Brasil

Polícia Federal fecha o cerco em torno de Michel Temer


Operação desta quinta-feira prendeu os ex-deputados José Yunes e Wagner Rossi e o coronel aposentado da PM-SP João Batista Lima


  Por João Batista Natali 29 de Março de 2018 às 12:45

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A pedido Procuradoria Geral da República e com o aval do ministro Luís Roberto Barroso, do STF, a Polícia Federal deslanchou nesta quinta-feira (29/03) uma operação que prendeu três próximos auxiliares de Michel Temer.

A operação Skala cumpriu mandados de prisão temporária contra o ex-deputado e advogado José Yunes, o ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi e o coronel reformado da PM paulista, João Batista Lima.

Também foi recolhido o empresário Antônio Celso Grecco, dono da Rodrimar, que teria pago propina ao presidente, em troca de uma medida provisória que o beneficiou no porto de Santos.

A MP, de maio do ano passado, ampliava de 25 para 35 anos a concessão de empresas que atuam naquele porto. A generosidade mereceu atenção do então procurador-geral Rodrigo Janot.

O envolvimento de propina teria sido comprovado depois da quebra do sigilo informático e telefônico de Rodrigo Rocha Loures, o “homem da mala”, e que seria o mais próximo operador de Temer.

No total, foram presas dez pessoas, numa tentativa de “emparedar” o presidente da República e forçando-o a redefinir seus planos, anunciados à revista IstoÉ, de concorrer à própria sucessão.

Contrariando um hábito observado desde o início dos anos de 1990, a Polícia Federal anunciou que os delegados envolvidos na operação não dariam entrevista coletiva para relatar em detalhes as suspeitas que pesam sobre os presos.

Com isso, a investida contra Temer deixa em suspenso as informações em poder do ministro Barroso e o conteúdo das acusações de corrupção passiva e lavagem de dinheiro que certamente atingem o presidente.

NOVA DENÚNCIA A CAMINHO

É também provável que os depoimentos dos personagens presos e os documentos apreendidos em suas casas acabem por lastrear uma terceira denúncia da PRG contra o atual ocupante do Planalto.

A primeira delas, rejeitada pela Câmara dos Deputados em abril, relatava ligações de Temer com o pagamento de caixa-dois ao MDB pela Odebrecht.

A segunda denúncia, que os deputados rejeitaram em agosto, se refere à JBS e à gravação pela qual o empresário Joesley Batista discutiu com o presidente, no subsolo do palácio do Jaburu, a entrega semanal de R$ 500 mil, em troca do favorecimento do grupo em operações de crédito com bancos estatais.

Nos dois casos, as acusações contra Temer ficam congeladas enquanto ele mantiver, como presidente, o foro privilegiado. Os processos voltarão a tramitar em primeira instância, tão logo, em 2 de janeiro de 2019, ele volte a ser um cidadão comum.

É para evitar que isso aconteça que, argumentam advogados e cientistas políticos, Temer está disposto a negociar uma anistia com seu sucessor, em troca do apoio do MDB.

Essa negociação justificaria a suposta candidatura de Temer à Presidência, que seria apenas uma maneira de acumular cacife político para essa negociação.

QUEM SÃO OS PRESOS DE HOJE

José Yunes, 81 anos, advogado, foi deputado constituinte, eleito em 1986 pelo PMDB então liderado, em São Paulo, pelo governador Orestes Quércia, de quem Temer e Wagner Rossi também foram secretários.

Yunes, que também foi deputado estadual e professor universitário, entrou para a Lava Jato pelas portas de uma delação que indicava que ele recebeu de um doleiro um pacote de dinheiro que o MDB distribuiu para 140 candidatos a deputado.

O presidente nacional do partido, naquela época, era Michel Temer, amigo de Yunes há 50 anos. Foi Temer quem o apresentou a sua mulher.

Wagner Rossi, 65 anos, é o pai do líder do governo na Câmara, deputado Baleia Rossi, e foi ministro da Agricultura dos governos Lula e Dilma.

Aproximou-se de Temer no início dos anos 80, como integrante do quercismo do então PMDB. O grupo, do qual o atual presidente da República também fazia parte, opunha-se ao grupo do governador Franco Montoro e dos senadores Mário Covas e FHC, que deixariam o partido para fundar o PSDB.

João Batista Lima, ex-coronel da PM, é um personagem de perfil mais discreto, que nunca exerceu funções partidárias e que se aproximou de Temer quando o atual presidente foi secretário da Segurança Pública do governador Franco Montoro (19831987).

É tido como uma espécie de secretário particular graduado, encarregado de recebimentos e pagamentos de seu chefe e um dos conhecedores da forma pela qual Temer acumulou seu atual patrimônio, com títulos e imóveis.

A Lava Jato já havia intimado Lima a prestar depoimento, mas ele sempre alegou problemas de saúde para não ser ouvido nas datas fixadas pela Polícia Federal.

FOTO: Beto Barata/PR