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Pesquisa acende o sinal amarelo no trajeto que Doria pretende fazer ao Planalto


Segundo o DataFolha, em quatro meses a avaliação "ótimo/bom" do prefeito caiu 9 pontos. Maioria dos paulistanos o considera agora apenas regular. Também diminuiu os que votariam nele para presidente ou governador


  Por João Batista Natali 09 de Outubro de 2017 às 12:30

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


No caminho que traçou rumo ao Planalto, João Doria conheceu uma primeira e séria escorregada neste domingo (08/10), com a publicação de pesquisa Datafolha. Nela, sua avaliação ótimo/bom, como prefeito de São Paulo, caiu nove pontos, de 41% para 32% em apenas quatro meses.

E pela primeira vez a maioria relativa dos paulistanos o avaliam como regular (de 34% para 40%), enquanto os que o qualificam de ruim ou péssimo subiram de 22% para 26%.

A primeira conclusão da pesquisa é que Doria não fará um passeio sem maiores sobressaltos para concorrer em 2018 à Presidência da República.

A segunda conclusão beneficia o governador Geraldo Alckmin, que também pretende disputar o Planalto pelo PSDB e que vinha sendo atropelado pelo próprio afilhado, para cuja eleição ele se empenhou em 2016.

O fato é que Doria passa agora a ser visto como um político que começa a pagar pelos erros táticos que cometeu.

Para efeitos de PSDB, o maior engano do prefeito consistiu em sua empáfia verbal – algo semelhante ao erro cometido por Ciro Gomes (PDT) em 2010.

Há três meses, Doria qualificou Fernando Henrique Cardoso de antiquado e homem do passado. Em resposta, FHC disse que Doria “nada mudou em São Paulo e só faz sucesso no celular”, em razão de sua pulsão em postar diariamente vídeos sobre suas atividades.

O tropeço verbal seguinte foi menos grave em termos de opinião pública, mas de impacto imenso entre os tucanos.

Respondendo a críticas do vice-presidente nacional do PSDB, Alberto Goldman, Doria o qualificou de “improdutivo”, que agora “vive em casa de pijama”.

Goldman foi um dos mais combativos parlamentares do então MDB durante o regime militar. É uma referência ética e pessoal muito forte dentro de seu partido.

Ao atacá-lo, Doria demonstrou imaturidade e colocou um luminoso ponto de interrogação sobre a cabeça de dirigentes do PSDB de outros Estados, que se mostravam dispostos a apoiá-lo na corrida pela sucessão de Michel Temer.

A verdade é que o prefeito acusou o golpe que sofreu no Datafolha e, já no domingo, referiu-se a Goldman em termos mais conciliadores. Desejou-lhe “paz”.

Outro dado desencorajador para Doria: 58% dos eleitores preferem que ele permaneça na prefeitura, contra apenas 10% dos que querem vê-lo na disputa à Presidência.

Caso ele seja candidato ao Planalto, a porcentagem dos que votariam nele caiu de 26% para 18%, enquanto os que votariam nele para governador, no ano que vem, caíram de 32% para 26%.

EFEITO DESGASTE

As pesquisas historicamente registram um desgaste dos prefeitos paulistanos, antes que eles completem um ano de administração.

Com uma única exceção – a de José Serra, eleito em 2004 e que dois anos depois disputou e ganhou o governo do Estado.

Os prefeitos são um chefe de Executivo mais próximos da população e dos problemas que ela enfrenta, e acabam sofrendo erosão em suas taxas de aprovação.

Aconteceu em São Paulo com Gilberto Kassab e com Fernando Haddad. Acontece mais uma vez com Doria.

A questão, no entanto, está também na maneira pela qual o eleitor interpreta as frequentes viagens do prefeito para outras regiões do país.

Doria reafirma que deixa a cidade para defender os interesses dela. Mas os paulistanos acreditam que ele está, em verdade, viabilizando sua candidatura presidencial. E os paulistanos têm razão.

Essa questão – viabilização de candidatura – é algo próprio aos políticos, etiqueta que Doria rejeitou durante a campanha municipal de 2016.

Mas ao se qualificar como “gestor”, ele embutiu na palavra a entrega de uma imensa obra de zeladoria que não teve condições de fazer.

Ao cair à condição de credor de seus eleitores, João Doria machuca suas ambições presidenciais e torna necessária uma correção de rumos.

A direção que ele poderá dar a seu comportamento ainda não está clara. Mas ele entra, agora, numa turbulência incômoda.

Caso abandone as viagens ou as faça com frequência bem menor, abrirá espaço a ser ocupado por Geraldo Alckmin.

Se continuar viajando, tende a perder mais ainda o apoio do eleitor paulistano, que lhe deu no primeiro turno das últimas municipais 53% dos votos, dispensando um segundo turno com o petista Fernando Haddad.

PERFIL DO ATUAL PREJUIZO

Alguns tucanos acreditam que Doria se manteve por um período excessivo num bom patamar, em razão da maneira agressiva com que se referiu ao ex-presidente Lula.

Caso a candidatura petista passe a ser vista como menos viável por esse segmento do eleitorado, Doria estaria perdendo uma das razões de ser.

O eleitor liberal e de centro-direita não teria mais as mesmas razões para cortejá-lo.

O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, em artigo publicado pela Folha de S. Paulo, afirma que o prejuízo de Doria desta vez atingiu todas as faixas de renda e de escolaridade.

Por mais que esses estratos não tenham sido explicitamente pesquisados, verifica-se que na Zona Leste a aprovação do prefeito caiu em 12 pontos, enquanto na Zona Norte ela foi de 10.

Entre os mais pobres, em toda a cidade, Doria perdeu 15 pontos, enquanto entre os mais ricos ele perdeu 8.

Em outras palavras, estamos diante de uma quase unanimidade. Ela é surpreendente na medida em que, em outubro do ano passado, foi exatamente o oposto que ocorreu na urnas.

Doria ganhou em todos os distritos eleitorais, com a exceção de dois, em que Marta Suplicy (PMDB) chegou em primeiro lugar. O petista Haddad não encabeçou a votação em nenhum deles.

Por fim, não se pode dizer que Doria esteja com sua reputação corroída em razão das redes sociais. Nelas, ele sofre uma guerra incansável desde que tomou posse.

E, mesmo assim, nas três primeiras pesquisas do Datafolha seu melhor índice de aprovação, ótimo/bom, oscilou de 44% a 41%.

O crescimento do ruim/péssimo, nesse período foi, no entanto, mais forte, passando de 13% para 22%, antes de chegar aos 26% atuais.

 

 

FOTO: Valter Campanato/Agência Brasil