Brasil

Os Jogos Olímpicos e o complexo de vira-lata


O país mostrou que pode organizar grandes eventos e conquistar bons resultados nas quadras e pistas. O Brasil levou 19 medalhas, sete delas de ouro


  Por Wladimir Miranda 20 de Agosto de 2016 às 22:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


A Copa do Mundo de 2014 foi um sucesso. Os turistas estrangeiros adoraram. Fizeram festa. Celebraram bem mais do que os próprios brasileiros, já envolvidos pelo clima tenso da política nacional. Dois anos depois, e às vésperas dosJogos OlímpicosRio-2016, o desalento era ainda maior.

O clima político tenso por causa do processo de impeachment, a crise econômica e as reclamações de que a Vila Olímpica estava em mau estado (a delegação da Austrália chegou a abandonar o alojamento), eram o prenúncio do caos.

Assim que desembarcou no Rio, o alemão Thomas Bach, ex-campeão olímpico de esgrima e atual presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), percebeu logo o clima de pessimismo que pairava no ar. 

“Não consigo entender o motivo de vocês serem tão pessimistas. Tenho certeza de que irão fazer uma excelente olimpíada”, disse, enfático.

A primeira demonstração de que o complexo de cachorro vira-latas - detectado na alma do brasileiro pelo jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, já na década de 1950 - não se justificava veio logo na abertura dos jogos.

A cerimônia foi histórica. Arrancou generosos elogios da mídia internacional. Foi um espetáculo transmitido pela televisão para 220 países. A coroação ao trabalho do cineasta Fernando Meirelles (Cidade de Deus, 2002), Andrucha Waddington (Eu Tu Eles, 2000) e Daniela Thomas (Insolação, 2009).

Meireles, Andrucha e Daniela Thomas acertaram em cheio na escolha do tema, a diversidade.

A homenagem a Santos Dumont emocionou a todos. A réplica do 14 Bis sobrevoando o Maracanã lavou a alma dos brasileiros.

Enfim, uma resposta com repercussão mundial aos norte-americanos que insistem em apregoar que foram os irmãos Wright que voaram pela primeira vez, em 1906, portanto, afirmam eles, três anos antes do que o brasileiro.

Pronto, se os brasileiros necessitavam de elogios fartos para se animarem, não precisavam mais. A edição do Rio dos Jogos Olímpicos começou sem atropelos e com um nível técnico tido pelos especialistas como muito bom.

AS MEDALHAS

A primeira medalha do Brasil veio logo no primeiro dia de competições. Quis o destino, ironicamente ou não, mas motivo suficiente para que um festival de piadas invadisse as redes sociais, que o primeiro pódio dos brasileiros fosse de Felipe Wu, no tiro esportivo.

As brincadeiras fazendo referências às balas perdidas dos morros do Rio de Janeiro eram inevitáveis.

As críticas aos alojamentos da Vila Olímpica já não importavam. Houve até denúncias de que banheiros, lâmpadas e portas das acomodações dos atletas foram quebrados deliberadamente por operários descontentes com a falta de pagamento da empresa contratada para fazer o trabalho.

Boicote? Ninguém conseguiu provar. Mas ninguém falou mais sobre o assunto e a delegação australiana voltou para os seus aposentos.

A seleção feminina de futebol caiu logo nas graças dos brasileiros. Marta e cia ganharam da China por 3 a 0. Enquanto a seleção feminina ganhava e dava shows, a seleção masculina de futebol, Neymar à frente, era vaiada, por conta dos maus resultados contra a África do Sul e Iraque, ambas as partidas terminadas com empates sem gols.

No final, a seleção comandada por Marta perdeu na semifinal para a Suécia, nos pênaltis, e foi batida pelo Canadá, na disputa da medalha de bronze, por 2 a 1.

 

Antes dos jogos, a estimativa do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) era bastante otimista em relação ao rendimento dos atletas brasileiros. A meta era superar o total de medalhas de ouro conquistadas pela nossa delegação em Atenas: 5.

