Brasil

Refugiados venezuelanos levam Roraima a quadro caótico


Governo põe as Forças Armadas para controlar situação, criada com a chegada de 700 pessoas por dia. Temer estuda impor senhas para atravessar a fronteira (foto)


  Por João Batista Natali 29 de Agosto de 2018 às 13:15

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Roraima é o Estado com a menor população brasileira. Apenas 576 mil habitantes. E é tambem o Estado mais pobre, com uma renda domiciliar média mensal de R$ 1.006, segundo o IBGE.

Mesmo assim, e por um fatalismo de proximidade geográfica, já recebeu 120 mil refugiados venezuelanos.

Ou seja, para cada cinco moradores, um chegou do “paraíso socialista bolivariano” em busca de alimentos e remédios. A ditadura implodiu com a Venezuela, submetendo-a a uma crise humanitária que, segundo a ONU, provocou a emigração de 2,3 milhões de pessoas (7,5% da população).

Diante de um quadro caótico, o Planalto autorizou  nesta terça-feira (28/8) que a crise em Roraima passe a ser controlada pelas Forças Armadas. Não é uma intervenção como a que ocorreu com o setor de segurança pública no Rio de Janeiro, onde os militares substituíram os civis em parte da administração.

Mas é quase isso. Os militares assumirão serviços públicos, sem o estatuto de interventores.

E nesta quarta, em entrevista a uma emissora de rádio de Pernambuco, o presidente Michel Temer afirmou que o governo está estudando a distribuição de senhas para a travessia da fronteira. Em lugar dos 700 venezuelanos que entram diariamente no Brasil, o número ficaria limitado a 100 ou 200.

Em outras palavras, a fronteira estaria submetida a um regime de fechamento parcial.

Em verdade, entre os vizinhos da Venezuela, o Brasil é o que tem menos sofrido com essa imensa pressão demográfica provocada pela miséria.

A situação é bem pior na Colômbia. O Alto Comissariado para os Refugiados da ONU informou, em maio, que 570 mil venezuelanos já haviam entrado naquele país desde 2015, quando a crise econômica dos bolivarianos se tornou mais aguda. Mas há dias o governo de Bogotá informou que o número já havia chegado a 850 mil.

Há também problemas graves no Peru e no Equador. O governo peruano anunciou nesta terça que territórios de sua fronteira equatoriana estão em situação de emergência, em razão do ingresso maciço de refugiados da Venezuela.

Com relação ao Brasil, as estimativas são de que, entre os 120 mil que ingressaram, 60 mil há procuraram outros países de língua espanhola, onde teriam maior afinidade para se colocar no mercado de trabalho.

Os restantes permaneceriam em Roraima ou foram “interiorizados” (Manaus, São Paulo, João Pessoa), mas em números quase simbólicos, como os 187 refugiados transportados para fora de Roraima, esta semana, em voos da FAB .

PRESSÕES POLÍTICAS

A governadora de Roraima, Suely Campos (PP) pediu que o governo fechasse as fronteiras, diante do colapso dos serviços públicos naquele Estado, com a chegada de tanta gente de fora.

O problema é real, mas seus efeitos se multiplicam em razão do sentimento de xenofobia que surgiu de uma hora para outra na região.

Em Pacaraima, uma cidade bem ao norte de Boa Vista, próxima à fronteira, boatos sobre assaltos cometidos por venezuelanos levaram à retaliação violenta sobre os refugiados e à expulsão de alguns deles até a fronteira.

O mesmo ocorreu com brasileiros, diante dos boatos de que mulheres venezuelanas passavam a ocupar leitos de maternidade em que brasileiras já estavam em trabalho de parto. Essas versões não tinham nenhum fundamento.

Suely Campos esteve em Brasília e, em audiência com Temer, pediu que nenhum novo refugiado fosse autorizado a entrar no Brasil. Mas isso contraria todos os tratados internacionais sobre refugiados dos quais o Brasil é signatário.

O assunto chegou ao STF, onde a ministra Rosa Weber também se manifestou no sentido de manter as fronteiras abertas.

No significado mais mesquinho da política, o senador Romero Jucá (MDB-RR), líder do governo Senado, deixou seu cargo nesta segunda-feira (27/8), supostamente em protesto contra a política do Planalto de abrigo aos refugiados.

Jucá está com dificuldades para se reeleger, e transformou o sentimento antivenezuelano em palanque de campanha. Ele também afirma defender o fechamento das fronteiras.

REAÇÕES LENTAS

A verdade é que o governo federal tem reagido com lentidão contra um fenômeno que era visto em Brasília como um assunto secundário.

Poderia ter montado em Pacaraima um hospital militar de emergência, para a vacinação dos que ingressam no país – a Venezuela está exportando sarampo, rubéola e crianças não vacinadas contra a poliomielite –ou para o atendimento de emergência de parturientes que não tinham condições de serem atendidas pelo sistema de saúde venezuelano, que entrou em colapso.

O mais estranho é que o governo federal ainda não liberou os R$ 184 milhões que Roraima pediu para enfrentar os gastos de emergência.

Com isso, é como se aquele Estado brasileiro estivesse “importando”, por meio da inesperada onda migratória, os problemas de saúde e habitação que o país vizinho provocou com seu sistema político irracional e falido.

E, assim, Roraima voltou para o mapa da atualidade jornalística da qual tinha saído, por volta de 2004, quando a demarcação das terras Ianomami estava em contradição com os interesses dos cultivadores de arroz da região denominada Raposa Terra do Sol. A questão ainda está pendente, por mais que os indígenas já sejam, por direito, proprietários daquelas terras.

 

FOTO: Geraldo Maia/Agência Brasil