Brasil

Por que a nova classe média foi expulsa do paraíso


Entre 2006 e 20012, 3,3 milhões de famílias subiram para a classe C. Mas com a recessão do governo Dilma, 4,4 milhões não resistiram e foram rebaixadas


  Por João Batista Natali 10 de Fevereiro de 2017 às 13:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O castelo de cartas era frágil e, com a recessão (2015-2016), a chamada “nova classe média” simplesmente deixou de existir. Os cidadãos que a compunham caíram para a faixa de renda da qual havia saído.

Os números da Consultoria Tendências, extraídos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), revertem o retrato idílico que os 13 anos de governos do Partido dos Trabalhadores construíram para consumo ideológico.

Em resumo, entre 2006 e 2012, aí incluído o biênio de tropeço da economia mundial (2007-2008), 3,27 milhões de famílias brasileiras subiram das classes D e E e passaram a fazer parte da classe C.

Mas o período recessivo que se seguiu, no governo Dilma Rousseff, 4,33 milhões de famílias deixaram a classe C e voltaram para a base da pirâmide de renda.

Em termos técnicos, a classe C é hoje menor que em 2015. Ela perdeu a nova classe média (expressão concebida por Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da FGV) e ainda levou de roldão pouco mais de 1 milhão de famílias da classe média tradicional.

O curioso nessa narrativa de ascensão e queda é que nada disso ocorreu em razão das políticas sociais do governo.

O mantra petista levava a crer que o relativo enriquecimento dos mais pobres era o resultado do Bolsa Família, que hoje paga de R$77,00 a R$154,00 para cada membro cadastrado de 13,9 milhões de domicílios.

A LÓGICA DO ESFORÇO INDIVIDUAL

A verdade é bem mais simples. Os mais pobres subiram para a classe média em razão do acesso ao mercado de trabalho. Depois que a economia se estabilizou com o Plano Real (1994), o país entrou em lento processo de formalização da mão-de-obra.

Em 2003, início do governo Lula, eram emitidas 700 mil carteiras de trabalho. A emissão anual passou para quase 2 milhões.

O assalariado foi buscar qualificação (cursos noturnos) e conseguiu um melhor emprego, num período em que a economia cresceu com a entrada inédita de recursos, em razão do aumento das exportações para a China.

Por que. então, se criou a confusão? Basicamente porque Lula e Dilma acreditavam que a ascensão do pobre só poderia ser o resultado do assistencialismo oficial, com foco no que é coletivo, e não no esforço ou no empreendedorismo individual.

Prova disso é a absurda controvérsia criada por Dilma às vésperas da votação do impeachment pela Câmara dos Deputados (abril de 2016). Ela, ainda presidente, acusou “os golpistas” e Michel Temer de quererem suprimir o Bolsa Família para tirar o pão da boca dos mais pobres.

Há em paralelo uma outra confusão, nem sempre criada por malícia. Trata-se de toda a discussão em torno da diminuição da pobreza.

Quando do Plano Real, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) verificou que nas seis regiões metropolitanas, em que o IBGE fazia na época pesquisas sobre o emprego, a pobreza havia caído de 38% para 28%. Ou de 14 milhões para 10 milhões de pobres nessas cidades.

Mas já na época inexistia, como hoje, uma definição legal do que venha a ser a pobreza. O IBGE, uma instituição cautelosa, define apenas como classes D e E aquelas em que as famílias têm um rendimento mensal inferior a R$ 2.166,00.

A Fundação Getúlio Vargas (FGV) é mais elástica. Para ela, é da classe média a família cuja renda mensal é superior a R$ 1.064,00. Mas o número, em que pesem argumentos técnicos da instituição que o criou, acabou virando gambiarra política no final do segundo governo Lula e no primeiro de Dilma.

Mesmo pessoas com sólida formação acadêmica levavam pouco a sério o fato de essa quantia, equivalente a R$ 35,46 por dia, representar um potencial de consumo familiar próprio a uma verdadeira classe média.

Ou seja, o governo foi pouco convincente na quantificação de um processo que, na prática, a economia sabia estar ocorrendo, tanto que a indústria, os serviços e o varejo sentiram a diferença.

AFINAL, O QUE É A POBREZA?

A ausência de parâmetros levou, a partir de 2003, a certos malabarismos estatísticos por parte de governos interessados em provar de qualquer maneira que a pobreza estava em seus estertores.

Dizia-se, por exemplo, que 33 milhões de pessoas haviam saído do estado de pobreza. Acontece que, na falta de um critério interno, o Ministério da Promoção Social adotava a regra do Banco Mundial e da ONU, que definiam a pobreza extrema como a renda per capita inferior a US$ 1,25 por dia.

Por esse critério, a extrema pobreza caiu no Brasil de 8,1% para 3,1%, entre 2001 e 2013.

Mas é uma faca de dois gumes. Aplicado agora, o critério do Banco Mundial e da ONU, a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) diz que a extrema pobreza subiu, entre 2012 e 2013, de 5,4% para 5,9% da população brasileira.

E, um lembrete. Durante a campanha presidencial de 2014, a então candidata à reeleição foi acusada de ter calado por três meses o Ipea, para que o instituto não divulgasse pesquisa com a mesmíssima conclusão. Seria muito ruim para ela, em termos eleitorais.

Para a governante, interessavam informações como a divulgada pelo Portal Brasil, na época aparelhado pelo partido dela, para o qual o Bolsa Família havia tirado 34 milhões de brasileiros da condição de extrema pobreza.

É claro que a pobreza diminuiu no Brasil. É claro que o Bolsa Escola (FHC) e o Bolsa Família (Lula e Dilma) tiveram um papel importante, mas a questão aqui é outra: a ascensão e queda da nova classe média.

Quando em certo domingo de maio de 2016 cerca de 4 milhões de pessoas saíram às ruas na última manifestação pelo impeachment, alguns petistas intelectualmente honestos se perguntavam a razão pela qual essa nova classe média não se opunha ao movimento que defenestraria a presidente.

E eles próprios respondiam o óbvio. Essa parcela ascendente de brasileiros estava conectada ao consumo – eletrodomésticos, planos de saúde, escola secundária particular –e não à política ou questões sociais, campo em que o PT acreditava que poderia levar vantagem.

Pois é essa justamente a variante de uma moral dessa história. Uma variante com desdobramentos dramáticos quando a recessão se evidenciou.

Se não era por causa do governo que esses brasileiros subiram na escala social, era certamente por culpa do governo que voltava a inflação e sumiam os empregos, levando os antigos ascendentes ao movimento de queda.

FOTO: Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo






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