Brasil

Só 11% das crianças da 3ª série estão plenamente alfabetizadas


A revelação é do ministro Mendonça Filho, da Educação, em palestra na Associação Comercial de São Paulo. Disse mais: no Brasil, apenas 8% das matrículas do ensino médio são de escolas técnicas, ante 40% em países europeus.


  Por João Batista Natali 28 de Novembro de 2016 às 15:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O ministro da Educação, José Mendonça Bezerra Filho, afirmou nesta segunda-feira (28/11) que apenas 11% dos alunos da 3a série do ensino fundamental estão plenamente alfabetizados.

Ou, em termos técnicos, têm um desempenho de nível quatro na leitura e escrita da língua portuguesa.

O ministro foi o palestrante de sessão conjunta de dois conselhos da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) – o Conselho Político e Social (Cops), coordenado pelo ex-senador Jorge Borhnausen, e o Conselho de Economia (COE), coordenado pelo economista Roberto Macedo.

Os trabalhos foram abertos pelo primeiro vice-presidente da ACSP, Roberto Mateus Ordine.

O exemplo do baixo índice de proficiência em alfabetização foi citado pelo ministro como exemplo das tarefas que ainda precisam ser cumpridas, no Brasil, no plano educacional.

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O fato de seu ministério ter privilegiado nos últimos seis meses o ensino médio, e não o fundamental, não sinaliza propriamente um paradoxo.

Mendonça Filho disse que seria impróprio se lançar de início no ensino fundamental, que é basicamente uma atribuição dos municípios, no momento em que os mais de 5.500 prefeitos estavam em fim de mandato.

O ensino médio é objeto de uma Medida Provisória enviada ao Congresso e que deve ser votada no primeiro semestre de 2017. 

Ele respondeu aos críticos que preferiria um projeto de lei, com tramitação mais morosa, para permitir mais amplo debate nacional.

Segundo o ministro, o tema já é objeto de discussão desde o final dos anos 1990, "e nunca tivemos a felicidade de ver as mudanças saindo do papel".

UMA "JABOTICABA" NO ENSINO MÉDIO

Ele criticou o modelo do ensino médio em vigor – "uma jaboticaba" -, pelo qual os três anos de ensino têm um currículo único e fixo, quando, por exemplo, a física não deveria ser lecionada de maneira semelhante para um estudante que queira fazer engenharia ou outro que prefira estudar direito.

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Mas insistiu também no peso muito pequeno dos cursos técnicos no ensino médio. Eles têm apenas 8% dos matriculados, ante a média de 40% nos países europeus e mais de 50% na Alemanha.

"Desde 2011 não se atingem as metas de ensino médio no Brasil", disse Mendonça Filho.

Enquanto isso, 1,7 milhão de jovens não trabalham e não estudam, enquanto o desempenho em português e matemática é hoje pior que há duas décadas.

Citou como "prioridade essencial" também a educação infantil, já que hoje o país tem 700 mil crianças sem acesso à pré-escola, e também o ensino superior, onde o Ministério da Educação tem sua alçada direta.

No ensino superior, disse Mendonça Filho, há hoje mais vagas proporcionalmente que no passado. Mas não é mais a mesma a correlação entre instituições públicas e privadas.

Ao final do governo Fernando Henrique Cardoso, 60% das matrículas se davam em instituições particulares. Esse número cresceu e chega agora a 75%.

Embora o ensino superior público tenha sido objeto de investimentos, o maior crescimento do setor privado foi sobretudo permitido por programas como o Prouni e o Fies (sistemas de bolsas) que o atual governo pretende continuar, levando em conta sugestões da comunidade acadêmica e do Tribunal de Contas da União (TCU).

"Precisamos reformular o Fies para garantir sua saúde financeira. Dados do TCU projetam rombos estratosféricos, que aconteceram porque o programa foi potencializado nas vésperas das eleições. Ele precisa ser um programa de Estado, sustentável."

700 OBRAS PARALISADAS

Mendonça Filho fez um balanço sumário da situação que encontrou em seu ministério. O orçamento era de R$ 129 bilhões, mas com R$ 6,4 bilhões contingenciados pela administração anterior. 

Já na administração atual foram liberados mais R$ 4,7 bilhões, "para que toda a máquina da educação voltasse a funcionar".

Ele citou cerca de 700 obras paralisadas, sobretudo institutos federais de educação técnica profissionalizante e instalações de universidades federais. 

"Além disso – disse ele – os programas estavam em franco estado de inadimplência", como a inexistência de uma previsão de orçamento para as bolsas do Fies, que finalmente foi objeto de 75 mil novos contratos.

 

FOTO - Thaís Ferreira