Brasil

Radicalização do PT atinge agora até a Netflix


Série sobre a Lava Jato, O Mecanismo (foto), de José Padilha, é esculhambada por petistas em redes sociais. Ministro Fachin sofre ameaças e caravana de Lula é atingida por tiros no Paraná


  Por João Batista Natali 28 de Março de 2018 às 14:40

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O Brasil entrou num momento perigoso de radicalização.

Nesta terça (27/03), em entrevista à Globonews, o relator da Lava Jato e do habeas corpus de Lula no STF, ministro Edson Fachin, revelou que ele e familiares estavam recebendo ameaças anônimas.

O que levou a presidente do tribunal, ministra Cármen Lúcia, a pedir escolta policial para ele e investigações sobre o fato.

Na mesma noite, dois dos três ônibus da caravana de Lula foram atingidos por tiros no município paranaense de Quedas do Iguaçu. O ex-presidente não ocupava nenhum dos veículos, que estavam reservados à mídia e a convidados.

Os dois episódios coincidem com a maior histeria eclodida nos últimos meses nas redes sociais, provocada por petistas em razão dos oito episódios da série O Mecanismo, dirigida pelo cineasta José Padilha para a rede de streaming Netflix.

É uma peça com personagens fictícios que reproduz o amplo esquema de corrupção desmontado pela Lava Jato.

“A direção da Netflix não está sabendo onde se meteu”, alertou, ameaçadora, a ex-presidente Dilma Rousseff, que regularmente abandona o anonimato para tomar partido de Lula e do PT.

Um colunista do semanário Carta Capital fez um apelo aos petistas para que cancelassem a assinatura do Netflix, que ele próprio anunciou que deixaria de resenhar.

Fechava-se um quadro em que o ódio político se tornou um instrumento natural de confronto.

Antipetistas e petistas –foram os últimos que deram os chutes iniciais -não têm mais adversários partidários. Têm inimigos que, a exemplo dos conflitos bélicos, precisam ser desmoralizados e destruídos.

Sobre os tiros do Paraná, a hiperbólica senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, afirmou que havia ocorrido uma “emboscada”, e que “querem matar o presidente Lula”.

No campo oposto, o governador paulista Geraldo Alckmin, candidato presidencial do PSDB, afirmou que os petistas “estão colhendo o que plantaram”. Horas depois, amenizaria a declaração e condenaria qualquer demonstração de violência.

Até o presidente Michel Temer entrou na história, e declarou nesta quarta que o incidente no Paraná “cria um clima de instabilidade no país”.

Em tempo. Ao contrário do que fizeram no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, os dirigentes petistas que coordenam a caravana de Lula não haviam pedido, para o Paraná, proteção das polícias militares (estaduais) ou da Polícia Federal.

UM CENÁRIO ENVENENADO

O curioso é que o incidente numa estrada noturna paranaense relegou a segundo plano as ameaças denunciadas pelo ministro Fachin.

Ele se dispõe a negar o habeas corpus a Lula – um voto favorável a sua prisão -, depois que o TRF4, de Porto Alegre, rejeitou na segunda-feira (26/03) recursos dos advogados do ex-presidente.

As ameaças são como um conto policial em que petistas ocupam o papel do mordomo.

Sobretudo com a aproximação da sessão de 4 de abril, em que o STF dará a palavra final sobre a prisão de Lula, que, enquanto isso, simula ser candidato à Presidência, embora seja agora ficha suja.

Mas, em lugar de Fachin, prevaleceu no noticiário os tiros no Paraná. Eles foram disparados ao menos por duas pessoas, uma a cada lado dos ônibus.

Os criminosos usaram armas de pequeno calibre. Foi algo mais para chamar patologicamente a atenção, e não para atingir fisicamente integrantes da caravana.

Uma iniciativa tem sido excepcionalmente conturbada, além de atrair bem menos gente que as caravanas anteriores.

Em Bagé (RS), Lula precisou mudar de itinerário e desistir de uma palestra em universidade, porque sua rota estava bloqueada.

Foram ao todo oito incidentes, em que os excursionistas petistas foram confrontado por ruralistas, partidários da candidatura presidencial do deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ).

Em São Miguel do Oeste (SC), em comício noturno, o palanque ocupado por Lula foi atingido por ovos atirados de um prédio.

UM LONGO E PERIGOSO HISTÓRICO

A radicalização contra o dirigente petista tem raízes antigas e profundas. Entre 2015 e 2016, por exemplo, o impeachment de Dilma foi qualificado de “golpe”, apesar de voto no Congresso e ritual coordenado pelo Supremo, onde Lula e Dilma haviam indicado sete dos 11 ministros.

Durante o julgamento do mensalão, o então ministro do STF Joaquim Barbosa quase foi fisicamente agredido por um assessor da deputada Érika Kokay (PT-DF). Nas redes sociais, o cidadão se tornou uma espécie de herói do momento.

O próprio Lula ameaçou transformar o MST em milícia (o “Exército do Stédile”) para combater os adversários.

O ambiente se adensou com a Lava Jato e a descoberta que o PT chefiara, com seus aliados (PP, MDB), um esquema de corrupção que drenou R$ 9 bilhões da Petrobras.

Com o próprio Lula no banco dos réus, prevaleceu a narrativa de que as decisões judiciais contrárias ao PT deveriam ser moralmente rejeitadas, por exemplificarem um complô das elites e da mídia.

A SÉRIE DE PADILHA

É com relação a essas condenações que José Padilha, cineasta de Tropa de Elite e Narcos, tomou como tema a Lava Jato.

Parte dos personagens são reais, embora apareçam com outros nomes. É claro que o PT, o MDB e até o PSDB entram na berlinda com as parcelas de culpa apuradas até a prisão do empresário Marcelo Odebrecht, desfecho do último episódio.

A declaração de Dilma e o texto da Carta Capital contra Padilha desencadearam uma guerra ruidosa na internet.

A ex-presidente acusou o cineasta de produzir “fake News”, um hábito também cultivado pelo presidente Donald Trump para qualificar o noticiário de redes (CNN) ou jornais (The New York Times) que lhe fazem oposição.

Um dos posts mais compartilhados no Facebook atribuía a Padilha o plano de futuramente filmar o “suicídio” de Marielle Franco, a vereadora carioca do Psol que foi, em verdade, friamente assassinada.

A resposta de Padilha a esses ataques, publicada na segunda-feira por O Estado de S. Paulo, foi bastante certeira.

“Os bandidos – disse ele - entram na sua casa, estupram a sua esposa, matam seus filhos e roubam tudo o que você tem. Na saída, surrupiam seu isqueiro. A esquerda viu a série e quer debater a cor do isqueiro.” Falou e disse.

 

FOTO: Karima Shehata/Netflix/Cena da série O Mecanismo, de José Padilha