Brasil

PT brinca com o Judiciário. Pode?


Lula abusa de recursos e prazos para manter de pé a versão - em que Gleise Hoffmann (foto) é porta-voz - de que ele é candidato de verdade.


  Por João Batista Natali 16 de Agosto de 2018 às 14:50

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Uma grande peça de ficção eleitoral começou a ser oficialmente encenada às 17h12 desta quarta-feira (15/8), quando o PT protocolou a candidatura de Lula à Presidência da República.

Não há a mínima possibilidade de o ex-presidente concorrer, tanto que a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, em menos de três horas já se contrapunha à farsa e afirmava, em petição, que Lula havia perdido “a capacidade eleitoral”.

A palavra final não é dela. É do ministro Admar Gonzaga, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O caso terá a relatoria do ministro Luís Roberto Barroso, que é também do Supremo.

Nesta quinta (16/8), a procuradora pediu que que passe a contar imediatamente o prazo de sete dias para que a impugnação do pedido de registro seja analisada.

Com isso, ela procura atropelar manobra já armada por dois advogados de Lula – Maria Cláudia Bucchianeri e Luiz Fernando Pereira – que queriam ganhar tempo e esticar esse prazo para 15 dias.

Por trás da manobra, está o desejo inconfesso de manter o ex-presidente como candidato até 18 de setembro. Naquela data, o nome dele já estaria no programa que será inserido nas urnas eletrônicas.

A legislação prevê etapas relativamente numerosas e longas para evitar que isso aconteça. Mas a ideia do PT é tentar criar um fato consumado, com o gosto amargo de uma crise institucional.

Imagine se ele se qualifica para o segundo turno, mesmo preso desde 7 de abril nas dependências da Polícia Federal do Paraná? Se isso acontecer, estará bem-sucedido o plano para emparedar o Judiciário.

Condenado por corrupção e lavagem de dinheiro na primeira instância de Curitiba e no colegiado da segunda instância de Porto Alegre, Lula é inelegível pela Lei da Ficha Limpa, aprovada pelo Congresso no primeiro mandato dele e que ele próprio homologou.

O TAMANHO DA FARSA

O ex-presidente esperneia contra sua condenação e o faz de maneira coreográfica, para deixar bem claro que é ele –e não o Judiciário –o mestre de cerimônias dessa pantomima.

Vejamos. Sua cela se transformou em escritório político. Gleise Hoffmann, presidente nacional do PT, e Fernando Haddad, formalmente candidato a vice pelo partido, são também bacharéis em direito e obtiveram o credenciamento para visitar Lula no momento em que bem entenderem. Fazem de conta que são advogados da defesa.

Lula só não tem computador e telefone. O que seria uma aberração, segundo os códigos de disciplina prisionais. Mas todas as manhãs entrega bilhetinhos a um bacharel que o visita após o café da manhã, com recados que são em seguida fotografados e distribuídos aos subordinados do partido.

Esse mecanismo, relatado em detalhes pela revista Crusoé, dá a Lula a condição de prisioneiro mais comunicável do sistema prisional brasileiro.

Foi por esses meios que o ex-presidente desautorizou as lideranças petistas a discutirem abertamente um plano B para o partido.

E foi também desse modo que ele dinamitou a candidatura de Ciro Gomes (PDB), evitando que ele se aliasse ao PSB para ter mais tempo de televisão. E ameaçasse a hegemonia dos petistas dentro das esquerdas.

Oficiosamente, sabe-se que o plano B se chama Fernando Haddad. Que terá como vice Manuela d´Ávila (PC do B), ambos, aliás, indicados por Lula.

Mas por enquanto, no entanto, a palavra de ordem é manter o ex-presidente como candidato, às custas de advogados (seriam hoje 11) que não se sabe quem os paga, e que entopem o Judiciário de recursos para que, um dia, o líder preso abra as asas e passe a voar em liberdade.

Um levantamento, já ultrapassado, dava conta de que a equipe já entrou com 84 pedidos de libertação. Como se o Judiciário não tivesse mais nada a fazer, a não ser redigir rejeições sucessivas aos advogados que trabalham para o PT.

PRESENÇA NA MÍDIA

Um dos pedidos desses advogados é para que, agora oficialmente “candidato”, Lula possa, a partir da cadeia, gravar mensagens que seriam inseridas na propaganda eleitoral de seu partido.

Essa possibilidade já foi vetada pela juíza de execuções penais de Curitiba e pelo Tribunal Superior de Justiça (TSJ). Mas resta ainda o Supremo Tribunal Federal (STF), onde os advogados já entraram na fila com suas petições.

Mas não são essas inserções pela TV que darão visibilidade ao ex-presidente. Ele já está diariamente presente na mídia. Pelas decisões que toma e que seu partido acata passivamente.

Lula já escreveu artigo para a Folha de S. Pauloe, mais recentemente, para a coluna de opinião do  New York Times. Esse último texto resumiu perfeitamente a versão delirante que Lula tem da história.

Apresentou-se como prisioneiro político e atribuiu ao governo Temer uma crise de crescimento e de desemprego desencadeadas por ele, em 2009, e exacerbada pelo desastre do mandato e meio de Dilma Rousseff.

Até a entrega dos documentos para oficializar a “candidatura”, na quarta-feira, tornou-se evento midiático. A CUT e o MST reuniram 10 mil pessoas em Brasília (cálculo da Polícia Militar, que o PT inflaciona para 50 mil). E nas camisetas de militantes, a comparação de Lula com Jesus Cristo.

Não, não há uma perseguição pessoal do juiz de primeira instância Sérgio Moro –a sentença dele foi confirmada pelo TRF4, no Rio Grande do Sul, e por uma das turmas do STJ.

Não, não foi um processo baseado em delações premiadas. As 411 páginas da sentença trazem documentos que provam que o tríplex do Guarujá sofreu uma megarreforma paga com dinheiro de propina, em troca de contratos superfaturados com a Petrobras.

Não, Lula não é um mártir, sentenciado pelos mais ricos porque suas políticas sociais diminuíram a pobreza (que aumentou novamente durante a recessão de Dilma).

Não, inexiste uma conspiração capitaneada pela TV Globo. A própria Globo tem feito uma cobertura jornalisticamente correta de todo o episódio que envolve o ex-presidente.

Sim, o cenário desenhado pelo PT e pelo ex-presidente para a condenação e eventos derivados assume as cores de uma farsa e de uma tentativa de envolver o Judiciário em mesquinhas jogadas eleitorais.

 

 

FOTO: Ricardo Stuckert/Divulgação