Brasil

Onda verde-amarela cobriu a Paulista no maior ato político da capital


Quinhentos mil manifestantes ocuparam a principal avenida de São Paulo neste domingo (13/03), de acordo com o Datafolha. As manifestações nas demais capitais também superaram em número os protestos anteriores


  Por Redação DC 13 de Março de 2016 às 17:41

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


Por João Batista Natali e Thais Ferreira

A gigantesca manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff reuniu neste domingo (13/03), em São Paulo, 500 mil pessoas.

É o cálculo final do Datafolha. O instituto também afirma que este foi o maior ato político já registrado na cidade, superando as manifestações de 1984 pelas Diretas-Já.

No ano passado, segundo o Datafolha, a avenida Paulista recebeu, em atos pelo impeachment, os seguintes números de manifestantes - 210 mil, em 15 de março, 100 mil, em 12 de abril, 135 mil, em 16 de agosto, e 40,3 mil, em 13 de dezembro.

As manifestações pelas demais capitais também superaram os números dos protestos anteriores. Em Brasília, por exemplo, onde a PM calculara em 25 mil os manifestantes em 15 de março e 16 de agosto, desta vez foram 100 mil, ou quatro vezes mais, segundo a mesma corporação.

De acordo com as PMs dos Estados, em Curitiba foram 160 mil, em Recife, 120 mil, e em Belo Horizonte, 30 mil. Manifestaram-se em Porto Alegre 30 mil, 4 mil em São Luís, e 50 mil em Belém.

Há ainda a constatação de que as manifestações foram pacíficas. Simpatizantes do PT, à revelia dos dirigentes do partido, anunciaram até a véspera pelas redes sociais que não abririam mão do plano de manifestar ao mesmo tempo que os partidários do impeachment. Ou seja, sinalizavam a possibilidade de conflitos. Com isso, tentaram assustar os manifestantes e convencê-los a ficar em casa. Não funcionou.

Em São Paulo, além obviamente de Dilma Rousseff, cujo impeachment era pedido aos brados, a personalidade mais mencionada em cartazes ou palavras de ordem gritadas pelos manifestantes foi o juiz federal Sérgio Moro.

MANIFESTAÇÃO NA PAULISTA: SEM INCIDENTES

Essa projeção traduz um fato simples e importante - foi a corrupção, e não uma definição de cunho ideológico ou partidário, que funcionou como força motriz da mobilização.

Moro divulgou neste domingo nota em que afirmou que considera “importante que as autoridades eleitas e os partidos ouçam a voz das ruas”, e que evitem “a corrupção sistêmica que destrói nossa democracia, nosso bem estar econômico e nossa dignidade”.

O protesto na avenida Paulista também manteve a mesma eloquência contrária aos partidos políticos que se verificou nas três manifestações anteriores.

Por mais que políticos como o senador José Serra (PSDB-SP) tenham comparecido de forma discreta, no caso do governador Geraldo Alckmin e do senador mineiro Aécio Neves, ambos tucanos, foram hostilizados ao chegarem ao local por volta das 15h30.

Eles haviam sido convidados para discursar no  carro de som do Movimento Brasil Livre, Mas permaneceram por pouco tempo na avenida e passaram a ser os bodes expiatórios, nas redes sociais, de comentários críticos ou pejorativos de simpatizantes do PT.

CARROS DE SOM OCUPARAM A AVENIDA

Outra hostilizada foi a senadora Marta Suplicy, ex-petista e hoje no PMDB. Ela deixou rapidamente a avenida Paulista.

Outro fator curioso nos protestos paulistanos - os dois carros de som que pediam intervenção militar não atraiam as pessoas que passaram a circular com intensidade cada vez maior pela avenida Paulista, a partir das 11h30.

Esses veículos estavam estacionados entre a av. Brigadeiro Luís Antônio e a praça Osvaldo Cruz - ou seja, numa das extremidades da via pública. Só foram cercados por manifestantes quando a quantidade de pessoas já era tão grande que era impossível evitar esses veículos.

Idosos, casais, famílias inteiras e até cachorros vestiram verde e amarelo para se juntar a manifestação que se estendia da Rua Consolação até a Avenida Bernardino de Campos. Ao som dos trios elétricos, os manifestantes cantavam o hino na nacional e gritavam palavras de ordem, como “fora Dilma, fora PT” e “Lula devolve meu dinheiro”.

A PAULISTA FOI COBERTA DE VERDE E AMARELO

Desde o começo da tarde, as estações do metrô ficaram lotadas com os manifestantes que se dirigiam para o protesto, marcado para começar às 14.  Por causa do excesso de passageiros, os trens não paravam na estação Brigadeiro.

