Brasil

Quem precisa ter medo do terrorismo? Todos nós


Temer reforça segurança para Olimpíadas. Atentado de Nice matou 84. Extremista era um "lobo solitário", perfil que não aparece no radar das redes de inteligência


  Por João Batista Natali 15 de Julho de 2016 às 15:30

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O atentado da noite desta quarta-feira (14/07), na França, é um exemplo de vulnerabilidade de qualquer canto do Planeta, sobretudo do Brasil, a 22 dias da abertura dos Jogos Olímpicos.

O franco-tunisiano Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, de 31 anos, atropelou e matou 84 pessoas – dez crianças ou adolescentes – na Promenade des Anglais, praia da cidade mediterrânea de Nice, onde uma multidão acabava de assistir à queima de fogos pelo aniversário dos 227 anos da Queda da Bastilha e do início da Revolução Francesa.

Entre os 50 feridos graves, 18 permaneciam em estado crítico no início da tarde desta sexta.

O terrorista era portador de uma pequena pistola de uso civil, cujos tiros fizeram poucas vítimas ao fim de dois quilômetros de atropelamentos, em que utilizou como principal arma o caminhão do qual era motorista.

O preocupante no episódio está justamente no perfil de Lahouaiej-Bouhlel. Divorciado e pai de três filhos, ele não aparecia no radar da polícia francesa que rastrea simpatizantes do terrorismo. Tinha passagens policiais por roubo e agressão.

É o terceiro grande atentado na França nos 18 últimos meses. Nos anteriores – carnificinas na redação do Charlie Hebdo e na casa noturna Bataclan – os terroristas estavam articulados em células e tinham claras ligações com o grupo radical criminoso Estado Islâmico.

Os dois episódios tinham motivação de um grupo. Desta vez, no entanto, a iniciativa foi apenas individual, sem que o terrorista pertença a uma rede hierarquizada e com amparo logístico.

É isso que preocupa o Brasil, por mais que as autoridades, até a última quarta-feira, permanecessem discretas quanto a suas preocupações para não prejudicar o clima das Olimpíadas.

O enfoque agora mudou. Tanto que na tarde desta sexta-feira o presidente Michel Temer se reuniu com o ministro da Defesa e dois outros responsáveis pela segurança do evento. A ordem é revisar os planos para torná-los ainda mais rígidos.

O responsável pela segurança, general Luiz Felipe Linhares, afirma que as possibilidades de um atentado "são muito pequenas". Ele menciona, além do dispositivo do governo brasileiro, aquele que será montado pelos mais de 70 governantes estrangeiros que desembarcarão no Brasil.

É verdade. E também é plausível que, sem uma comunidade muçulmana cultural e economicamente isolada, como acontece em países da Europa, o território brasileiro não concentra caldo de cultura para que malucos se reúnam na clandestinidade e partam para a ignorância.

Por alguns anos informações do governo norte-americano indicavam que haveria algo semelhante na região de Foz do Iguaçu.

Mas as autoridades brasileiras acreditavam haver algum exagero, já que se trata de simpatizantes do Hizbollah, grupo xiita libanês que já praticou o terrorismo contra Israel, mas que hoje – excetuada sua participação militar na Guerra Civil da Síria – funciona bem mais como partido religioso e filantrópico, em bairros de Beirute e no Sul libanês.

Outro ponto nevrálgico foi revelado há três semanas pela revista Veja. Seria um plano descoberto pelos serviços de inteligência da França para um ataque do Estado Islâmico à delegação de atletas franceses.

No entanto, o diretor da Abin (Agência Brasileira de Informação), Wilson Trezza, disse não ter recebido a informação e que a ameaça de nível 4, relatada no suposto informe francês, não existe em nenhuma escala com a qual os dois países trabalham.

Isso não quer dizer que inexista um clima tensão. O governo brasileiro tentaria localizar dois extremistas muçulmanos. Um deles é Ahmad Deyab, ex-prisioneiro de Guantânamo que vivia no Uruguai e atravessou clandestinamente a fronteira.

O fato é que nesse período pré-olímpico os cronogramas de inteligência integrada e a troca de informações sobre suspeitos já integra uma rede de 97 governos, na qual o Brasil passou a ter uma posição central.

Pode-se também lembrar que Exército, Marinha e Aeronáutica estão se preparando há três anos para evitar surpresas desagradáveis. E que as Forças Armadas são competentes nessa questão.

Isso basta ? Não. Em caso de emergência, com qual infraestrutura hospitalar as Olimpíadas poderiam contar?

Ainda nesta sexta (15/07), o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro publicou relatório assustador sobre a capacidade emergencial de quatro hospitais públicos. Em razão das finanças públicas do Estado e do Município, eles não teriam leitos para o tratamento das vítimas.

Mas o nó górdio verdadeiro está na imprevisibilidade das ações de indivíduos isolados. O chamado "lobo isolado" é o animal mais perigoso.

A França é um país com altíssima e reconhecida competência em informações sobre o terrorismo. Mesmo assim, não conseguiu evitar que Mohamed Lahouaiej-Bouhlel montasse em seu caminhão numa corrida sanguinária contra uma multidão de inocentes.

IMAGEM: Thinkstock