Brasil

Polícia Federal prende empresário que é amigo de Lula


José Carlos Bumlai é acusado de doar R$ 2 milhões para nora do ex-presidente - o que ele nega - e de desvios da Petrobras para o PT


  Por João Batista Natali 24 de Novembro de 2015 às 11:53

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


A Polícia Federal prendeu nesta terça (24/11) em Brasília, e o transferiu para Curitiba, o empresário José Carlos Bumlai, um dos homens mais ligados ao ex-presidente Lula e que tinha livre acesso ao palácio do Planalto durante seus dois mandatos presidenciais.

O pecuarista de Mato Grosso do Sul, também com operações no setor sucroalcooleiro, ele estava em Brasília para depor, ainda na tarde de terça, na CPI do Congresso que apura corrupção e desvios no BNDES.

Segundo o portal UOL, assessores da presidente Dilma Rousseff manifestaram preocupação com o episódio, que tende a enfraquecer o ex-presidente Lula e a neutralizar sua capacidade de mobilização dos movimentos sociais, que seriam acionados caso o processo de impeachment  seja desencadeado.  

Bumlai está envolvido, segundo a PF, na apuração de contratação de navio-sonda pela Petrobras.

Sua prisão ocorreu em meio a 25 mandados de busca e apreensão, desencadeados pela Operação Passe Livre, que é a 21ª fase da Operação Lava Jato.

Nota da PF afirma que “complexas medidas de engenharia financeira foram utilizadas com o objetivo de ocultar a real destinação dos valores indevidos, pagos a agentes públicos e diretores da estatal”.

Dois filhos de Bumlai, que também estavam em Brasília, foram interpelados para prestar depoimentos, em cumprimento a mandados de condução coercitiva. Celulares e computadores em poder dos três integrantes da família foram apreendidos.  Outras apreensões foram feitas em Mato Grosso do Sul nas empresas de Bumlai.

DOAÇÃO À NORA DE LULA

O empresário foi citado por dois delatores da Lava Jato cujas informações comprometiam indiretamente o ex-presidente. O lobista Fernando Baiano declarou que repassou a Bumlai pouco menos de R$ 2 milhões destinados à mulher de um dos filhos de Lula, para que ela quitasse a compra de um imóvel. O empresário nega a acusação.

Outro delator, Eduardo Musa, ex-gerente da Petrobrás, disse à Polícia Federal e ao Ministério Público que Bumlai intermediou o pagamento de uma conta do Partido dos Trabalhadores de R$ 60 milhões, que eram dívidas assumidas durante a campanha eleitoral de Lula de 2006, quando ele se reelegeu para a Presidência.

Segundo o portal G1, pessoas ligadas a Lula acreditavam há dias na possibilidade de prisão do empresário.

Fernando Baiano, trabalhava para a empresa OSX, interessada em ganhar concorrência para a construção de um navio-sonda para a exploração de petróleo da camada do pré-sal.

Os R$ 2 milhões para a nora de Lula – não se sabe oficialmente qual delas -, segundo o depoimento do lobista, foi feito a pedido de Bumlai que, em troca, prometeu ajuda-lo a marcar uma audiência do então presidente da República com João Carlos Ferras, que na época presidia a Sete Brasil, uma das empresas fornecedoras da Petrobras.

Entrevistado em outubro pelo jornal O Estado de S. Paulo, Bumlai negou ter entregue o dinheiro à nora de Lula e disse não ser tão amigo do ex-presidente. Mas confirmou que em 2011 conseguiu uma audiência com Lula de um empresário interessado em vencer uma concorrência com a Petrobras.

NAVIO-SONDA DA PETROBRAS

Em outro desdobramento do mesmo caso, a Folha de S. Paulo publicou entrevista com o empresário Salim Schahin, acionista do Grupo Schahin.

Ele havia afirmado em delação premiada que seu grupo assinou com a Petrobras um contrato para operar o navio-sonda Vitória 10.000, como forma de compensação de uma dívida que o PT tinha com as empresas de seu grupo.

Segundo ele, o Banco Schahin emprestou R$ 12 milhões a Bumlai, que disse a ele que era dinheiro para o PT, questão que fora discutida em reunião com o então tesoureiro do partido, Delúbio Soares.

Ao fim de idas e vindas, em 2009 o grupo Schaim assinou com a Petrobras contrato de US$ 1,6 bilhão, sem licitação, para o fornecimento do navio-sonda.

USINA SÃO FERNANDO

No depoimento que teria feito nesta terça à CPI do Congresso, Bumlai seria interrogado sobre outra operação que não poderia ter ocorrido, exceto se ele fosse o beneficiário de um poderoso apadrinhamento.

Trata-se de um empréstimo que ele conseguiu no BNDES para a usina de etanol São Fernando, quando esta já estava com um pedido de falência pedido por um fornecedor, em razão do não pagamento de dívida de R$ 523 mil. A informação foi publicada pela Folha de S. Paulo.

Apesar dessa demonstração de dificuldade, e contrariando normas do BNDES, Bumlai conseguiu em 2012 levantar um empréstimo que aprofundou sua condição de endividamento junto aos bancos (1,2 bilhão, dos quais R$ 300 milhões com o banco oficial).

Os advogados do empresário negam ter havido favoritismo político na operação.

Com informações de Estadão Conteúdo

Foto:Gabriela Biló/Estadão Conteúdo