Entre os manifestantes, os mais curiosos eram uma senhora com uma réplica de um pedalinho – uma alusão aos pedalinhos encontrados no sítio em Atibaia – e um homem vestido de terno e gravata com uma pasta cheia de dinheiro que brincava dizendo que era membro do Partido dos trabalhadores (PT).

Outros estavam mais sérios e preocupados: “A situação do país é insuportável. Estamos lutando para dar um Brasil melhor para os nossos filhos e netos”, afirmou o auditor Rubens Borti , um dos manifestantes. “Estamos insatisfeitos com a impunidade.”

Muitas pessoas seguravam cartazes de apoio à operação Lava Jato e ao juiz federal Sérgio Moro.  “Acho que, independente de partido ou de governo, o Brasil precisa de uma higienização”, disse Sylvia da Costa Facciolla, economista que estava participando dos protestos.   

Apesar de grande parte da manifestação ocorrer de forma pacífica e sem incidentes, foram registrados alguns casos isolados. A estudante Scarlet Rodrigues, por exemplo, sofreu agressões verbais enquanto voltava da aula. Ela estava vestida com roupas pretas e foi chamada de comunista por algumas pessoas que participavam da manifestação.

Ela foi encurralada por cinco homens que tiveram que ser contidos por outros manifestantes. “Eu estou no espaço público, não sou petista e nem comunista”, afirmou Scarlet.  “Cada um tem o direito de protestar, eu estava quieta e não estava incomodando ninguém, apenas não estava protestando.”

CONSEQUÊNCIAS

O sucesso incontestável das manifestações deste domingo tem ao menos três desdobramentos.

1 - A presidente Dilma Rousseff sai bem mais enfraquecida do que já se encontrava. A base aliada no Congresso se esfacelará ainda mais rapidamente. Se nas últimas semanas a presidente havia perdido a esperança de aprovar qualquer medida econômica que ressuscitasse o plano de ajuste fiscal, agora ela está bem mais ameaçada pelo impeachment.

2 - O PMDB, que no sábado (12/03) decidiu aguardar 30 dias para definir se desembarcaria do governo, ganhou com o sucesso das manifestações o argumento definitivo para se preparar para a posse, no Planalto, de Michel Temer, o vice-presidente e presidente nacional do partido. Isso no caso, agora mais provável, de votação do impeachment. Em negociações com o PSDB para definir o cenário pós-Dilma, o PMDB tende a não levar em conta a proposta que vinha amadurecendo entre seus senadores de adotar, para sair da crise, uma versão institucional que misturaria o Parlamentarismo e o Presidencialismo. Essa solução preservaria Dilma na Presidência.

3 - O ex-presidente Lula sabe que os desdobramentos judiciais do cerco que lhe foi movido pelo Ministério Público de São Paulo e pela Operação Lava Jato não tem como termômetro as manifestações de rua.

Mas a partir deste domingo ele terá reforçado a convicção de que não vale a pena assumir uma Pasta no governo Dilma para, com isso, ganhar foro privilegiado, o que permitiria que ele fosse eventualmente processado somente pelo Supremo Tribunal Federal. Lula ainda poderá apostar no cenário segundo o qual, afundando ao lado de Dilma, suas poucas chances eleitorais ficarão ainda mais reduzidas. Ele é a única alternativa de que dispõe o PT, pouco importa o cenário e a data da sucessão.

4 - O PT acelera seu desmanche. O partido, em posição desde já delicada para as eleições municipais de 2014, contava poder se reerguer com maior facilidade no Nordeste, onde os programas sociais têm um número proporcionalmente maior de beneficiados. Mas está certamente surpreso com as 120 mil pessoas que saíram às ruas em Recife. Em Pernambuco Dilma teve no segundo turno de 2014 cerca de 70% dos votos. Maceió reuniu 25 mil no protesto, e em Salvador foram de 30 mil a 50 mil.

5 - Quanto à oposição, ela tende a acirrar suas divisões, diante da possibilidade de assumir o governo (hipótese de vitória de Aécio Neves, se a eleição presidencial for antecipada) ou participar dele (hipótese de governo Temer, aliado do PSDB, DEM e PPS). É um conjunto complicado de cenários dentro dos quais, por falta de fundamentação ideológica consistente, prevalecem os raciocínios táticos de dirigentes tucanos que aIgora acreditam poder chegar mais rapidamente, por via eleitoral, ao Planalto.

 

IMAGENS: Renato Cerqueira/Futura Press/Estadão Conteúdo (foto de abertura) e Thais Ferreira