Brasil

O trem eleitoral de Lula mergulha na Quaresma


Com o pessimismo sobre sua candidatura e o perigo de sua prisão, ex-presidente não consegue mais simular estar em campanha e espalha insegurança no PT


  Por João Batista Natali 15 de Fevereiro de 2018 às 15:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O plano de Lula era prosseguir na campanha presidencial, à espera do julgamento dos numerosos recursos que seus advogados já estavam preparando.

Mas o ex-presidente está sendo abatido em pleno voo pela sucessão de derrotas que vem sofrendo no Judiciário e pelo descrédito que sua candidatura vem provocando dentro do próprio PT.

Vejamos os detalhes.

Após a condenação por Sergio Moro, em Curitiba, a pena de Lula foi aumentada, em 24 de janeiro, para 12 anos e um mês de prisão, no caso do tríplex do Guarujá.

A sentença por três votos a zero, por corrupção e lavagem de dinheiro, no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, plantou duas barreiras no caminho do ex-presidente.

Pela primeira, na condição de ficha suja sua candidatura caminhava rumo à impugnação no Tribunal Superior Eleitoral, cujo presidente, o ministro também do Supremo Luiz Fux, já declarou, em palavras mais amenas, que Lula já é eleitoralmente um caso perdido.

Pela segunda barreira, ele poderia ser preso depois dos embargos de leitura apresentados aos desembargadores de Porto Alegre, o que seria agora, teoricamente, uma questão de alguns dias.   

Foi por isso que os advogados dele se apressaram em apresentar, nos últimos dias de janeiro, um pedido de habeas corpus preventivo no Superior Tribunal de Justiça.

Mas o pedido foi negado pelo vice-presidente daquela Corte, ministro Humberto Martins. O Judiciário estava para encerrar o recesso de janeiro, e Martins, como plantonista, deixou o julgamento do mérito aos seus pares do plenário.

Para Lula, o horizonte estava escurecendo, e então os advogados correram para a instância superior, o Supremo Tribunal Federal (STF), onde também apresentaram pedido idêntico.

MARCAR AS CARTAS DO JOGO

Os advogados argumentaram que o caso deveria ser julgado pela 4ª turma, onde acreditavam que encontrariam dois ministros simpatizantes do petismo – Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli -, e mais o ministro Gilmar Mendes, que hoje é contra o encarceramento de réus condenados em segunda instância.

Mais uma vez, no entanto, deu tudo errado.

O pedido caiu na mesa do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato.

No entanto, em lugar de conceder liminar ou encaminhar o caso à turma que o PT acreditava ser mais condescendente, Fachin se desfez da bomba-relógio e recomendou que o assunto fosse examinado em plenário.

Era tudo o que não queria a presidente do Supremo, ministra Carmen Lúcia. O habeas corpus de Lula reabriria a questão da prisão depois da condenação em segunda instância.

O assunto é espinhoso. Ele foi decidido pela última vez em 2016 no olho mecânico (6 votos a 5), mas depois disso Gilmar Mendes, que era favorável à prisão após a segunda instância, mudou de opinião.

Quem salvou Carmen Lúcia foi a procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Ela – que defende a prisão antes que os recursos do réu subam para tribunais superiores – argumentou, nesta quarta-feira (14/01) que o STF não poderia deliberar sobre a questão, já que o STJ ainda não deu se manifestou.

E o STJ já foi procurado em janeiro, justamente pelos advogados de Lula, que parecem cumprir a sina de serem enforcados nas próprias tripas.

DESDOBRAMENTOS PETISTAS

O problema é que a maratona jurídica, dentro da qual todas as notícias são muito ruins, se parece a um vagão com força motriz que acaba puxando a maratona eleitoral do PT.

Em outras palavras, cresce o número de dirigentes petistas que não apenas acreditam que Lula não será candidato, mas também acham estarem reunidas todas as condições para que ele seja preso.

Da cadeia – Papuda (DF) ou São José dos Pinhais (PR) – Lula estaria inutilizado como cabo eleitoral para o candidato que ele vier a apoiar.

Embora o ex-presidente não tenha feito nenhuma declaração pública, mesmo porque isso seria desmobilizador, ele insuflou, dentro do partido, os nomes de Fernando Haddad e Jaques Wagner.

Wagner, ex-governador da Bahia, há semanas disse numa reunião que não pretendia correr o risco de ser derrotado para o Planalto e depois ficar sem mandato (e foro privilegiado). Há denúncias contra ele na Lava Jato.

O ex-prefeito de São Paulo também levou alguns espirros da Lava Jato – caixa-dois em sua campanha municipal de 2012. Mas seu nome está longe de ser unanimidade dentro do PT.

O colunista Jânio de Freitas, da Folha de S. Paulo, visto como simpatizante do petismo, avança nesta quinta-feira (15/02) os nomes de Guilherme Boulos (MTST) e João Pedro Stedile (MST).

O cientista político petista Wanderley Guilherme dos Santos não avança nomes, mas acredita que o PT deve imediatamente escolher o candidato que concorrerá à Presidência.

Candidato é o que não deve faltar. Os cálculos mais otimistas dentro do PT levam em conta a não-candidatura de Luciano Huck e a inexistência de um nome forte de centro-direita.

Com isso, “o poste de Lula” (designação que já foi dada a Dilma, em 2010, e a Haddad, em 2012) teria chances de enfrentar Jair Bolsonaro no segundo turno.

Tudo isso é um exercício, por enquanto, de ficção política. Mas dentro de um enredo com fortes fatalidades judiciais, há a impugnação da candidatura de Lula e sua possível prisão.

 FOTO: Helvio Romero