Ficamos em primeiro lugar no pódio no vôlei de praia masculino (Alison Conte e Bruno Schmidt), na vela (Martine Grael e Kahena Kunze), no boxe (Robson Conceição), no atletismo (Thiago Silva) e no judô (Rafaela Silva).

A sexta medalha de ouro veio do futebol masculino na noite deste sábado (20/08). O voleibol masculino trouxe o sétimo ouro, após disputa com a Itália na tarde deste domingo (21/08).

Vale lembrar que cada atleta brasileiro recebe R$ 35 mil por subir no pódio, independentemente da cor da medalha que conquistar.

Já as conquistas em equipe estão sendo remuneradas com a metade do valor, R$ 17,5 mil. Os valores estão sendo pagos por patrocinadores, já que o COB, por receber dinheiro público, não pode pagar diretamente os atletas. O pagamento não ocorria desde Atenas, em 2004.

E por falar em medalhas, os objetos mais desejados nesses dias no Rio de Janeiro, disputadas por 10.500 atletas de 206 países, vale lembrar que 2.488 foram encomendadas pelos organizadores dos jogos. 812 são de ouro.

O Brasil começou muito mal na busca por este bem precioso. Acumulou frustrações nos primeiros dias de competições, principalmente no judô, modalidade em que o país brilhou em outras olimpíadas. Foi quando apareceu Rafaela Silva, que conquistou o feito. 

Depois, Diego Hypolito e Arthur Nory. Os ginastas ganharam as medalhas no solo, feito inédito e pouco considerado nas projeções dos dirigentes nacionais. Hypolito ficou com a prata, Nory, com o bronze.

Com as duas conquistas, o déficit brasileiro, que chegou a ser de quatro medalhas na relação entre conquistas do Rio e a estimativa do COB, diminuiu para duas.

O que chamou a atenção no pódio de brasileiro foi a imagem de atletas batendo continência. Isaquias Queiroz (canoagem) e Diego Hypólito (ginástica) foram os únicos não militares no pódio.

Apesar desse bom desempenho, o Programa de Atletas de Alto Rendimento (PAAR) recebeu críticas por oferecer apoio apenas a atletas já consagrados e ajudarem pouco na formação de novos talentos.

O Brasil já conquistou 19 medalhas. Sendo sete de ouro, seis de prata (Arthur Zanetti, ginástica olímpica), Diego Hypolito, ginástica artística), Felipe Wu (tiro esportivo), Agatha Bednarczuk e Barbara Freitas) e Isaquias Queiróz (Canoagem) e seis de bronze (Isaquias Queiróz, canoagem), Poliana Okimoto (maratona aquática), Arthur Nory (ginástica artística) e Rafael Carlos da Silva, o Baby, Mayra Aguiar da Silva (judô) e Maicon Siqueira (taekwondo).

Em Londres (2012), a delegação brasileira conquistou três medalhas de ouro, cinco de prata e nove de bronze, num total de 17. Ficou na 22º colocação. Em Pequim (2008), os atletas brasileiros conquistaram 15 medalhas, sendo três de ouro, quatro de prata e oito de bronze.

Terminaram na 22ª colocação. Em Atenas (2004), foram cinco de ouro, duas de prata e três de bronze. O Brasil foi o 16º classificado.

Em Sydnei (2000), os brasileiros não trouxeram medalha de ouro. Ganharam seis de prata e seis de bronze e, vexame, ficaram na 52ª colocação.

Mais uma vez o esporte brasileiro sobrevive de feitos heroicos, de conquistas eventuais.

A medalha de ouro de Thiago Braz no salto com vara, é uma prova disto. Ao derrotar o favorito francês Renaud Lavillenie, Thiago mostrou que se o país investir num trabalho sério, certamente colherá frutos, já para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.

Os jogos realizados no Rio podem ser o embrião de uma nova Era. O complexo olímpico construído para as competições, se bem aproveitado, e não se transformar em elefante branco, como costuma acontecer no país, pode ser o cenário ideal para a formação de atletas que representarão o país nas próximas olimpíadas.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil