Brasil

Prisão de Temer não deve impactar Previdência


Embora haja temor no mercado financeira e também na classe política, Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, diz que prisão não trará consequência para a reforma


  Por Estadão Conteúdo 21 de Março de 2019 às 16:04

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse, nesta quinta-feira (21/03), que a prisão do ex-presidente da República Michel Temer não deve atrapalhar a reforma da Previdência, em tramitação na Casa.

Há um temor no mercado financeiro e também na classe política de que os acontecimentos desta quinta-feira tenham um efeito similar ao que ocorreu em 2017, com as delações da JBS, que acabaram impactando negativamente a tentativa anterior de reformar a máquina previdenciária do País.

Em relação ao adiamento da indicação do relator da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Nova Previdência na Comissão de Constituição, Cidadania e Justiça (CCJ), Maia disse apenas que, no colegiado, a responsabilidade é do PSL.

A comissão é presidida pelo deputado Felipe Francischini (PSL-PR), que decidiu nesta quinta adiar a escolha do relator até que o governo dê mais explicações sobre o projeto de lei dos militares.

"CCJ é do partido do presidente", disse Maia. "Lá é com ele."

O presidente da Câmara está nesta quinta sofrendo ataques nas redes sociais, inclusive no perfil do filho de Bolsonaro, o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSL-RJ).

No Instagram, Carlos escreveu: "Por que o presidente da Câmara está tão nervoso?" e reproduziu um texto que fala sobre o embate recente entre Maia e o ministro da Justiça, Sergio Moro.

Na quarta-feira, Maia respondeu com firmeza as declarações de Moro.

O ministro da Justiça queria que Maia revisse o prazo dado ao pacote de medidas de segurança pública enviado à Câmara. No entanto, o parlamentar já havia decidido anteriormente que a Casa só iria analisar os projetos de segurança, após a aprovação da Previdência.

Em nota, Moro afirmou que "talvez alguns entendam que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo não aguenta mais".

A frase foi interpretada como um recado para Maia sobre os episódios desta quinta.

Questionado se ele vê nas declarações de Moro e Carlos Bolsonaro um ataque à classe política, Maia disse que não.

"Eu apenas estou respeitando a Constituição", afirmou "Os poderes são independentes."

OPOSIÇÃO CRITICA PRISÃO

Políticos de oposição ao governo Bolsonaro criticaram a prisão preventiva do ex-presidente Michel Temer, numa ação da Operação Radioatividade, desdobramento da Lava Jato que investiga desvios em obras da Unisa de Angra 3, no Rio de Janeiro.

Parlamentares usaram as redes sociais para criticar o que chamam de "populismo penal" da Lava Jato, argumentando que Temer deve ser preso, mas que precisa ser respeitado o processo legal, que, na visão destes políticos, está ameaçado pela Lava Jato.

Criticaram também medidas tomadas pelo governo Michel Temer, como a reforma trabalhista e a PEC do Teto dos Gastos.

Para o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), o grupo político de Michel Temer, a quem ele chama de "cúpula do golpe", em referência ao impeachment de Dilma Rousseff, "muito se beneficiou dos abusos da Lava Jato" e agora "experimentam o populismo penal que os colocou no poder".

O parlamentar argumentou que "Temer traiu o País e a democracia", mas "isso não significa que sua prisão mereça ser comemorada", escreveu em seu Twitter.

"Poderíamos comemorar muito a prisão de Temer depois de tudo que ele fez contra Dilma", tuitou Jandira Feghali (PCdoB-RJ), "mas nós defendemos o devido processo legal". "Não há espaço para dois pesos, duas medidas", ressaltou.

O deputado Zeca Dirceu (PT-PR) fez críticas a Temer, mas defendeu que "todos têm direito de um processo livre de ilegalidades".

Para Zeca, a Lava Jato "mantém o Estado de exceção alimentado pelos mesmos que agora estão nas garras da operação. Criaram o monstro e estão vendo as consequências."

Em nota, o PT disse esperar que as prisões decretadas hoje estejam baseadas "em fatos consistentes, respeitando o processo legal, e não apenas por especulações e delações sem provas, como ocorreu no processo do ex-presidente Lula e em ações contra dirigentes do PT".

A nota foi assinada pela presidente do partido e deputada federal Gleisi Hoffmann (PR) e pelos líderes do PT no Senado e na Câmara - respectivamente, Humberto Costa (PE) e Paulo Pimenta (RS).

FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil