Brasil

Para cientista político, voto útil está de olho no segundo turno


Segundo Antônio Lavareda, em palestra na ACSP, o fatalismo Bolsonaro x Haddad pode cair com o roteiro de 2014, quando Aécio ultrapassou Marina, porque ela não conseguiria derrotar Dilma Rousseff.


  Por João Batista Natali 17 de Setembro de 2018 às 14:30

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O cenário eleitoral mais provável aponta para uma disputa da Presidência da República, no segundo turno, entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Mas há uma segunda alternativa no horizonte.

Ela leva em conta o voto útil antes do primeiro turno, mas já de olho no resultado do turno final. Foi o que aconteceu em 2014, quando Marina Silva (na época candidata do PSB), em segundo lugar nas pesquisas, foi esvaziada nos 12 últimos dias da campanha, por não ser naquela época capaz de derrotar, no segundo turno, a petista Dilma Rousseff.

Foi esse o fator preponderante para a ascensão de Aécio Neves (PSDB), que aparecia nas pesquisas em terceiro lugar. Os ataques que Marina sofreu na propaganda petista e tucana apenas aceleraram essa tendência.

O raciocínio foi exposto nesta segunda-feira (17/9), na Associação Comercial de São Paulo (ACSP) por Antônio Lavareda, cientista político e especialista em pesquisas eleitorais.

Ele fez palestra a convite do Conselho Político e Social (Cops) e do Conselho de Economia (COE). Os dois colegiados da associação são coordenados, respectivamente, pelo ex-senador Jorge Bornhausen e pelo economista Roberto Macedo.

Os trabalhos, presididos por Bornhausen, foram abertos por Roberto Mateus Ordine, presidente em exercício da ACSP.

Lavareda, em sua exposição, foi bastante cauteloso para não afirmar em nenhum momento que esse cenário –voto útil no primeiro turno, com vistas ao resultado projetado para o segundo –seria hoje favorável a Geraldo Alckmin (PSDB).

Mas quebrou um pouco o fatalismo segundo o qual a disputa estaria hoje restrita a dois campos antagônicos, com Bolsonaro à direita e Haddad e Ciro Gomes (PDT) à esquerda.

UMA REALIDADE PREOCUPANTE

O cientista político lembrou que, em julho de 2016, todos os cenários apontavam para uma confortável vitória de Alckmin sobre o ex-presidente Lula, que se acreditava, na época, poder ser candidato.

O impeachment da petista Dilma Rousseff enfraqueceu politicamente seu padrinho e criador. Naquele ano, nas eleições municipais de outubro, o PT perdeu 60% das prefeituras detinha.

A realidade, no entanto, tornou-se agora “mais surpreendente e preocupante”, diz Lavareda.

Com o impeachment, a máquina petista foi empurrada para a oposição, de onde teria apenas a ganhar ao se opor radicalmente ao governo de Michel Temer. Foi esse o contexto dentro do qual o nome de Lula passou a crescer, num processo que hoje beneficia seu substituto como candidato presidencial.

A mudança entre os dois momentos se deve a fatores sobretudo internacionais. De um lado, a internet e as redes sociais fragmentaram as candidaturas presidenciais, favorecendo a emergência de forças bastante minoritárias, como o PSL pelo qual se apresenta hoje Jair Bolsonaro.

Na França, por exemplo, a eleição que levou em 2017 Emmanuel Macron ao poder teve, no primeiro turno, quatro candidatos com 20% dos votos. Na Argentina, em dezembro de 2015, a mesma percentagem era alcançada por três concorrentes no primeiro turno. O mesmo ocorreu na última presidencial chilena, com três candidatos com no mínimo a mesma porcentagem.

Um segundo grupo de fatores está no avanço mundial do espírito autoritário. É algo mais sutil que a votação de partidos extremistas.

É uma questão de mentalidade, captada em pesquisa internacional como a do Pew Research. Por ela, 17% disseram acreditar que a democracia representativa não é o regime mais desejável, com quase a metade dos entrevistados afirmando que não seria ruim um governo de especialistas – e não de eleitos com legitimidade política.

No Brasil, o Datafolha constata que 17% preferem a ditadura à democracia, enquanto 21% - que pensam no mesmo sentido – responderam que “tanto faz”.

Diante dessa decepção com o sistema representativo, tem-se uma crise da democracia liberal, com as redes sociais engajadas na mobilização que abalam a reputação dos partidos tradicionais.

A internet, prosseguiu Lavareda, produziu também a fragmentação das fontes de informação. Os jornais, as emissoras de rádio e de TV perderam um monopólio, num processo em que o cidadão passa a privilegiar bandeiras identitárias, com a etnia e as questões de gênero assumindo um papel cada vez mais preponderante.

OS “FATORES INTERVENENTES”

Nesse quadro, e especificando as eleições presidenciais brasileiras, torna-se secundário o antigo modelo pelo qual o sucesso eleitoral estava vinculado à economia e à avaliação do governo federal.

“Não estamos diante de uma eleição tecnicamente normal”, disse Lavareda. Seriam normais se a preferência política determinasse a decisão dos eleitores, desta vez avessos aos alinhamentos habituais.

Entre os fatores dessa pouca normalidade há, por exemplo, o peso da imagem que o Judiciário passou a ter na avaliação dos candidatos. O cientista político acredita que, se não tivesse se envolvido em operações suspeitas, Aécio Neves poderia hoje ganhar no primeiro turno.

E os eleitores se informam sobre os candidatos. Mesmo aqueles com baixa escolaridade, mas que têm um celular, relataram em agosto último (25%) que já haviam pesquisado algum candidato ou pretendiam fazê-lo (29%).

Esses novos canais explicam, por exemplo, o fato de Bolsonaro ter apenas 1,2% do tempo de rádio e TV, mas ter se distanciado na dianteira das pesquisas.

No passado, havia uma correlação muito forte entre tempo de TV e a votação no primeiro turno. Nas sete últimas campanhas presidenciais, e levando-se em conta os três candidatos que tiveram mais tempo em cada uma, apenas dois políticos – Orestes Quércia, em 1994, e Ulysses Guimarães, em 1989 – naufragaram pateticamente no primeiro turno.

Na atual campanha, disse Lavareda, caso o terreno da centro-direita não estivesse tão fragmentado, os 9% das intenções de voto de Amoêdo, Meirelles e Álvaro Dias, somados, permitiriam que Geraldo Alckmin estivesse num patamar bem mais confortável.

Com o quadro agora indefinido o cientista político acredita que Haddad poderá fazer um “arrastão final” no espólio lulista, capitalizando parte do apoio que nas últimas semanas migraram para Ciro Gomes e Marina Silva.

Por fim, Antônio Lavareda disse que o sentimento predominante do eleitorado é hoje emocional, contrariamente ao do entusiasmo que prevalecia na primeira eleição direta para presidente, em 1989.

Pesquisa da XP indica que 29% votarão movidos pela preocupação, e 11%, pelo medo.

A eles se soma um outro contingente de 27% dos eleitores que votarão com a indignação. “É a pura raiva, que gera a mobilização do eleitor que não para para refletir.”

Nesse nicho estão basicamente os eleitores de Jair Bolsonaro. É por isso “que essas eleições de 2018 estarão divididas entre aqueles que têm medo e os que sentem raiva”, concluiu o cientista político.