Brasil

Será que pode até dar Joaquim Barbosa ou Luciano Huck?


Ao lado de candidatos já lançados à sucessão de Temer, o ex-ministro do STF (esq.) e o apresentador de televisão entram na disputa com a vantagem de não estarem contaminados pela política


  Por João Batista Natali 16 de Novembro de 2017 às 14:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Para a sucessão de Michel Temer, vai dar Lula ou Bolsonaro?  A pergunta está mal formulada, porque o jogo está mais que indefinido.

Há, por exemplo, a suspeita de um rápido crescimento de Luciano Huck, que já tem as portas abertas pelo PPS.

Outro nome de fora do establishment tradicional – o que é uma imensa vantagem, diante do senso comum de que a classe política apodreceu –é o do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, com portas abertas pelo PSB.

Os que compram a pule desses dois nomes teriam hoje alguma chance de saírem vencedores.

Mas deixemos de lado o hábito superficial de comparar qualquer outsider com aquilo que, em 1989, representou Fernando Collor de Mello.

Nada a ver, sobretudo porque o então senador e ex-governador de Alagoas disputou, já o primeiro turno, com um pesado esquema partidário.

Um tanto oficioso, pela cisão que ele provocou no então PFL de Aureliano Chaves e no PMDB de Ulysses Guimarães, ambos na época também candidatos.

Ou seja, Collor foi um dos representantes do sistema, e só por isso se elegeu.

Seria hoje também o caso, no PSDB, do prefeito paulistano João Doria, caso o gás do balão que o transportava não tivesse vazado por furos que ele próprio não suspeitava.

A sucessão de gafes e inabilidades – como as ofensas a Alberto Goldman, hoje presidente interino de seu partido – “rebaixou” Doria à condição de um bom candidato a governador de São Paulo. O que já está de muito bom tamanho.

A INCÓGNITA LUCIANO HUCK

Vejamos Luciano Huck. Aos 46 anos e bem-sucedido apresentador de televisão, ele é formado em direito e jornalismo pela USP e nasceu em berço privilegiado.

É filho do advogado Hermes Marcelo Huck e da urbanista Marta Dora Grostein. E está casado com a também apresentadora Angélica.

Quando há três meses seu nome passou a circular, seus potenciais adversários imediatamente o etiquetaram como “candidato da TV Globo”. O que certamente assustou os controladores daquele grupo de comunicação.

E foram eles próprios, os patrões de Huck, que se encarregaram de cortar esse vínculo, ao divulgarem que até dezembro ele tem prazo para se decidir pela candidatura, circunstância a partir da qual ele seria afastado, e “sem volta”.

Huck se aproximou do PPS (antigo Partido Comunista Brasileiro), hoje uma sigla reformista que batalhou pelo impeachment de Dilma Rousseff e é no máximo uma sigla de centro-esquerda, sem vínculos com o PT.

Mas o virtual candidato tem outros poderes de agregação. O economista Armínio Fraga – ex-presidente do Banco Central sob FHC – o assessora em seu ainda embrionário programa econômico.

É mais que um detalhe. Fraga funciona como uma espécie de chamariz para setores do PSDB desorientados pelo golpe recentemente dado pelo senador Aécio Neves – afastamento de Tasso Jereissati da presidência do partido.

Ou seja, uma parte dos tucanos pode se sentir tentada a fazer com Luciano Huck um percurso partidariamente heterodoxo. O que em parte depende do fôlego nas pesquisas do hoje estacionado governador paulista Geraldo Alckmin.

JOAQUIM BARBOSA, “HERÓI DO MENSALÃO”

Joaquim Barbosa também está no páreo, embora jamais tenha se anunciado como candidato. Mas não dispensa convites para palestras em universidades e disse ao PSB que “até janeiro” decidirá se está na sucessão presidencial.

Barbosa, negro e com 63 anos, é o candidato dos sonhos no imaginário difuso de qualquer brasileiro, por sua origem bastante modesta e pela energia que demonstrou no STF durante o processo do mensalão.

Na época, enfrentou com invejável energia os ministros Gilmar Mendes, um ortodoxo em termos de procedimentos da Procuradoria Geral da República, e Ricardo Lewandowski, visto como um homem simpático a Lula e a Dilma.

Foi Barbosa quem colocou na cadeia o ex-presidente do PT, José Genoíno, e o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Tornou-se uma espécie de ícone do antipetismo. Tanto que, ainda ministro, foi certa vez verbalmente agredido por um assessor da deputada Érica Kokay (PT-DF).

Joaquim Barbosa firmou a imagem de “justiceiro”, num momento em que, com o Mensalão e às vésperas da Lava Jato, formou-se o consenso baseado em fatos concretos sobre a extensão da corrupção no meio político.

Barbosa também pode arrematar algumas adesões à esquerda. Já que ele tomou posição contra o impeachment de Dilma e, por isso, passou a receber olhares benevolentes dentro do próprio PT.

E HENRIQUE MEIRELLES?

E o atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles? É também um outsider, e que estaria recebendo apoios muito sólidos de empresários e do meio acadêmico liberal, caso seu nome fosse viável.

A inviabilidade – momentânea – se dá em razão do ânimo reduzido com que a candidatura circulou no PSD, partido do ministro Gilberto Kassab.

Mas Meirelles prossegue com uma agenda razoável de encontros com a comunidade evangélica, que formaria uma tábua suplementar para que ele apoiasse seus pés.

Por fim, Meirelles – apesar de seus oito anos como presidente do Banco Central, sob Lula – é um executivo que se tornou milionário dentro de sua profissão (ex-presidente mundial do Bank Boston), e cuja maior vantagem está na intensidade com que as pessoas acreditam que nada há de negativo contra ele.

Exemplo disso é o fato de sua reputação não ter sido contaminada pelas grotescas trapalhadas dos irmãos Joesley e Wesley Batista, por mais que Meirelles tenha sido presidente do conselho da J&F.

Estamos, então, nesse ponto. Lula segue encabeçando as intenções de voto. Mas sua rejeição (56%) é tão grande que provavelmente ele seja inviável no segundo turno, caso a Justiça Federal de segunda instância o deixe chegar lá.

Bolsonaro é um episódio à parte. O pior que poderia acontecer com ele seria disputar a eleição com pouquíssimas lideranças a apoiá-lo e, o que consistiria em algo da mesma simetria, muito mais lideranças falando mal dele.

É a condição própria à desidratação de uma candidatura, que é paradoxalmente lembrada nas redes sociais por simpatizantes do PT, na medida em que, contra Bolsonaro, Lula teria alguma esperança de sucesso.

A verdade é que, caso um marciano aterrissasse hoje no Brasil e procurasse o grupo mais astuto e inteligente de informantes, em nenhum momento alguém poderia apontar para ele o nome do candidato que vencerá as eleições para presidente.

Já que é assim, fiquemos ao lado do amigo marciano, em nossas mais íntimas e doloridas imprevisibilidades.

 

FOTOS: Antonio Cruz/Agência Brasil e Justo Ruiz/Creative Commons