Brasil

O que há por trás da possível troca de Levy por Meirelles


Entre os dois não há divergências na área econômica. Mas a nomeação de Meirelles fortaleceria o ex-presidente Lula e daria uma arejada nos canais de comunicação com o Congresso


  Por João Batista Natali 12 de Novembro de 2015 às 15:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Para início de conversa, a grande questão é a de saber quem manda na política econômica do governo.

Caso seja Dilma, Joaquim Levy permanece no Ministério da Fazenda. Caso seja o Partido dos Trabalhadores, Nelson Barbosa, atual ministro do Planejamento, iria para o lugar dele. Mas se o poder de fato estiver sendo exercido por Lula, a nomeação de Henrique Meirelles é apenas uma questão de tempo.

As movimentações iniciadas na sexta-feira (06/11) e que se intensificaram nesta quarta reforçam o papel e os planos políticos do ex-presidente. No jantar dele com Dilma, ele deixou claro que pretende disputar novamente o Planalto em 2016, mas exigiu que ela o ajude a pavimentar o caminho.

Em outras palavras, sinalizar até no máximo em fevereiro que o marasmo na economia está sendo equacionado, para que a atual presidente recupere parte de sua popularidade e seja vista como confiável pelos empresários, que não embarcaram no cenário do impeachment pelas turbulências que isso provocaria nos mercados.

A questão é então bem mais política que econômica, mesmo porque entre Levy e Meirelles as diferenças na condução do Ministério da Fazenda seriam imperceptíveis. A afinidade ficou evidente, na quarta-feira, quando ambos trocaram sinceros elogios em cerimônia da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Por seu currículo maior no governo – presidente do Banco Central durante os dois primeiros mandatos de Lula – Meirelles é naturalmente mais “espaçoso” e teria condições de expandir sua atuação.

O Estado de S. Paulo noticia, por exemplo, que Meirelles aceitaria a Fazenda caso recebesse a área econômica “de porteiras fechadas”. Ou seja, teria carta branca para indicar um novo ministro do Planejamento ou um novo presidente do Banco Central – ou ao menos neutralizar os atuais ocupantes desse primeiro escalão.

Um pouco mais vaga, a Folha de S. Paulo diz que ele aceitaria o convite para entrar no governo, mas dependendo “das condições de trabalho”.

Com Meirelles, o comando da economia sairia da esfera direta de Dilma e se deslocaria para a de Lula, que já tem no governo homens de confiança como Jaques Wagner, ministro da Casa Civil.

Outra vantagem da substituição estaria na abertura de uma nova etapa de interlocução com o Congresso, onde o enfraquecimento e o possível afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, poria fim a um impasse que tem evitado a aprovação dos vetos às chamadas “pautas-bombas” e das medidas provisórias do ajuste fiscal.

Foi com base nesse conjunto de vantagens que, na quarta, a cotação do dólar caiu, e o índice Bovespa subiu. Ninguém no mercado enxergava uma reviravolta na política econômica, mas o que se festejava era a não entrega da área a um “desenvolvimentista” como Barbosa, que tentaria aplicar a fórmula do crescimento do PIB pelo crédito farto - na prática inviável, dado o alto endividamento das famílias - e por subsídios a setores industriais com mais mão-de-obra.

Uma linha secundária de vantagens na ascensão de Meirelles também estaria em neutralizar o PMDB e as ainda existentes bases do PT.

Os peemedebistas soltaram há duas semanas manifesto fortemente liberal que serviria para asfaltar o caminho do vice-presidente Michel Temer, caso ele viesse a ocupar o Executivo. Elas por elas, Meirelles seria a encarnação, e com maior força política, desse mesmo liberalismo.

Quanto ao PT, o documento de 34 páginas que publicou nesta semana – ataques à mídia e à Operação Lava Jato – não chegou propriamente a caracterizar uma demonstração de força. Foi um recado para consumo interno, ao circuito fechado do partido. Permanecendo Levy ou entrando Meirelles, o PT sairá perdendo.

Meirelles é a antítese daquilo que historicamente já foi o PT. O “desenvolvimentismo” traz como fragilidade a imagem romântica da aceleração de políticas sociais quando o Estado tinha condições para financiá-las, o que, em definitivo, não é mais o caso.

Dilma teve sérios atritos com Meirelles durante o segundo mandato de Lula, ele no Banco Central, e ela na Casa Civil. A volta dele ao primeiro escalão não faria parte dos sonhos dela.

No entanto, com Lula assumindo uma nova fatia do poder, o que está em jogo é o mandato da atual presidente e ao menos a biografia de seu antecessor, que realisticamente (com 55% de rejeição) teria muitas dificuldades para disputar daqui a três anos a Presidência da República.

Nada impede, no entanto, que Levy permaneça no Ministério da Fazenda, o que configuraria alguns pontos de vantagens para Dilma, entre os pouquíssimos que ela tem ultimamente conseguido juntar.

FOTO: Valter Campanato/Agência Brasil