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O Judiciário virou um partido? É o que agora pensa o PT


Ao argumentar que é um ato de perseguição política o julgamento de Lula no dia 24, em Porto Alegre, os petistas passam a criticar a suposta conspiração do "Partido do Judiciário"


  Por João Batista Natali 15 de Janeiro de 2018 às 14:35

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Há coisa de seis anos, o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, procurou o criminalista Márcio Thomaz Bastos (1935-1914) e o consultou sobre o plano de cercar com militantes petistas o STF, em Brasília, para constranger os ministros a absolver os réus envolvidos no Mensalão.

Dirceu foi fortemente desaconselhado a levar adiante tamanha loucura. Seria um constrangimento ao Judiciário, e o tiro sairia pela culatra.

A lição, mais que sensata, está sendo há tempos esquecida.

Isso porque, em lugar dos mensaleiros do PT, o foco agora se desloca para o ex-presidente Lula, que no próximo dia 24 será julgado em segunda instância, em Porto Alegre, pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

O próprio Lula lidera e estimula a presepada petista. Pelas sucessivas declarações dele, não se trata mais de um réu diante do Judiciário.

Seria, ao contrário, uma operação de perseguição política, montada para inviabilizar a candidatura de um ex-presidente que “precisa ser punido” em razão do que ele fez pelos mais pobres.

O problema é que a narrativa da suposta punição transforma os tribunais num partido político estruturado para se contrapor ao PT.

Juízes como Sérgio Moro, da Justiça Federal de Curitiba e que condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão – é o caso que será agora analisado pelo TFR-4 -fariam parte desse partido.

E teriam a companhia do Ministério Público, da Política Federal e da mídia supostamente interessada em prejudicar o petismo.

UM PARTIDO CENTRALIZADO

O fato é que hoje o PT não está mais interessado em fazer propaganda das propostas aprovadas em seu último Congresso, em 2017, para com isso viabilizar seus candidatos nas eleições que em outubro escolherão presidente, governadores, senadores e deputados estaduais e federais.

A meta de toda a movimentação do aparelho partidário está centrada na candidatura presidencial de Lula, já que ele, se tiver a condenação confirmada, se tornará inelegível.

O PT é o produto de um eloquente paradoxo. Nenhum outro partido da história republicana instituiu tantas instâncias intermediárias de discussão e de motivação militante.

Ao mesmo tempo, no entanto, o partido depende de uma única pessoa –Lula, seu inspirador e fundador, em 1980 -, em torno da qual se definem planos eleitorais e se tomam as decisões mais importantes.

Dois exemplos. Em 2010 não foram as bases estaduais e municipais que escolheram Dilma Rousseff como candidata presidencial. Foi o próprio Lula, autocraticamente.

Dois anos depois, os diretórios zonais e distritais paulistanos queriam Marta Suplicy como candidata à Prefeitura de São Paulo. Lula escolheu Fernando Haddad, e foi a vontade dele que prevaleceu.

A COREOGRAFIA DA PERSEGUIÇÃO

Diante de Sergio Moro ou dos três desembargadores de Porto Alegre –dos quais, ironicamente, dois foram indicados pela então presidente Dilma –a coreografia desenhada pelo PT consiste em destacar Lula como vítima daquilo que algumas vozes internas, como a do sociólogo André Singer, chamam, sem aspas, de partido da Justiça.

Essa coreografia precisa mobilizar multidões fotogênicas de militantes. Se o PT não mais as tem, mobilize-se o “exército do Stédile”.

Expressão que evoca o gaúcho João Pedro Stédile, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), evocado pelo próprio Lula, em 2015, quando o ex-presidente foi pela primeira vez denunciado por corrupção.

Pode ter sido na época uma força de expressão. Na ponta do lápis, Lula não precisaria do MST, porque o PT tem uma invejável estrutura, com cinco governadores, 256 prefeitos, nove senadores, e 58 deputados federais.

Mas essa máquina foi machucada pelas eleições municipais de 2016, quando perdeu dois terços das prefeituras e teve afastada, pelo impeachment, uma desastrada presidente da República.

O que está agora realmente em jogo não é o enfrentamento do Judiciário para que Lula possa ser, hipoteticamente, absolvido em Porto Alegre. Essa hipótese é pouquíssimo plausível.

Trata-se, muito mais, de manter o petismo energizado para os demais cargos que estará disputando em outubro.

E, para tanto, Lula “perdoou os golpistas” e já selou em seis Estados alianças com o MDB, sobretudo em Alagoas, onde seu parceiro é o controvertido senador Renan Calheiros.

A mobilização pró-Lula esbarra agora num novo obstáculo. Quando não conseguia agitar seus diretórios distritais, o PT contava, para preencher os espaços públicos, com a militância sindical da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Mas ela, ao lado das pulgas que já têm para se coçar com negociações de acordos coletivos, perdeu, com a Reforma Trabalhista de Temer, o Imposto Sindical.

Que vinha a ser a fonte que financiava as manifestações de massa da esquerda, responsável pela logística de transporte, alimentação e auxílio financeiro aos militantes que saíam às ruas.

A cartada na manga petista é agora são agora os sem-teto do MTST. Mas o poder de fogo do líder daquela organização, Guilherme Boulos, é bem mais limitado que o da CUT.

É por isso que os comitês de apoio a Lula existem agora em menor número e com menos gente. E é também por isso que na última sexta-feira (12/01) os atos públicos em solidariedade a Lula levaram às ruas uma quantidade muito pequena de simpatizantes.

A cereja no bolo dessa operação está nas manifestações convocadas para o dia 24 de janeiro, justamente quando os três desembargadores estarão reunidos em Porto Alegre.

Nessas manifestações, em São Paulo e na capital gaúcha, um possível fracasso no número de participantes será notado pela mídia e pesará na reputação desse circo cuidadosamente montado.

ILUSTRAÇÃO: Thinkstock