Brasil

“Os responsáveis por essa situação do Brasil somos todos nós”


Para José Galló, presidente da Renner, o empresariado se omitiu diante dos equívocos e excessos de intervenção do Estado – agora paga o preço


  Por Bárbara Ladeia 12 de Abril de 2016 às 17:50

  | Editora, a jornalista é especializada em Gestão, pós-graduada em Negociação (Unesp), fez cursos na The Wharton School (EUA), FGV e Escola de Inovação em Serviços


Fala-se muito sobre quanto o Brasil tem sido castigado pelos erros dos governantes, pela ganância dos corruptos e pelo desespero dos partidos pelo poder.

São poucos os que adotam também a autocrítica, em contraponto ao vitimismo que domina o cenário político e econômico nacional.

Um deles é José Galló, empresário e diretor-presidente da Renner, rede varejista do setor de vestuário. Em sua participação no 29º Fórum da Liberdade, realizado em Porto Alegre, que debate o tema “Quem move o mundo?”, fez questão de lembrar que o empresariado também tem sua parcela de responsabilidade sobre o caos econômico atual.

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“Na obra ‘A Revolta de Atlas’, ps empresários deixam acidade quando a atividade econômica está totalmente estagnada. Porém, nós, na vida real, não precisamos esperar chegar a este extremo caótico.

É preciso de uma mudança de rota, e que seja de curto prazo”, disse em seu discurso após receber o Prêmio Libertas, que destaca empreendedores engajados na valorização dos princípios de economia de mercado. 

Em entrevista, Galló ressaltou o papel da iniciativa privada na retomada econômica e a urgência de protagonismo por parte dos empresários.

“Recentemente levamos ao governo quatro propostas para a retomada econômica  e nada foi para a frente”, diz. “Hoje o cenário em Brasília está tão caótico que o empresariado já não sabe nem com quem falar. Enquanto a colina está lá encastelada resolvendo seu próprio problema, a planície está aqui sofrendo horrores.”

A quem podemos atribuir esse caos político e econômico ao qual assistimos hoje?
Os responsáveis por essa situação somos todos nós. Todas as pessoas de bem desse país são responsáveis, porque nós nos omitimos, deixamos de nos preocupar com a política. Por isso chegamos onde chegamos e agora ou fazemos algo para mudar, ou  o cenário vai piorar para todo mundo. 

O empresariado se omitiu politicamente ou se calou diante dos benefícios ofertados na época do crescimento?
Há sim uma parte de empresários que se comprometeu com os benefícios, acabou perdendo sua isenção. Eu não sou contra políticas de estímulo ao investimento, desde que setas sejam oficiais. O que não pode haver é privilégio, desvios, decisões estritamente políticas voltadas para poucos grupos. O desenvolvimento tem de acontecer para todos, os grandes, os médios e os pequenos grupos. 

Você acha que o empresariado está reavaliando suas práticas?
Acho que uma série de fatos mostram que não são essas as práticas que vão fazer o grande Brasil que nós gostaríamos de ver. Por aqui, as pessoas não percebem a gravidade do que se faz – se você sai do contexto brasileiro, vai para qualquer outro país, questões como as que vemos aqui são impensáveis. A autocrítica, agora, é mandatória.  

O senhor vê uma saída para o curto prazo?
O cenário de um sonho é que, com ou sem impeachment, surja uma coalizão nacional que pense no país e não nos partidos. Eu sei que isso é um enorme sonho, mas é a única forma de reverter verdadeiramente essa situação. Talvez para conseguir isso tudo tenha de piorar ainda mais, para que a gente tenha de ser ainda mais forte e mostrar que a união é inevitável.
 
Eu costumo dizer que precisamos pensar positivamente, principalmente assumindo o protagonismo diante da situação. Não adianta buscar culpados, se chegamos a esta situação os responsáveis somos nós, e somos nós que vamos mudar isso. Não existe força celestial universal capaz de fazer isso no nosso lugar.

Como o senhor vê a atuação das entidades de classe?
Falta atitude. Falta as entidades assumirem suas posições e se conscientizarem que têm forças para enfrentar o Estado. Um grande político brasileiro me disse, uma vez, que os políticos só respondem mediante pressão. É só as entidades se unirem, definirem seus objetivos e passarem a pressionar. Precisamos ser os protagonistas, ser os protagonistas e ser os protagonistas. 

O senhor acha que a falta de confiança é hoje o problema mais grave da economia?
Não tenha dúvida. Hoje quando você mede os índices de confiança da indústria e do varejo você tem um resultado ruim. A falta de confiança faz com que as pessoas parem de comprar, o que derruba o consumo. Se você não tem recurso e não tem confiança, você não compra. Se você não tem recurso mas tem confiança, você faz um crediário e consome.

Por incrível que pareça, se as coisas andarem normalmente, podemos ser eficientes nesse mesmo Brasil – mesmo sem mudanças, ainda é possível fazermos negócios. Hoje estamos vivendo um momento atípico – o mercado está restrito e os consumidores desconfiados. Já vivemos uma rotina difícil, altamente burocrática e cheia de impostos, agregando a redução no número de negócios e desemprego fica complicado mesmo. 

O que falta para o Brasil se tornar um país inovador e empreendedor?
Falta educação, pesquisa e um ambiente favorável. Quando você está em um bom ambiente de negócios e traz uma inovação, você é recompensado com ganhos de produtividade e isso amplia os investimentos. É um ciclo de inovação, produtividade e investimento.

O impeachment aceleraria a recuperação econômica?
Eu não vou opinar sobre isso, porque não é momento. Só tem um jeito de resolver essa questão: com uma coalizão para enfrentamento dos problemas duros. Não tem solução mágica e nós já passamos do tempo em que uma solução improvisada daria conta do problema. Estamos estruturalmente muito doentes – só não estamos vendo mais empresas fechando porque não há mais dinheiro para pagar direitos trabalhistas.

* A jornalista viajou a convite do Instituto Ling