Brasil

Segundo turno terá a esquerda contra um liberal


Previsão é do cientista político Murillo de Aragão, para quem não haverá necessariamente, em outubro, a repetição do confronto entre PT e PSDB


  Por João Batista Natali 02 de Agosto de 2018 às 14:05

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Embora não se saiba ao certo se o segundo turno da eleição presidencial oporá PT e PSDB, tudo indica que a Presidência da República será decidida entre um candidato de esquerda ou centro-esquerda e, do outro lado, um concorrente de centro ou centro-direita.

É esse o cenário traçado pelo recente boletim da Arko Advice Pesquisas, consultoria criada em 1982 pelo cientista político Murillo de Aragão, que ainda coordena a publicação.

A seu ver, das pesquisas não deverão refletir mudanças significativas até o início da propaganda eleitoral, em 16 de agosto, e a propaganda que vai ao ar no rádio e TV, duas semanas depois.

Ele constata que são cinco os candidatos mais competitivos: Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT), um nome do PT (provavelmente Fernando Haddad) e Marina Silva (Rede).

Mas Bolsonaro e Marina estão desde já prejudicados pela ausência de uma estrutura partidária capaz de levar adiante uma campanha de peso.

No caso da candidata da Rede, em 2010 e 2014 seu nome foi impulsionado como terceiro polo, num cenário de polarização entre tucanos e petistas. Hoje, no entanto, essa função é ocupada por Bolsonaro e Ciro.

A FORÇA DA MÁQUINA

Sem a doação de empresas, as campanhas serão previsivelmente mais baratas e dependerão da estrutura partidária, dos palanques estaduais, do tempo de TV e do controle da máquina administrativa.

Esses ingredientes faltam ao ex-capitão do PSL e à candidata da Rede, por mais que ambos catalisem o sentimento dos eleitores críticos ao perfil tradicional dos políticos.

Fernando Haddad, caso se candidate, terá à disposição a máquina e as alianças regionais do PT. O fato de ele aparecer com 1% a 2% das intenções é irrelevante, diante da disposição de 30% dos eleitores de votarem no nome indicado por Lula. Vem daí as chances para que ele seja um dos finalistas de 28 de outubro.

Na lupa dos candidatos também está a regionalização dos votos. O Sudeste reúne 43,3% dos eleitores, seguido pelo Nordeste (26,9%), Sul (14,5%), Norte (7,7%) e Centro-Oeste (7,1%).

ALIENAÇÃO E FUNDO PARTIDÁRIO

A expressão designa a soma da abstenção com os votos nulos e em branco. Todos os candidatos, sem exceção, esforçam-se para que essa parcela de eleitores seja reduzida ao máximo.

Mesmo assim, depois de um pico em 1998 (40,19%) e uma queda inédita em 2006 (25,16%), a alienação eleitoral voltou a subir e chegou a 29% nas eleições presidenciais de 2014.

Nessa última disputa, na qual Dilma Rousseff se reelegeu, pela primeira vez os votos em branco (5,8%) superaram pela primeira vez a porcentagem de votos nulos (3,84%).

A previsão de Aragão é a de que a alienação possa este ano crescer. Além da descrença pela política, existem os resquícios dos escândalos de corrupção revelados pela Lava Jato.

Vejamos a parcela de cada partido no fundo partidário e no fundo especial de financiamento de campanha. É um dinheiro previsto pelo Orçamento da União, totalizando R$ 2,4 bilhões.

O PT é o partido com a maior dotação: R$ 313 milhões. Seguem-se o MDB (R$ 317 milhões) e o PSDB (R$ 271 milhões). Ao pé da lista, com pouco menos de R$ 3 milhões, estão o PCB, o PCO, o PMB e o Novo.

A Rede, de Marina Silva, tem em caixa R$ 15,3 milhões. E o PSL, de Bolsonaro, R$ 15,6 milhões.

Um detalhe sobre o qual o boletim da Arko não se detém é o fato de essas quantias não se destinarem apenas às campanhas presidenciais. Os partidos também elegem, este ano, senadores e deputados federais, governadores e deputados estaduais.

Ou seja, haverá uma divisão do fundo, segundo critérios que cada sigla é soberana para definir.

Tampouco existem regras para as coligações. Geraldo Alckmin fez acordo com os partidos do chamado centrão. Mas eles não têm a obrigatoriedade de encaminhar parte do dinheiro para o candidato a presidente da República.

Depois do fechamento dessa edição do boletim, coisas importantes aconteceram.

A principal foi o acordo entre o PT e o PSB para que os socialistas se mantivessem neutros na disputa presidencial. Em outras palavras, para que eles não se aliassem a Ciro Gomes.

A proposta, costurada por Lula (ele anda extremamente ativo, apesar de estar preso) aumenta as chances eleitorais do candidato que o ex-presidente indicar para substituí-lo como o nome do PT.

Em temo: Murillo de Aragão alinha longos argumentos para concluir que “a candidatura de Lula é uma possibilidade remota”.

Algo que os mais sensatos já sabem há tempos, mesmo se os advogados do ex-presidente e a direção do PT afirmem que “Lula é candidato”. Uma maneira de usar a inverossimilhança com argumento judicial e político.

 

FOTO: Guto Camargo/Diário do Comércio/Montagem sobre fotos de Rovena Rosa/Agência Brasil e Paulo Pinto/AGPT