Brasil

Saiba por que cresceu o pessimismo dos brasileiros


Pesquisa do Datafolha mostra que 62% dos jovens gostariam de emigrar, consequência de um quadro político deteriorado. Mas indicadores do país continuam a melhorar


  Por João Batista Natali 19 de Junho de 2018 às 10:44

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O horizonte dos brasileiros anda tão nublado com más notícias que nem a Copa do Mundo significou, desta vez, uma pausa capaz de soprar algum otimismo.

Um dos sintomas desse clima foi revelado no último domingo, 17/06, pelo Datafolha. Se tivessem condições, 62% dos cidadãos de 16 a 24 anos se mudariam para outro país.

Mas não são só eles. Para os que têm até 34 anos, 50% seguiriam o mesmo exemplo. E é também o que fariam 24% dos brasileiros com mais de 60 anos.

E não é uma questão apenas de idade. Deixariam o Brasil 56% daqueles que têm curso superior e 49% dos que pertencem aos extratos de maior renda.

Como em qualquer consenso relativo que cubra extratos tão extensos da população, esse pessimismo reúne um conjunto de fatores que não são apenas econômicos ou políticos. A percepção é de que as coisas estão indo mal e tendem a não melhorar.

O PAÍS ESTÁ MELHOR

Não é, no entanto, uma percepção correta. A rigor, existe um engano por parte dos pessimistas. Ocorre que os indicadores com informações positivas são invisíveis ao senso comum – e, portanto, às trocas de ideias entre amigos ou familiares.

Vejamos alguns exemplos. A mortalidade infantil, que era de 150 por mil nascidos vivos há pouco mais de 60 anos, aproxima-se de padrões de países desenvolvidos. Já havia caído para 28,9 em 2008. E num curto período de sete anos caiu novamente para 13,8. No Estado de São Paulo, ela é de 10,7.

A porcentagem de brasileiros na miséria decresceu de 35%, em 1995, para 16,5% em 2007. O índice voltou a subir até 2016, mas, a seguir, melhorou novamente. A recessão deixou 4 milhões a mais de brasileiros nessa situação, sem se igualar, no entanto, ao resultado de há duas décadas.

O grande salto é anterior ao governo Lula e ao programa de renda mínima. O Plano Real (1994) levou ao imediato crescimento, em 30%, da renda dos mais pobres. São dados do economista Marcelo Neri, o grande especialista em pobreza.

No ano passado, 46,6 milhões de crianças a adolescentes estavam matriculadas nos cursos básicos. Eram 200 mil a menos que no ano anterior, mas em razão da queda demográfica. Não há criança com falta de vagas nas escolas.

O PIB per capita era de R$ 15 mil, em 1990 e, em números desinflacionados, chega hoje a R$ 22 mil.

Todos esses dados estão longe dos padrões da Dinamarca, Alemanha ou Canadá. Mas demonstram que o país não está parado e nem caminha para trás.

E também demonstram que as políticas públicas são eficientes. Associadas ao trabalho dos cidadãos, esses indicadores demonstram que o Brasil está bem melhor que num passado não tão recente, quando mais da metade da população era analfabeta (censo de 1950) e quando a renda dos mais pobres se aproximava do salário mínimo (censo de 1970).

Por que, então, o pessimismo?

A primeira explicação é dada pelo fato de as pessoas acreditarem bem mais no que há de negativo no noticiário da mídia.

OS ANOS DE CORRUPÇÃO

A corrupção está em alta? Pode até ser, mas a verdade é que agora ela está bem mais visível por ser mais investigada.

Só a Lava Jato, em Curitiba, condenou em cinco anos, 293 pessoas e 50 empresas. Foram 953 mandados de busca e apreensão, 114 de prisões preventivas e 120 de prisões temporárias.

Sem um parâmetro equivalente no passado, é impossível saber se a corrupção aumentou. O fato, repito, é que ela está hoje mais perceptível em razão da ação da Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário.

No campo da política, a percepção dos brasileiros vive um momento muito ruim desde as manifestações de julho de 2013.

No ano seguinte, Dilma Rousseff se reelegeu em meio a uma atmosfera de que conseguiria voltar os ponteiros do relógio e trazer a relativa prosperidade do primeiro governo Lula (em que o trabalho assalariado mais bem remunerado, em razão dos reajustes do salário mínimo, encabeçou a ascensão dos mais pobres).

Mas veio o aperto fiscal comandado – com competência, diga-se – pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. E a seguir o colapso do apoio político da presidente no Congresso.

Com o impeachment, o país já estava mergulhado em seu segundo ano de profunda recessão (recuo de 7% do PIB do biênio).

O ANTICLÍMAX DE MICHEL TEMER

Michel Temer poderia se tornar o gestor da massa falida, mas foi bem mais ambicioso por meio das propostas de reformas. Mesmo assim, ele e seu grupo do MDB já estavam afundados até o pescoço em suspeitas de corrupção.

Dois momentos em 2017 bombardearam o que ainda poderia existir de otimismo para com o atual governo. Foram as fotografias dos R$ 51 milhões de Geddel Vieira Lima (ex-ministro do atual presidente) e a conversa gravada por Joesley Batista no subsolo do palácio do Jaburu.

Vieram as condenações de Lula em primeira e segunda instância (dois terços dos brasileiros acreditam que ele realmente cometeu corrupção passiva) e a aproximação das eleições presidenciais em que o centro e o centro-direita estavam com suas estruturas partidárias chumbadas por acusações ou pela descrença nos políticos.

Diante desse quadro, a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro (PSL) não foi em nada uma esperança de solução, mas um novo sintoma da mesma certeza de que o país estava caminhando para o buraco.

Apesar de tudo, as pessoas – excetuados os 11,3% de desempregados – cumprem suas rotinas de trabalho e lazer.

Mas a cerveja está agora choca. E a Copa do Mundo não é mais daquelas coisas. Tempos em que não se sonha como antigamente.

 

 

Foto: Thinkdtock