Brasil

‘O governo precisa se comportar como uma grande organização’


Transparência. Ministério enxuto. Acesso ao crédito. Simplificação nos tributos. É o que lideranças do comércio, como Alencar Burti (à dir.) e Roberto Ordine esperam de um novo governo


  Por Fátima Fernandes 18 de Abril de 2016 às 09:07

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


Em 2015, quase 100 mil lojas fecharam as portas no país. Somente no Estado de São Paulo 28,9 mil estabelecimentos comerciais e 4,5 mil indústrias do setor de transformação encerraram as atividades.

No primeiro trimestre deste ano, subiu 165% o número de empresas que entraram com pedido de recuperação judicial em relação a igual período do ano passado.

Como consequência, a taxa de desemprego já ultrapassa 10% -uma das mais altas da história, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica).

De acordo com Marcel Solimeo, economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) o faturamento de vendas do comércio paulista deve registrar queda de 6% a 8% neste semestre, na comparação com igual período de 2015.

“Pode até ser que no segundo semestre a queda seja menor, por conta de uma melhora na confiança e porque a base de comparação será mais fraca", afirma Solimeo. "Se chegarmos ao final do ano com um resultado igual ao de 2015 já será satisfatório.”

Ante cenário tão preocupante, lideranças do comércio apresentam um rol de sugestões para que o cada vez mais provável governo do atual vice-presidente Michel Temer acelere a recuperação da economia.

Para que o novo governo inicie com o pé direito, Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Facesp, a entidade que reúne 420 associações comerciais paulistas, aponta o enxugamento de ministérios e nomeações guiadas pela competência profissional em cada área.

“Os países se tornaram grandes organizações empresariais que disputam um mercado mundial", diz Burti. "Se o Brasil não tiver pessoas capazes, custos reduzidos e tecnologia avançada vai ficar à margem.”

Contar com pessoas honestas e competentes nos ministérios, principalmente em áreas críticas como saúde e economia, é necessário para que o país restaure sua credibilidade, na visão de Luiz Alberto Pereira da Silva, diretor-superintendente da distrital Centro da ACSP.

Transparência nos mecanismos de concessão de crédito de instituições públicas é outra providência que, na avaliação de Burti, se faz necessária. "As empresas precisam voltar a ter acesso ao crédito", afirma. “O critério para conceder financiamento tem de ser o da competência, em vez do político.”

A fim de destravar os investimentos que conduzirão à retomada econômica é preciso resgatar a confiança perdida. E isso se consegue, de acordo com Roberto Ordine, primeiro vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo, com normas claras que assegurem segurança jurídica para que o empresariado.

"O momento é favorável", afirma Ordine. "Os mercados interno e externo estão ávidos por negócios."

Tão importante quanto isso, a seu ver, é promover no curto prazo senão uma reforma tributária, a simplificação no recolhimento de impostos que hoje atordoa as empresas devido ao cipoal burocrático.

De acordo com Solimeo, a economia só vai destravar, se o brasileiro voltar a ter confiança no país. “Para isso, o governo terá de contar um plano coerente, consistente e que tenha a adesão de políticos e de entidades empresariais de uma forma geral”, afirma.

Com ele concorda João Bico, vice-presidente da ACSP e da Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo).

“Não conseguimos entender como uma inflação causada por gasto público possa ser combatida com aumento de juros", afirma Bico. "É uma medida equivocada, que está acabando com os empreendedores.”

O governo, segundo ele, deve igualmente dar atenção ao Refis (parcelamento de débitos tributários), tomando medidas capazes de fazer com que as empresas possam pagar seus débitos.

“O governo pegou alguns bilhões de reais e deu para Cuba construir um porto e emprestou dinheiro para outros países com juros de 5% ao ano", diz Bico. "No caso do Refis, cobra multas impagáveis."

Dono de uma rede com três lojas de sapatos -duas no centro e uma na periferia-, o empresário Luiz Alberto alerta para o fato de que, devido à inflação e ao desemprego, as classes de menor poder aquisitivo vem perdendo as conquistas obtidas dos últimos anos.

“Não dá para deixar essas pessoas regredirem novamente", afirma. "Estamos perdendo uma fatia do mercado que estava consumindo.".

A poucos metros de onde neste domingo (17/04) se reuniram. na manifestação da Avenida Paulista os representantes do comércio de São Paulo estava o ambulante Welington dos Santos tentando ganhar algum dinheiro vendendo faixas “fora Dilma” e pixulecos.

Wellington: desempregado, vende pixulecos

 

“Tenho profissão: sou operador de telemarketing, mas, como milhões de brasileiros, perdi o emprego. Não é justo nós termos de pagar pelos erros e roubos do governo ”.

Márcia Barbosa, desempregada, que vendia na paulista bandeiras do Brasil, também fala que o país precisa de um governo honesto: “É preciso que os novos governantes dêem mais atenção para a saúde”, disse.

FOTOS: Christopher Wells e Fátima Fernandes