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O centro de São Paulo pede socorro


Assaltos, sujeira, barulho: o cenário de caos assusta comerciantes e quem é obrigado a transitar pela Praça da Sé (foto) e região


  Por Wladimir Miranda 14 de Fevereiro de 2019 às 16:00

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


Moradores em situação de rua, em grande número - principalmente nos finais de tarde, horário em que instituições religiosas distribuem alimentos em alguns pontos da região, como o Pátio do Colégio -, artistas de rua, pregadores religiosos, vendedores ambulantes: quem é obrigado a transitar e a trabalhar na região central de São Paulo enfrenta um martírio diário.

Bancários, funcionários das várias repartições públicas existentes no chamado centro histórico da cidade e, principalmente, os comerciantes são os mais afetados com a situação caótica.

Muitos estabelecimentos comerciais e até um cartório tiveram de fechar suas portas.

Só na Rua Anchieta, que liga o Pátio do Colégio à Rua 15 de novembro, foram quatro lojas e um cartório fechados no último ano.

Ver diariamente a porta de seus negócios repleta de moradores em situação de rua, muitas vezes alcoolizados ou drogados e brigando entre si, foi motivo mais do que suficiente para que muitos empreendedores batessem em retirada.

A Praça da Sé, palco de inúmeras manifestações políticas históricas e marco zero da cidade, está tomada por usuários e traficantes de drogas. Pastores, prostitutas, moradores de rua, cercados por todos os lados de barracas, que vendem os mais variados produtos, de roupas e chinelos à alimentação, como pastéis, formam o cenário do caos.

"É lamentável o que ocorre hoje na região central da cidade. Posso dizer, sem medo de errar, que é uma calamidade pública. Uma vergonha", afirma Luiz Alberto da Silva, diretor superintendente da Distrital Centro da Associação Comercial.

Ele diz ter se reunido com as autoridades responsáveis pela limpeza e segurança do centro - tais como a subprefeitura da Sé, Guarda Civil Metropolitana - GCM - e a Secretaria da Ação Social -, sem que as reivindicações fossem atendidas.

 

  

Rúbia Souto é dona da Zatt Collection, na 15 de novembro, loja de roupas, que tem outras três filiais na cidade. A rede foi inaugurada em 1973 e começou como loja de calçados. Ela, como a maioria dos comerciantes, afirma que a região é muito insegura.

“É triste ver a cidade tomada por moradores de rua. Fui assaltada três vezes. Vários comerciantes já pensaram em sair da região central. Tenho muito medo”, diz ela.

Para Rúbia, os poderes públicos deveriam valorizar mais o centro histórico, cartão de visitas da cidade. Ela tem muitas críticas para a atual situação da Praça da Sé.

“A Praça da Sé virou um depósito de lixo humano. É uma vergonha”, afirma.

 

Delfin Rolan Nunez é proprietário do Orange Sucos, que fica na Rua 15 de novembro, esquina com a Praça da Sé. Ele é comerciante no centro há 20 anos. É um dos líderes do movimento para melhorar a região.

“Ser comerciante no centro é um grande desafio, pois convivemos com muitos problemas”, afirma ele.

 

 

 

  

Nádia Pereira do Rego, advogada, é presidente da Ação Local, instituição ligada à Associação Viva o Centro. Ela fica indignada sempre que passa pela Praça da Sé.

“A Sé é um patrimônio histórico de São Paulo. E está degradada. Ninguém toma providências. Os moradores de rua espalham sujeira por todos os lados”, disse.

Não há consenso sobre o número exato de moradores em situação de rua atualmente em São Paulo.

Consultada, a prefeitura paulistana anunciou que pretende antecipar o censo da população em situação de rua. Antes previsto para 2020, o levantamento deve sair ainda no decorrer deste ano.

O argumento utilizado para antecipar o censo é que aumentou consideravelmente o número de pessoas vivendo nas ruas de São Paulo.

Antes mesmo do início do levantamento, a previsão é que o número de desabrigados chegue a 20 mil pessoas. Em 2015, quando foi realizado o último censo, o número de moradores sem teto na Capital chegava a 16 mil.

Há quem considere que esse número esteja subestimado. Robson Mendonça, presidente do Movimento Estadual da População de Rua de São Paulo, questiona a metodologia utilizada no censo e acredita que há 32 mil pessoas em situação de rua na cidade.

“Se antes mil havia um aumento de mil pessoas por ano, agora aumenta 1,5 mil pessoas por ano”, afirma, ele próprio um ex-morador de rua.

O QUE DIZ A SECRETARIA DE AÇÃO SOCIAL

Ao Diário do Comércio, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) informou que mantém equipe de orientadores socioeducativos do SEAS (Serviços especializados de Abordagem Social), Regional Sé, responsável por realizar diariamente ação “intensificada nos perímetros de Santa Cecília, Higienópolis, Pacaembu e Consolação, com trabalho de escuta, sensibilização e oferta dos serviços da rede às pessoas em situação de rua”.

Este serviço, de acordo com a secretaria, realizou, no ano passado, 566.162 abordagens, com 326.160 encaminhamentos.

“No entanto, a pessoa em situação de rua não é obrigada a aceitar o atendimento oferecido”, afirma a nota enviada ao Diário do Comércio.

A Secretaria informa também que em 47 pontos da cidade oferece alimentação completa (café da manhã, almoço e jantar) e encaminhamentos para conferência de documentos pessoais, orientação para problemas judiciais, capacitação profissional, acesso à saúde, rede de estímulo à geração de renda, atividades de lazer e cultura, “visando a reinserção social e conquista de autonomia da população em situação de rua”.

A SMADS garante que, de acordo com o último censo, realizado em 2015, pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), 15.905 estão em situação de rua em São Paulo.

Mas admite que, devido à crise econômica, esse número realmente cresceu, aliás como pode ser facilmente verificado nas ruas e praças da cidade.

Já a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informa que as polícias civil e militar realizam operações rotineiras na região central da cidade visando combater os crimes contra o patrimônio.

A Operação Mobile, por exemplo, combate a receptação de celulares furtados e roubados. No domingo (10/02), por exemplo, os policiais civis detiveram cinco suspeitos por furto de aparelhos de celular na região central.

“Na área do 1º DP, região central, em 2018, 413 suspeitos foram detidos em flagrante pelas polícias. Além disso, houve redução de 11,4% nos casos de roubo, em relação a 2017”, conclui a nota da assessoria de imprensa.

 

FOTOS E VÍDEOS: Will Chaussê/Diário do Comércio