Brasil

Qual é a autonomia de voo de Ciro Gomes?


Concorrente do PDT tenta unir frente que vai do centrão ao PC do B. O empresário Benjamin Steinbruch, da CNS, filiou-se ao PP para ser seu vice


  Por João Batista Natali 14 de Maio de 2018 às 14:40

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Com Lula (PT) na cadeia e com a desistência de Joaquim Barbosa (PSB), o nome menos vulnerável ao Planalto passou a ser o do ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT).

Na pesquisa feita pela MDA para a Federação Nacional dos Transportes (FNT), divulgada nesta segunda-feira (14/5), ele sobe um ponto e aparece com 9% das intenções.

Não é muito, mas passa a ocupar a terceira colocação, num cenário de intenções de voto bastante fragmentado.

Está atrás de dois prováveis azarões: Jair Bolsonaro (PSL), que sofre ligeira queda, com 18,3%, e que tende a ser derrotado, caso sobreviva até o segundo turno, e Marina Silva (Rede), com 11,2%.

Ela não terá tempo de TV e dificilmente sustentará uma campanha tão consistente quanto a que fez em 2014 –quando chegou a liderar as pesquisas e foi abatida pela propaganda hedionda do PT.

No campo liberal, Geraldo Alckmin (PSDB) tem 5,3%, e Fernando Haddad (PT) aparece com 2,3%.

CANDIDATO DO PDT ESTÁ AGREGANDO

Faltando menos de cinco meses para o primeiro turno de 7 de outubro, o cálculo mais consistente está em saber quem conseguirá agregar até julho um número maior de apoios.

É nesse ponto que Ciro Gomes passa a valer alguma coisa.

Ele deu um salto qualitativo na semana passada com a filiação ao antigo PP – atual Progressistas – de Benjamin Steinbruch, maior acionista e presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e possível candidato a vice na chapa que Ciro deve encabeçar.

Ciro sonhava com um vice do PT. Mas a postura catatônica dos petistas em torno de Lula acabou queimando as pontes e prejudicando a aliança.

Steinbruch, apesar de defender maior intervenção do Estado na economia e estímulos de bancos estatais, é um homem do mercado que permitiria a Ciro Gomes colocar os pés no Centro-Sul, região em que seu nome é mais vulnerável.

Mas Ciro – que também foi ministro da Fazenda de Itamar Franco, quando FHC se desincompatibilizou para se candidatar ao Planalto, e ministro da Integração Nacional no primeiro mandato de Lula –mexe-se, também, para agregar apoios partidários do centro-direita.

Os Progressistas –partido de Paulo Maluf, envolvido até a medula na Lava Jato – seriam um aperitivo para a atração das demais siglas do chamado centrão.

Seriam elas o DEM, o PRB e o Solidariedade – e provavelmente o PTB e o PR – que hoje atravessam um impasse existencial.

O DEM tem um candidato, o deputado Rodrigo Maia (RJ), que apenas esquenta a cadeira do partido para novas composições.

E também se recusa a reconstruir a antiga aliança que mantinha cm o PSDB, posição que não seria tão categórica, caso Geraldo Alckmin tivesse crescido nas intenções de voto.

A ideia do partido de Maia é manter a unidade do centrão para, com a portentosa bancada que pretendem manter (hoje 181 deputados em Brasília), negociar cargos e favores do próximo presidente da República.

Ciro Gomes não prometeu ainda nada a esses partidos. Mas ele sabe que essa miríade fisiológica de siglas pode dar a ele de presente o maior espaço no horário eleitoral.

Será então que o ex-governador do Ceará será refém do bloco com inclinação mais à direita? Certamente não. E aqui vão dois outros condimentos no atual cenário de costuras.

O governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), declarou há dias que seria ótimo se seu partido apoiasse a candidatura de Ciro, também nordestino – em verdade, ele nasceu em Pindamonhangaba (SP), mas fez carreira em Sobral (CE).

Além disso, o que Câmara não disse, Ciro Gomes conseguiria herdar boa parte dos votos que Lula deixará soltos no Nordeste.

Com os socialistas na sua esfera de influência, o candidato presidencial do PDT tem ainda outro trunfo para se distanciar da direita que o apoia.

Um trunfo que se chama Manuela D´Ávila, a candidata presidencial do PC do B, com quem ele tem conversado e que, por uma questão de realismo, sabe hoje que o antigo matrimônio com o PT já é algo do passado.

NINGUÉM SABE O QUE ELE PENSA

Mas essa salada dispare de alianças, a serem ainda costuradas, desperta uma indagação de fundo bem mais séria. Quem é hoje Ciro Gomes?

Ele não tem pressa para responder essa pergunta, e deixará a questão em suspenso quando se trata de tranquilizar o mercado.

Ele não tem um DNA de esquerda. Seu primeiro partido, o PDS, era o que ainda apoiava o presidente Figueiredo no final do regime militar.

Foi do PSDB, pelas mãos do senador cearense Tasso Jereissati, e nessa condição participou do final do governo Itamar.

Mas depois mergulhou numa zona cinzenta, que inclui sua passagem pelo Pros (um partido que serve para qualquer coisa).

Durante o governo Dilma, usou a palavra “golpe” para caracterizar o processo de impeachment, lembrando 1999, quando chegou a defender uma auditoria da dívida externa, o que poderia ser sinônimo de calote dos títulos da dívida pública.

Por vezes destemperado em suas declarações, Ciro foi fiel ao ex-presidente Lula, sobretudo a partir da reeleição de 2006, quando não se candidatou para não fazer sombra ao dirigente petista.

A única obsessão política do ex-governador do Ceará foi a de procurar fragmentar o PMDB, construindo – o que não conseguiu – uma coligação alternativa para apoiar o governo petista.

Com todos os pigmentos do camaleão em sua pele, Ciro Gomes não é nem confiável e nem inconfiável aos olhos das entidades empresariais.

Isso é ao mesmo tempo muito bom e muito ruim. Ou, no mínimo, é uma ambiguidade tática que poderá propulsionar sua atual fase de ascensão.

 

FOTO: Ricardo Stuckert /Instituto Lula