Brasil

Por que os brasileiros agora não querem saber de partidos


A eleição presidencial será pobre em termos partidários. Há nomes avulsos, não identificados com as siglas. Mesmo o PT de Lula deixa de existir nas pesquisas em que o candidato é Haddad


  Por João Batista Natali 22 de Novembro de 2017 às 16:25

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Para a próxima disputa presidencial, com o primeiro turno em outubro do ano que vem, o primeiro e maior perdedor são os partidos políticos.

É o que demonstra uma leitura mais atenta das últimas pesquisas de intenção de voto dos dois maiores institutos brasileiros, o Datafolha e o Ibope.

Ah, mas e o Lula? Pois, até o momento, os votos são apenas dele, e não do PT.

Lula aparece em primeiro lugar na pessquisa Datafolha publicada em 2 de outubro, variando de 32% a 35% das intenções, dependendo do grupo de adversários.

No Ibope divulgado em 29 de outubro –nenhum dos dois institutos fez pesquisas em novembro –o ex-presidente aparece com 35% na resposta estimulada, quando se submetem ao eleitor os nomes dos candidatos impressos em um cartão, e em 26% das respostas espontâneas, quando o próprio entrevistado cita sua preferência, sem nenhum estímulo.

No entanto -e é esse o aspecto mais importante -, quando o candidato petista é Fernando Haddad, o Datafolha atribui a ele apenas 2% dos votos, enquanto o Ibope constata que sua votação seria hoje de só 1%.

Em outras palavras, a migração dos votos de Lula para outro nome petista seria bem maior, caso estivéssemos falando de voto partidário, que, em definitivo, no atual quadro não existe.

Tome o caso do deputado Jair Bolsonaro, hoje ainda no PSC. Ele tem planos para emigrar ao Patriotas, nova denominação, desde agosto, do minúsculo Partido Ecológico Nacional (PEN).

Pois bem, Bolsonaro tem pelo Datafolha 17%, e pelo Ibope, 13%. Mas nem o PSC, nem o Patriotas têm outra opção de candidatura. Suas intenções de voto, caso concorressem com outro concorrente, estariam zeradas.

No caso do PSDB, com Geraldo Alckmin o Datafolha atribui a ele 8%, e se o candidato do partido fosse João Doria – hipótese que o próprio prefeito de São Paulo passou agora a descartar – ele teria os mesmos 8%.

Pelo Ibope, Alckmin teria 5%, e Doria cairia para 4%.

Por esse quadro, o eleitorado com preferência partidária tucana oscilaria de 4% a 8%. O que é miseravelmente pouco para aspirar, apenas com o cacife de uma sigla partidária, a presidência da República.

Considere um último exemplo, o de Marina Silva, da Rede Sustentabilidade. Pelo Datafolha, ela teria entre 13% (com Lula na disputa) e 22% (sem Lula). Não sabemos ao certo para quanto cairia seu partido no caso de ela não se candidatar. É previsível que teríamos um resultado pífio.

ELEITOR BUSCA A IMAGEM, E NÃO PARTIDOS

Toda essa numeralha demonstra algo já historicamente conhecido pelos cientistas políticos e estudiosos de resultados eleitorais. A saber: o eleitor brasileiro vota em pessoas, não em partidos.

Ou, para ser mais preciso, preferencialmente em pessoas e quase nunca em siglas que discutem propostas de políticas públicas e as oferece ao eleitorado, independentemente do candidato que as representará.

Mas essa proeminência dos nomes sobre os partidos e suas possíveis ideias se prolonga, agora, com o desmoronamento da imagem que atinge os partidos em razão da Lava Jato e com desmoralização das lideranças políticas tradicionais.

É uma situação muito ruim para a política como um todo. As ideias perdem em dimensão, e o rosto e a voz de figuras públicas passam a dominar todo o espaço de discussão.

Em tempos “normais”, o que está longe de ser o caso, diante da desmoralização que os políticos enfrentam em razão da corrupção, a política eleitoral funciona por meio de imagens.

O eleitor procura o candidato confiável, que poderá fazer alguma coisa para o grupo social economicamente diminuído, do qual o eleitor faz parte, ou que seja a encarnação de atributos positivos, como o dinamismo, a jovialidade, a liderança e a existência de seguidores com os quais acabamos por nos identificar.

Esse imaginário impressiona e produz efeitos eleitorais em setores da sociedade em que a escolaridade menor e as esperanças materiais mais precárias estão sempre à procura de lideranças populistas.

Mas a imagem também prevalece entre eleitores com maior formação escolar e com situação privilegiada no mercado de trabalho. Os sinais, no entanto, funcionam em outros circuitos.

O que esses cidadãos procuram é a confiabilidade das ideias sociais ou econômicas, a relação positiva que o candidato possa ter com o mercado ou com políticas de inclusão social. A confiabilidade não é vista como um atributo automático. É algo construído, em meio a uma malha de variáveis capazes de emitir sinais positivos.

LONGE DAS SIGLAS DA EUROPA

Vejamos a ideia de partido: os trabalhistas, no Reino Unido, os sociais-cristãos, na Alemanha, ou o Republicano, nos Estados Unidos. Eles são capazes de formatar um grupo imenso de segmentos da sociedade, que pensam de modo parecido e fazem política na mesma direção.

Tais atributos chegaram em algum momento a beneficiar partidos brasileiros. O PRP na Velha República, a UDN no período pós-1945, e depois do colapso do regime militar, o primeiro PMDB, com a ideia de democracia, o PSDB, com o plano de modernização do Estado, e com o próprio PT, que insistiu com sinceridade, em sua primeira década, em políticas de combate à pobreza e de inclusão social.

Mas os tempos agora são outros. O PT, com sua militância emagrecida ao longo dos mensalões e petrolões, é hoje uma máquina partidária dedicada a defender a imagem pessoal de Lula e a negar que ele – e mais os dirigentes do partido que foram ou estão ainda presos – tenham algo a ver com a corrupção e com a recessão do segundo governo Dilma.

O PMDB é um amontoado administrado pelo presidente Temer e cujas lideranças acumulam processos e denúncias, além da própria existência de velhos caciques agora atrás das grades (Gedel Vieira Lima, Henrique Alves, Eduardo Cunha).

O baque que derrubou a crista do PSDB é mais recente. Ele ocorreu em maio, com o vazamento das gravações que comprometiam o senador Aécio Neves com a JBS.

Os tucanos poderiam, já naquele momento, seguir o exemplo dos barcos da marinha mercante que atiram ao mar os cadáveres de marinheiros acometidos de moléstias contagiosas.

Mas não o fizeram. Aécio continua a bordo, contagiando seu partido e antigos simpatizantes que passaram a sentir vergonha do ex-candidato presidencial.

Estamos, portanto, numa espécie de vazio partidário. O que explica o fato de estarmos diante de Luciano Huck, de Joaquim Barbosa e de outros personagens que geram simpatias, independentemente do partido ao qual poderão – ou não – se agregar.

Em definitivo, os partidos políticos não estão na cabeça dos brasileiros.

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