a política brasileira e o personagem Frankenstein.

Mas a politização se deu em sentido contrário. Atacava-se a corrupção de maneira generalizada, sobretudo com o dinheiro na cueca e a Petrobrás, episódios que assinalavam como personagem o Partido dos Trabalhadores.

Dentro da esquerda, vale a pena reproduzir o desabafo em redes sociais de um dirigente do Psol, de extrema-esquerda.

“A Beija-Flor fez um desfile coxinha e paneleiro. É udenista até o talo.”

Como sempre, pimenta no olho dos outros é refresco.

Paralelamente, surgiam em redes sociais a lembraça de que a Beija-Flor tem como histórico patrão o bicheiro Anísio Abrão, condenado em primeira instância em 2012 e que aguarda, desde então, julgamento no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, podendo então até ser preso.

Quando a política traz o rosto de personagens específicos, no Carnaval poucos escaparam. Foram os casos do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus), que deixou a cidade e viajou para a Europa.

Ele não gosta de Carnaval e foi criticado no desfile da Mangueira, pelo corte de verbas que impôs aos festejos cariocas.

O ex-governador fluminense Sérgio Cabral, que está preso, surgiu em alegorias da Beija-Flor pela evocação da “festa dos guardanapos”, ocorrida em Paris, e na qual ele, assessores e empreiteiros dançaram e se deixaram fotografar com guardanapos nas cabeças.

Não faltou o “Fora Temer, numa ala do Cordão da Bola Preta reservada aos servidores da Universidade Federal Fluminense, e nem ao Judiciário, onde o ministro do STF Gilmar Mendes se tornou figura central.

“Alô, alô, Gilmar, eu tô em cana, vem me soltar”, era a inscrição de cartazes carregados em blocos de todo o país, e que criticavam aquilo que se considera uma generosidade excessiva do ministro em conceder habeas corpus a presos que se desesperam para sair da cadeia.

O resumo de toda essa ópera é muito simples. O Carnaval está muito grudado ao cotidiano das pessoas e dos grupos aos quais elas pertencem.

Numa época de polarização extrema, a anomalia estaria no fato de termos um Carnaval despolitizado.

 

FOTO: Creative Commons