Brasil

PM vê uso de tática de guerrilha urbana em protestos


Até as 19 horas de sexta (28), a PM havia registrado 22 prisões na Grande São Paulo - 16 na capital e cinco em Osasco. Três policiais foram feridos


  Por Estadão Conteúdo 29 de Abril de 2017 às 11:10

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Grupos pequenos apareciam de repente e faziam uma barricada, ateando fogo a pneus e madeiras. Quando a polícia se aproxima, em vez de resistência, a retirada rápida.

Não muito longe, em outro ponto, novo bloqueio, levando à dispersão e divisão das forças da ordem, uma verdadeira "greve de guerrilha". É assim que o comando da polícia de São Paulo viu a tática adotada pelos movimentos populares e sindicatos a fim de bloquear avenidas e impedir o tráfego no Estado na greve geral.

Para o comando da PM, "doutrinariamente", a tática de ontem "é de guerrilha urbana", com a "inquietação, intervenção e dispersão". Os bloqueios feitos por manifestantes envolveram sem-teto que vivem em prédios tomados no centro. Cada grupo organizou uma ação.

Até as 19 horas de sexta (28/04), a PM havia registrado 22 prisões na Grande São Paulo - 16 na capital e cinco em Osasco.

Três policiais foram feridos em confrontos - um dos quais atingido por uma garrafada no rosto. A Coordenação Operacional da PM colocou, desde as 5 horas, todas as Forças Táticas da PM nas ruas. A Tropa de Choque foi dividida entre a Marginal do Pinheiros e Guarulhos, por causa do Aeroporto de Cumbica.

Em todo Estado, aconteceram cerca de 50 pontos de bloqueio de vias - 30 dos quais na Grande São Paulo.

O protestos das centrais provocou outro efeito: o mapa da lentidão do trânsito na cidade feito pela Companhia de Engenharia de Tráfego ficou próximo de zero das 10h30 às 16 horas, mais de 80% abaixo da média inferior de congestionamento registrado nas sextas-feiras.

Esse efeito da greve foi sentido até pelo comandante-geral da PM, coronel Nivaldo Restivo. Ele planejou sair com uma hora e meia de antecedência para ir ao evento pela manhã em Pirituba, na zona oeste, e chegou uma hora adiantado.

O trânsito também ajudou as forças de segurança, diminuindo o tempo de resposta da PM. "O resultado foi bom. Tínhamos como objetivo impedir o fechamento das ruas em São Paulo e não se manteve fechada nenhuma rua. Era o tempo de a unidade de serviço chegar, requisitar apoio, quando necessário, e desobstruir a pista."

A greve contou ainda com a estratégia inédita neste tipo de manifestação: a parceria entre sindicatos e movimentos sociais. Enquanto sindicatos mobilizaram trabalhadores para fazer piquetes em portas de fábrica e demais locais de trabalho, movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e a Central de Movimentos Populares (CMP) travaram vias importantes das cidades dificultando a chegada das pessoas aos locais de trabalho.

"É a primeira vez que tem uma greve com unidade entre o movimento sindical e movimentos sociais fazendo com que a população sentisse que não tinha como chegar ao local de trabalho", disse Raimundo Bonfim, da CMP.

A CMP fez 22 ações em vias em São Paulo. A lógica era, segundo o líder do MTST, Guilherme Boulos, "dificultar o transporte".

SINAIS DÚBIOS PARA ESPECIALISTAS

Acostumados aos recentes protestos, com milhares de populares tomando avenidas pelo País, a greve geral com "clima de feriado" provocou reações dúbias entre acadêmicos e analistas acostumados a observar - e interpretar - fenômenos econômicos, sociais e políticos que emergem das massas.

Enquanto alguns avaliaram o "silêncio das ruas" como um sinal de baixo engajamento, outros consideraram o ato um sucesso, alegando que uma greve pressupõe a parada que se viu.

Para uma parcela dos observadores, os piquetes pontuais em ruas vazias deixaram a impressão de que a maioria das pessoas não foi trabalhar por pura falta de opção para se locomover ou medo de represália, já que na véspera se espalhou a informação de que manifestantes iriam interditar avenidas de grandes cidades e rodovias.

Nesse caso, o movimento estaria restrito à ação organizada de alguns sindicatos, corporações, grupos estudantis. Teria faltado a adesão espontânea da população, como se viu nos protestos contrários ao aumento da passagem do transporte público, em 2013, e em favor do impeachment, no ano passado.

"Não poderia haver silêncio nas ruas porque essa greve teve uma natureza diferente das greves por salários, como a dos metalúrgicos", diz o pesquisador Samuel Pessôa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

"Fazer greve é parar porque você quer impor um prejuízo para o seu patrão; é usar um instrumento de barganha na relação conflituosa entre capital e trabalho, mas essa foi uma greve puramente política, contra algumas medidas do governo Temer: não ir para rua, nesse caso, não é greve, é feriado."

Essa também foi a percepção do economista-chefe da Rio Bravo, Evandro Buccini, que teve ontem um dia de trabalho comum. Ficou para ele a percepção de que a mobilização deixou a desejar. "Pareceu um movimento isolado, com impacto baixo, mas se mobilizações similares se repetirem nas próximas semanas, posso reconsiderar a avaliação", disse Buccini.

O chefe do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), Ruy Braga, tem análise oposta. "Não deixa de ser até certo ponto surpreendente que o movimento tenha se estruturado nacionalmente, algo que não é frequente na história do Brasil. O "feriadão" nacional também foi interpretado por muitos como um sutil sinal de adesão da população. "A maioria das pessoas tem medo de participar desse tipo de manifestação: se ela faltar, perde o ponto".

FOTO: Ronaldo Silva/Futura Press/ AE