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Quem serão os dois finalistas da disputa presidencial?


Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) são os mais bem colocados, mas todos os três carregam dificuldades delicadas para superar


  Por João Batista Natali 16 de Agosto de 2018 às 08:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Quais serão os dois finalistas do segundo turno presidencial? Espremendo as previsões de alguns candidatos com as de cientistas políticos e analistas de pesquisas, há três cenários em pauta.

Pelo primeiro, Fernando Haddad (PT) enfrentaria Geraldo Alckmin (PSDB). Pelo segundo, seria Haddad contra Jair Bolsonaro (PSL). E, pelo terceiro, Bolsonaro contra Alckmin.

Só uma bola de cristal ou componentes extranaturais permitiriam apostar em apenas uma dessas alternativas. Mas o fato é que esses três nomes despertam dúvidas e incertezas. Aqui estão elas:

FERNANDO HADDAD

A grande desvantagem do candidato petista está no timing para que se desvende o grande segredo de polichinelo das esquerdas. A saber: Lula não pode e não será candidato.

Acontece que o calendário que o PT desencadeou nesta quarta-feira (15/8), registrando no Tribunal Superior Eleitoral a candidatura do ex-presidente, tem muito de ficção política mesclada à necessidade de usar ao máximo a campanha como forma de defesa no plano criminal.

Quanto mais Lula bater na tecla de que é vítima de uma imensa conspiração, mais ele poderá convencer seus partidários de que basta pressionar o Judiciário para que o réu condenado em segunda instância não caia nas malhas da Lei da Ficha Limpa e, de lambuja, possa deixar a carceragem da Polícia Federal de Curitiba.

Esse pensamento é o que prevalece na movimentação dos petistas. É um faz-de-conta em que até juízes dos tribunais superiores são instrumentalizados para dar verossimilhança a uma imensa ficção.

Nesses cálculos, Haddad é um simples coadjuvante. Ou, de acordo com a mentira necessária para que essa narrativa funcione, ele é apenas um candidato à vice-presidência da República.

Para os dirigentes petistas para os quais Lula jamais se engana ou comete erros, tal ideia traz embutido um cronograma: o vice viraria o titular da chapa no undécimo minuto. Ou seja, por volta de 15 de setembro.

Só então o PT admitiria que Haddad é o verdadeiro candidato, e, como num conto de fadas para consumo dos eleitores dos rincões do Nordeste (onde Lula leva uma incomparável vantagem), todos os simpatizantes se uniriam em torno do concorrente oficial.

Essa hipótese, dizem seus defensores, tem como precedente o nome de Dilma Rousseff, uma virtual desconhecida, no início da campanha de 2010.

Mas a comparação é imperfeita, argumentam outros petistas e não-petistas, já que Dilma foi lançada com muita antecedência e teve tempo de sobra para se firmar como a sucessora de Lula.

No caso de Haddad, nome praticamente desconhecido fora de São Paulo, não daria para acender de um momento para o outro a luz pendurada nesse novo poste eleitoral.

JAIR BOLSONARO

O ex-capitão do Exército, que encabeça as pesquisas de intenção de voto em que o nome de Lula não aparece, traz duas características de efeitos contraditórios.

De um lado, ele é a novidade do momento, alguém que catalisa o sentimento contrário aos políticos e à pecha de desonestidade que a Lava Jato ajudou a grudar na testa de todo e qualquer ocupante de um cargo eletivo da República.

De outro, porém, ele é vulnerável pela falta de consistência das propostas que vem apresentando. Bolsonaro é bem mais um conjunto de reações (às esquerdas, à criminalidade, à queda dos padrões morais que abrigavam, por exemplo, a luta contra o aborto) do que o personagem propositivo.

Digamos que ele saiba disso e não se incomode nem um pouco. Mas depois do debate da Band, ele ganhou um concorrente que pode tirar-lhe votos, o cabo Daciolo, que aparenta ser apenas um personagem histriônico, mas que fará de tudo para se colocar como alternativa para eleitores conservadores e de pequena escolaridade.

Bolsonaro também demonstrou ser vulnerável no plano ético. A acusação que foi feita a ele durante o debate da Band por Guilherme Boulos (Psol), de que ele teria no gabinete uma funcionária fantasma, acabou sendo confirmada, dias depois, pela Folha de S. Paulo.

A funcionária existe, vende açaí em Angra os Reis e recebia como servidora da Câmara dos Deputados para alimentar os cachorros da casa que o ex-capitão possui naquela cidade do litoral fluminense.

Esse episódio pode ser em breve esquecido. Mas os adversários do candidato farão de tudo para que ocorra exatamente ao contrário. Ou seja, para que isso se torne um dos motes de campanha.

E os empresários que aderiram à candidatura dele? Pois continuarão a apoiá-lo, em que pese o irrealismo de propostas como a de criação de um superministério da área econômica (Fazenda, Planejamento, Indústria e Comércio) que seria, a rigor, ingovernável por seu gigantismo.

GERALDO ALCKMIN

O ex-governador de São Paulo tem, diante de si, um caminho marcado por sérios obstáculos. E que são, basicamente, em número de três.

1 – Imagem do político tradicional. Em tempos de desprestígio das atividades do homem público com mandato eletivo, Alckmin é quem mais se encaixa no estereótipo que indica o imobilismo, a não-mudança. Seus marqueteiros identificam essa característica como a grande dificuldade que ele terá para reconquistar os eleitores que lhe eram fieis no interior do Estado de São Paulo, e que agora se encantaram com Jair Bolsonaro.

2 – Investigações judiciais. Em nenhum momento a Polícia Federal e o Ministério Público acusaram o ex-governador de enriquecimento ilícito ou de propinas que aumentaram seu patrimônio. Mas pelas campanhas que já disputou (três a governador, uma a prefeito da capital e outra a presidente da República), o dirigente tucano operou com um sistema perverso de doações de grandes empreiteiras. E elas tinham por hábito doar uma parcela legalmente e outra parcela em caixa-dois. Isso degenerou em acusações sobre o Metrô e o Rodoanel. Se Alckmin destinar suas energias para permanecer na defensiva, seu caso estará eleitoralmente perdido. O futuro imediato depende não apenas dele, mas da malícia e habilidade de seus adversários.

3 – Aliança com o centrão. O ingresso desses cinco partidos na gravitação em torno do concorrente tucano significou, num primeiro momento, a construção de um horário invejável para a propaganda de rádio e TV. Mas deu lugar, ao mesmo tempo, à imagem de um candidato que corre o sério risco de se tornar um refém desses aliados fisiológicos e pouco interessados na modernização das instituições. Alckmin deverá gastar parte de suas energias para tentar desfazer essa ideia, que compromete suas promessas de reformas profundas para criar emprego e renda para a população.

 

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