Brasil

O derradeiro faz de conta do Lulismo


O PT insiste que Lula ainda é candidato à Presidência e que, mesmo depois de preso, continuará a mandar no partido por meio de Gleisi Hoffmann


  Por João Batista Natali 09 de Abril de 2018 às 13:30

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A história se assemelha a um conto de fadas político: Lula está preso, mas continua no comando do PT por intermédio da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR). E ele também prossegue como candidato à Presidência da República.

É essa a coreografia montada em Curitiba para o prosseguimento do jogo de faz de conta, que procura ignorar a profunda mudança que a prisão de Lula representou para o Partido dos Trabalhadores.

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A peça de ficção de que nada ou pouco mudou com a prisão supõe que o PT não está dividido em tendências e projetos pessoais que trombam uns contra os outros.

Lula não era apenas o chefe que procurava conciliar interesses contraditórios. Era ele quem negociava para evitar atritos.

A ideia de que tudo ficará na mesma está no relato de uma suposta reunião ocorrida na manhã de sábado, em que Lula teria nomeado Gleisi como sua porta-voz.

Mas em verdade o que ocorria naquele momento era uma grande divisão interna do PT, em que Gleisi, como presidente do partido, estava ferrenhamente em um dos lados.

Ela e seu grupo defendiam que Lula resistisse à prisão e forçasse os agentes da Polícia Federal a capturá-lo à força, dentro do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde o ex-presidente se encontrava desde a noite de quinta-feira.

O grupo da intransigência, do qual a presidente do PT fazia parte, era integrado pelo senador Lindbergh Farias (RJ) e pelo líder do MTST, Guilherme Boulos (Psol).

Também pensava do mesmo jeito a indefectível deputada Maria do Rosário (PT-RS), que, ouvida pela rádio CBN, cometeu o ato falho de afirmar que só com a resistência se obteria a foto de Lula sendo preso coercitivamente. A foto seria importante para a campanha eleitoral do partido.

Tal cenário tinha um inconveniente de peso. Se resistisse, Lula poderia ter sua prisão preventiva decretada, o que anularia as vantagens materiais (cela sem grades, impossibilidade de cruzar na prisão com desafetos como Antonio Palocci ou o empreiteiro Leo Pinheiro) que lhe foram dadas pelo juiz Sérgio Moro.

Opunham-se a essa loucura petistas sensatos como o ex-ministro da Justiça de Dilma, José Eduardo Cardozo, o ex-ministro dos Direitos Humanos Paulo de Tarso Vannuchi e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

A esse grupo moderado se juntavam os filhos de Lula, que temiam pelos efeitos da violência física que poderia ser cometida contra ele.

UM NOME DE PEQUENO CONSENSO

Nesse clima, seria inviável uma reunião harmônica da Executiva Nacional e agregados, para a consagração de Gleisi Hoffmann como porta-voz.

A substituição de Ruy Falcão como presidente nacional do PT foi das mais acidentadas. O primeiro que se lançou foi Lindbergh, colega de bancada de Gleisi.

Contra os dois, no entanto, crescia dentro do partido Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde, ex-candidato ao governo de São Paulo e médico formado pela Medicina da USP, com dois anos de trabalho na saúde de indígenas.

Se a sucessão ocorresse pelo voto, Padilha seria eleito. Mas o único grande eleitor foi o próprio Lula. E deu Gleisi, uma figura menor (veio do PC do B) e de ascensão recente na hierarquia do partido, ajudada por seu marido, Paulo Bernardo.

Segundo a Lava Jato, ela recebeu em caixa-dois da Odebrecht quando disputou em 2014 o governo do Paraná. Bernardo é acusado de desviar parte dos empréstimos consignados de servidores públicos, durante o governo Dilma.

O CENTRALISMO DE LULA

O fundamental, a partir do episódio, é que Lula sempre foi profundamente centralizador. Em questões importantes, sempre prevaleceu a palavra dele.

Há nisso um paradoxo. Nenhum partido político reuniu-se com tamanha frequência, e no passado nenhum outro elaborou propostas verdadeiramente coletivas.

Foi o modelo que prevaleceu, por exemplo, na campanha para as eleições presidenciais de 1989. Não eram os marqueteiros que ditavam as palavras do candidato. Eram os militantes e dirigentes.

Mas esse “excesso de democracia”, criticado pelo então secretário-nacional do PT José Dirceu, deu aos poucos lugar ao centralismo personificado em Lula.

Dois exemplos. Em 2012, os diretórios zonais paulistanos queriam a candidatura de Marta Suplicy. Lula impôs a de Haddad. Dois anos antes, antes mesmo que se discutissem os nomes para a presidência da República, Lula escolheu autoritariamente Dilma Rousseff.

Agora, preso na sede da Polícia Federal em Curitiba, a ilusão da cúpula petista é que ele governe o partido por meio da procuração que teria passado a Gleisi.

Mas há questões delicadas na própria logística de contatos pessoais entre a senadora e o ex-presidente.

O plano do PT era credenciá-la como uma das advogadas de Lula, permitindo o livre acesso dela à carceragem. Acontece que Gleisi, mesmo formada em direito, está com sua carteira da OAB suspensa, já que exerce em Brasília mandato parlamentar.

Pelas regras da PF, os presos podem ser visitados por familiares diretos durante o fim de semana. Os advogados têm livre acesso a eles de segunda a sexta-feira.

Mas é sempre algo restrito. Não se sabe, por exemplo, se Lula, cujo celular foi confiscado, poderá gravar mensagens a serem difundidas pelo partido.

O fato é que, de longe, ele não poderá arbitrar disputas ou interferir em favor de algum grupo partidário. Seu raio de ação está profundamente limitado.

Por enquanto, Lula é objeto de uma atenção obsessiva por parte da mídia. O que ele almoçou e a que horas, o que lhe deram de café da manhã, se está revoltado ou tranquilo.

Mas com o passar das semanas é provável que ele perca bastante do peso como celebridade que ainda tem. E passará a ser apenas o preso com maior currículo – eleito duas vezes presidente da República – entre os 114 já condenados pela Lava Jato.

 

FOTO: Marcello Casal Jr/Agência Brasil