Brasil

“O comércio de rua torna a cidade mais viva”


Autor de "São Paulo nas Alturas", o jornalista Raul Juste Lores diz que construções como o Conjunto Nacional (na foto), que reúnem lojas, escritórios e apartamentos tornam a cidade melhor


  Por Mariana Missiaggia 28 de Agosto de 2018 às 13:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Bairros residenciais, bairros comerciais e bairros empresariais. Esse tipo de divisão é uma das razões para São Paulo ter se tornado uma cidade pouco funcional –em que é preciso percorrer quilômetros para trabalhar, fazer compras, passear e voltar para casa.

A reflexão do jornalista Raul Juste Lores, editor-chefe da revista Veja São Paulo, é também compartilhada por especialistas da área, que veem na história de São Paulo boas ideias para diminuir as distâncias percorridas, melhorar a paisagem urbana e revitalizar bairros da capital, como o Bom Retiro, Barra Funda e Campos Elíseos.

Para Lores, construções icônicas, como o Copan, o Bretagne e a Galeria do Rock, numa época em que não havia sequer Plano Diretor, mostram que é preciso olhar para trás para construir o futuro.

Prédios multifuncionais e abertos ao público, como o Conjunto Nacional, inaugurado em 1956 e projetado por David Libeskind, que reúne escritórios, consultórios e apartamentos de várias metragens, cinemas, restaurantes, lojas e que estão bem ao alcance das estações de metrô refletem bem o estilo de vida perseguido pela nova leva de moradores desta grande metrópole.

EM SEU LIVRO, LORES REVÊ A
ARQUITETURA DAS DÉCADAS
DE 1950 E 1960

Em seu livro “São Paulo nas Alturas”, publicado em 2017, Lores relata a importância dos arquitetos que atuaram nas décadas de 1950 e 1960 e ergueram prédios que até hoje têm alto valor econômico e arquitetônico.

Na quarta-feira (22/8), Lores se reuniu com integrantes do Conselho de Política Urbana (CPU) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Em entrevista ao Diário do Comércio, o jornalista conta como acredita ser possível resgatar a vitalidade da cidade mesmo em áreas mais degradadas com a ajuda do comércio.

Como é possível melhorar a interlocução entre governo, urbanistas e sociedade para estruturar antigos pleitos da cidade?

Nas últimos décadas, projetos muito grandes não saíram do papel. Já ficou claro que algo que se leva dez ou 20 anos para fazer, prefeito nenhum acaba concluindo. Acho que o foco de novas realizações seria resgatar o que se dá para fazer de forma micro.

Se a questão é zeladoria ou calçadões, o intuito deve ser somente resolver os problemas. Se a proposta é pegar cinco prédios icônicos da cidade que estão sem uso, e dar um novo uso para eles também é possível resolver sem projetos mirabolantes.

Acredito que ter foco, pensar em projetos de curto prazo e que sejam concluídos, criam uma onda virtuosa, seja nos bairros ou no centro - bem melhor que projetos que não saem nunca.

FACHADA DO CONJUNTO NACIONAL, NOS ANOS 1960

Há uma grande movimentação em direção ao resgate da vitalidade de São Paulo, especialmente, na região central. Qual o papel desses edifícios icônicos nesse cenário? Como eles podem impulsionar essa revitalização?

São Paulo é uma cidade muito recente. Em 1900 ainda era uma cidade pequena, não temos tanta história, não somos Roma ou Istambul.

É preciso, no entanto, valorizar o pouco da lembrança que temos, como prédios muito grandes e até em bom estado, mas que com uso muito escasso. O Palácio dos Correios, no Anhangabaú, a Galeria Prestes Maia, a Casa das Retortas -muitos prédios imponentes e impactantes que estão sem uso há muito tempo.

No meio disso tudo, uma coisa é certa: lojas são polos de atração de pessoas, de encontro, de convivência e de criação de espaço público.

Onde há um café, uma livraria, uma loja, há circulação de gente e isso mantém o espaço vivo e seguro.

A ideia de vitalidade urbana é muito bem representada pelo Conjunto Nacional, na avenida Paulista. O Fasano nasceu lá. Ali está uma construção icônica, sede de diferentes usos, que impulsiona toda uma dinâmica urbana e que tem a cara dos jovens de hoje.

LIVRO "SÃO PAULO NAS ALTURAS"
FOI PUBLICADO EM 2017

Neste sentido, é possível lidar melhor com a questão do tombamento? 

Deveríamos saber diferenciar o que é tombamento de fachada de tombamento interno. Além disso, desburocratizar a concepção de que ao tombar, estamos condenando o imóvel a levar 20 anos para se permitir instalar um ar-condicionado ou adaptá-lo para construções mais modernas.

Nossa atual legislação condena esses prédios a serem abandonados ou faz com que os proprietários percam o interesse nele ou de realizar qualquer tipo de intervenção.

Por outro lado, também precisamos sensibilizar os paulistanos sobre a importância desses prédios. Vemos muita gente sem saber reconhecer a beleza e importância deles e muitos síndicos destruindo prédios com reformas mal feitas.

E o papel do comércio nisso tudo? A Praça Roosevelt e alguns pontos do centro refletem bem como a intervenção do comércio é importante para a recuperação da cidade. Como isso pode ser estimulado?

As cidades surgiram graças ao comércio. Na Idade Média, as pessoas comiam o que plantavam. Quando começaram a ter um excedente passaram a vender e assim, surgiu toda uma classe de artesãos, comerciantes e outros serviços, tal como os grandes bazares das cidades árabes e etc.

No século passado, por domínio do carro, o comércio acabou se apequenando, ficando dentro de shoppings ou de grandes estruturas, fora das áreas centrais.

Hoje, assistimos ao movimento oposto. As redes mais populares de moda rápida abriram megalojas na avenida Paulista. A Vila Madalena está cheia de lojinhas de artesãos e marcas que são produzidas ali mesmo.

Portanto, acredito que o comércio está voltando a ter esse papel de retomar o espaço público, de utilizar as calçadas, de fazer as pessoas andarem, e se encontrarem de forma espontânea.