Brasil

São Paulo, 464 anos. E não faltam problemas


Apesar dos avanços, a cidade tem pouco a comemorar em seu aniversário. É congestionada, tem 11% de favelados, baixa quilometragem de metrô e um sistema público de ensino deficiente,


  Por João Batista Natali 24 de Janeiro de 2018 às 15:30

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A cidade de São Paulo completa 464 anos nesta quinta-feira (25/01), e o que não faltam são problemas que afetam o conforto e a segurança da população.

Mas é preciso temperar a percepção de que as coisas nunca estiveram tão ruins como agora. A vida do paulistano não é satisfatória. Mas já esteve bem pior.

Veja o caso da segurança pública. Pelos dados do governo do Estado, a capital registrou em 2016 (última estatística disponível) 7,25 homicídios dolosos para cada 100 mil habitantes.

Em 1999 esse número era incomparavelmente maior: 52,6. E a queda foi constante.

Furto ou roubo de veículos caiu no mesmo período de 1.108 para 711, também para cada 100 mil moradores do município.

Em contrapartida, pelos registros dos boletins de ocorrência os furtos e roubos aumentaram, passando nos dois crimes de menos de 1.100 para 1.575 (roubos) e 1.370 (furtos).

Esses números têm explicações complicadas. De um lado, a violência urbana é mais contida por meio de maior policiamento  e de um sistema prisional que hoje tira de circulação um número maior de criminosos.

A população carcerária passou de 170 mil para 226 mil em todo o Estado de São Paulo.

Ao mesmo tempo, no entanto, o crime praticado por organizações criminosas – São Paulo é território do Primeiro Comando da Capital (PCC) -está fora de controle quando o assunto é o mercado das drogas.

HABITAÇÃO POPULAR

O rápido crescimento paulistano levou à aparição de favelas no início da década de 1940.

Segundo o último censo do IBGE, hoje 11% dos paulistanos vivem de maneira precária em cortiços ou nessas comunidades. São 2,16 milhões de pessoas.

Existem duas maneiras para que esse quadro diminua. Por meio do mercado, com a qualificação ou o aumento do poder aquisitivo dessa população para que ela compre sua própria moradia, ou por meio de programas assistenciais, em que o governo federal, o Estado e o município fornecem moradias populares, com financiamentos altamente subsidiados.

A questão é que o município vive um déficit de 230 mil moradias.

O aumento do poder aquisitivo dos mais pobres ocorreu entre 2004 e 2012 – bem mais pelo trabalho que pelo bolsa família. Mas a recessão provocou recuo nesse processo.

Com relação aos programas habitacionais, o fôlego dos cofres públicos é bem curto. Para nos limitarmos à Prefeitura paulistana, o plano dela é construir 17,5 mil moradias em três programas em curso.

Uma das consequências do descompasso entre a demanda e a oferta de habitações subsidiadas está nas cerca de 720 ocupações.

É o tipo de ação que fortalece a principal entidade envolvida, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que por sua vez pressiona e chantageia os poderes públicos e, ao menos na administração petista de Fernando Haddad, tinha uma cota sobre os novos imóveis entregues.

Ou seja, a Prefeitura permitia que os filiados ao MTST furassem a fila dos favelados cadastrados, irregularidade pela qual o Ministério Público do Estado se interessou.

MOBILIDADE URBANA

Um dos grandes engodos da última administração petista consistiu em vender a ideia de que as ciclovias representavam uma forma avançada de mobilidade urbana.

O que era estatisticamente marginal –430 quilômetros riscados no chão -se tornou o centro de uma operação de propaganda.

O grosso da população utiliza os ônibus. Circulam hoje 13,6 mil veículos em 1,3 linhas. Os dois números diminuirão nos três próximos anos, segundo a administração João Doria, em nome de uma racionalidade que diminua a superposição de linhas.

O que interessa, no entanto, é saber se os ônibus são rápidos e confortáveis. Nesses dois quesitos, as notas que o sistema merece são bastante baixas.

Entre janeiro de 2017 e janeiro de 2018, nos corredores –em que os ônibus desempenham maior velocidade –, os veículos passaram a circular mais devagar, de 22,4 quilômetros por hora, contra 23,3 quilômetros por hora há um ano.

Com relação ao metrô, o sistema, que se tornou operacional em 1974, cresce a uma velocidade muitíssimo insatisfatória.

Uma única comparação. Em Xangai, na China, entre 2003 e 2019 a malha metroviária foi multiplicada por quatro e chegou a 420 quilômetros. São Paulo, enquanto isso, tem hoje apenas 81,1 quilômetros.

Um dos desdobramentos dessa deficiência está nos congestionamentos, com relação aos quais há uma medição internacional, do Global Traffic Scorecard.

Por esse medidor, São Paulo é a sexta cidade mais lenta do mundo, obrigando os motoristas a passarem 77 horas por ano presos no trânsito.

O Global Traffic mede 1.064 cidades em 38 países, e o último dado é de 2017.

ENSINO PÚBLICO

Não faltam escolas em São Paulo. Pelo contrário. Com a queda da natalidade desde o início dos anos 1980, há salas de aula ociosas nas redes estadual e municipal.

Mas o problema não está na existência de vagas para todas as crianças e adolescentes. A questão está na qualidade do ensino.

Segundo o IBGE, a rede paulistana tem 1,3 milhão de alunos no ensino fundamental e 505 mil no ensino médio. São ao todo 4,3 mil escolas e 102 mil professores.

O desempenho, porém, é sofrível. O Ideb, avaliação que mede o conhecimento dos alunos, traz nota 6,1 no início do ensino fundamental, e 4,3 no final desse mesmo ciclo.

A questão básica está na qualificação dos professores (e não apenas na remuneração que eles recebem, que é um critério dos sindicatos).

Faz então cada vez mais sentido o sistema de metas, fixado pelo governo do Estado, pelo qual os professores ganham uma bonificação.

Estamos longe, no entanto, de parâmetros educacionais de países que até há duas ou três décadas estavam em situação idêntica à do Brasil, como a Coreia do Sul, que fez avanços significativos em matemática, indício de qualificação da mão-de-obra.

 FOTOS: Rafael Nedermeyer e Luiz Gonzaga de Souza (Creative Commons)