Brasil

Por que os brasileiros mergulharam na indiferença?


Em circunstâncias normais partidários de Temer comemorariam, e seus adversários protestariam contra a votação da quarta-feira na Câmara dos Deputados


  Por João Batista Natali 04 de Agosto de 2017 às 15:43

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Nove a cada dez jornais estrangeiros se espantaram esta semana com o Brasil. Não que precisem meter o nariz na votação da Câmara dos Deputados, que na quarta-feira (02/09) bloqueou o processo, por corrupção passiva, contra Michel Temer.

Mas essas publicações constataram que o brasileiro virou um bicho político apático, desmotivado. Não saiu às ruas para comemorar ou para protestar. É como se o cansaço estivesse a partir de agora tomado conta das mentalidades.

A verdade é que estamos gastando sola na avenida Paulista desde junho de 2013, e em março de 2016 as ruas selaram a sorte de Dilma Rousseff. Agora, no entanto, diz a revista The Economist, a apatia virou uma aliada do governo.

O Le Monde, o Washington Post e oNew York Times constataram que os brasileiros não saíram de casa como o fizeram, em São Paulo, nas cinco grandes passeatas pelo impeachment.

A mídia brasileira também constata a apatia. Mas para ela isso era previsível. São frequentes os indícios desse desencanto com a política.

Em princípio, o Partido dos Trabalhadores poderia ter tentado reassumir o controle das ruas. Mas não o fez também por apatia interna – como se comprovou no malogro da manifestação no final de junho, na Paulista, em solidariedade a Lula e contra a Lava Jato.

Mas o PT nem tentou desta vez por um outro motivo. Se desencadeasse um movimento para tentar derrubar Temer, o partido estaria em contradição com seu plano (não-declarado) de desgastar ao máximo o atual presidente, para que Lula dispute a sucessão dele em condições favoráveis.

“O BRASIL ESTÁ NO RUMO ERRADO”

Em verdade, no entanto, a apatia não é “culpa” do PT ou de outras correntes políticas. O descrédito pela atividade pública transparece na pesquisa Pulso Brasil, feita em julho pela Ipsos Public Affairs.

Alguns dados alarmantes: 95% dos brasileiros que o Brasil está no rumo errado e 57% se dizem preocupados. A postura de entusiasmo ou otimismo somam apenas um décimo dos 1,2 mil entrevistados.

O espantoso, no entanto, é que só 33% se definem como revoltados. Sem a revolta, que é um sentimento e não um padrão de reação menos civilizado, não há uma verdadeira mobilização política.

Foi este, talvez, o mais negativo dos efeitos do fator Temer na recente história política brasileira. Por efeito de contraste, ele deveria capitalizar por tudo aquilo que Dilma não foi.

Mas escorregou na impossibilidade de recuperar de imediato a economia e – algo com o que não se contava – nas liberdades com a ética, o que demonstrou na antológica conversa dele com Joesley Batista.

Não é fácil identificar momentos parecidos de indiferença. Eles talvez tenham se esboçado no início dos anos 90, quando o impeachment de Fernando Collor demonstrou uma vitalidade imensa das instituições, mas logo em seguida o escândalo dos chamados "anões do orçamento" – com cassação de deputados – comprovou que a corrupção era bem mais generalizada.

SÍNDROME DO CACARECO

É possível que estejamos vivendo aquilo que o filósofo alemão Jurgen Habermas chamou de “síndrome da pós-democracia”, ao se referir à apatia dos eleitores de seu país, quando começou o desmonte do Estado do bem-estar social. A síndrome se manifestava pelo crescimento da abstenção nas sucessivas eleições da então Alemanha Ocidental.

O eleitor que se recusava a votar tinha como característica básica o fato de estar mais sujeito ao desemprego e de oscilar entre direita e esquerda nas campanhas eleitorais anteriores.

O voto facultativo também afetou os Estados Unidos há relativamente pouco tempo. Foi em 2012, quando apenas 54% dos eleitores votaram na renovação da Câmara e na metade do Senado, em eleição “solteira”, na qual não se elegeria um presidente.

O maior comparecimento na recente história americana se deu em 1960, na eleição de John Kennedy, quando 63% dos aptos a votar foram às urnas (a maior participação histórica foi em 1864, com 83%, na eleição ganha pelo republicano Abraham Lincoln).

Como o voto no Brasil é obrigatório, o sistema não se presta a esse tipo de comparação, embora certos fatores – como a proporção de votos nulos – expliquem a descrença com os políticos.

O episódio antológico envolve a rinoceronte fêmea que o zoológico do Rio de Janeiro emprestou para o de São Paulo, e que nas eleições municipais de 1959 recebeu 100 mil votos para vereador.

O “QUALUNQUISMO” ITALIANO

Foi um exemplo bem mais radical, e na época amplamente noticiado pela mídia internacional, que a corrente propositalmente apática que surgiu na Itália do pós-Guerra e que se chamava “qualunquismo”.

Não se tratava de corrente política articulada, semelhante a um verdadeiro partido. Mas eram seguidores da revista L´Uomo Qualunque, que começou a circular em dezembro de 1944, com críticas aos partidos, às instituições e à política de modo geral.

De certo modo, o ceticismo dos brasileiros com relação aos partidos políticos significa que temos uma espécie de qualunquismo implantado em nosso DNA.

Exceto durante momentos de euforia –os partidários da UDN pela candidatura presidencial do brigadeiro Eduardo Gomes, em 1946 e 1950, ou os petistas com a candidatura presidencial de Lula, em 1989 – o cidadão brasileiro tende a considerar a política como algo que não o interpela.

Trata-se de uma espécie de “mal necessário”, que nos momentos mais agudos chega a provocar uma espécie de repulsa generalizada.

 A versão brasileira do qualunquismo tende a considerar que a política é uma atividade por natureza repulsiva.

O que se traduz no amplo anedotário que expressa essa ideologia cética. Como a história que circulava nos anos 1980:

Toca o telefone. A dona de casa atende.

- Alô? É da casa do deputado?

- Aqui não tem nenhum deputado. Aqui é casa de família.

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