Brasil

"Mexeu com um, mexeu com todos"


A solidariedade da Associação Comercial de São Paulo ao comerciante Navid Saysan (foto), que depôs nesta quinta (18/2) na Corregedoria da Polícia Civil, após sofrer agressão policial


  Por Karina Lignelli 19 de Fevereiro de 2016 às 09:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


"Um assunto que não pode morrer". A frase, de Roberto Matheus Ordine, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), sintetiza o posicionamento da entidade em relação à agressão sofrida pelo comerciante de origem iraniana Navid Rasolifard Saysan, 47 anos, no dia 21 de janeiro, por parte do investigador da Polícia Civil José Camilo Leonel, 51.

Na ocasião, Saysan foi espancado pelo policial após não entrar em acordo pela segunda vez com a cliente Iolanda Delce dos Santos, 29, por conta da tentativa de devolução de um tapete persa adquirido por ela em sua loja, no bairro dos Jardins.

A agressão, gravada pelas câmeras de segurança do estabelecimento, foi exibida pelo Fantástico no último domingo (14/02). As cenas, replicadas exaustivamente na internet e nas redes sociais, causaram repúdio em vários setores da sociedade.

“Nenhum policial está acima da lei, e não me lembro de ter visto algo do tipo em todos os meus anos de atuação no comércio. O que aconteceu foi algo que remete à Idade Média”, afirma Ordine.  

Um dia após a exibição da reportagem, e em desagravo ao comerciante, a ACSP emitiu uma nota assinada pelo presidente, Alencar Burti, em repúdio à ação violenta de Leonel, que contou ainda com a participação de outros quatro policiais civis.

“O comércio é gerador de empregos e de riquezas para o País, e não pode viver com o temor constante de ataques, seja de bandidos ou de policiais”, disse Burti. “É de extrema urgência que o caso seja apurado, e o investigador e os demais policiais envolvidos com esse ato de terror sejam punidos”, completou.

De acordo com Ordine, de agora em diante a entidade se manterá vigilante ao cotidiano de seus associados, além de promover ações a favor dos empreendedores para evitar problemas semelhantes.  

Ele menciona as  “centenas de milhares de comerciantes” sujeitos a sofrerem abusos de poder diariamente, da mesma forma que aconteceu com Saysan. “Estaremos atentos: mexeu com um, mexeu com todos”, afirma.

ENTENDA O CASO

Em dezembro passado, a universitária Iolanda comprou um tapete na Tabriz, de propriedade de Saysan, e pagou com cinco cheques de R$ 1 mil. Em janeiro, ela voltou querendo devolvê-lo. A alegação era de que “sua arquiteta não gostou”, e pediu o dinheiro de volta.

 De acordo com o Procon, só haveria obrigatoriedade de troca ou a devolução do dinheiro se o tapete apresentasse defeito.

Ainda assim, em resposta, o comerciante disse que não poderia devolver o dinheiro, pois já tinha pago o fornecedor. Porém, ofereceu um vale-compras do mesmo valor, que não foi aceito. No dia 21, ela voltou e, depois de uma discussão, disse que chamaria a polícia.

Saiu da loja falando ao celular, conforme mostraram depois as câmeras de segurança, e logo surgiu a viatura, dirigida pelo investigador Leonel - que estava em férias. Ele chega e começa a discutir com o comerciante, exigindo a devolução do dinheiro.

É quando começa o espancamento, dentro e fora da loja, já que Saysan se recusa a entrar na viatura algemado. Na sequência, atendendo a um chamado de Leonel, chegam quatro policiais do GOE (Grupo de Operações Especiais), da elite da Polícia Civil, para “auxiliá-lo.” O investigador chega a apontar o fuzil de um deles para o comerciante.

Após tentar registrar o caso da Delegacia de Crimes do Consumidor, sem sucesso, Leonel foi à Corregedoria registrar o caso, dizendo que atendeu “ao apelo da cliente”, pois passava pelo local e achava que era um assalto.Também justificou a necessidade de uso da força física como “desobediência” e “recusa em informar dados.”  

Questionada sobre o cliente, que é comerciante no Brasil há 20 anos -desde que chegou do Irã -, sua advogada, Maria José da Costa Ferreira disse apenas que Saysan está “muito abalado.”

AFASTAMENTO

Nesta quinta-feira (18/02), o comerciante prestou depoimento sobre a agressão na  Corregedoria da Polícia Civil, na capital paulista. De acordo com Maria José, logo após o ocorrido, no final de janeiro, foram feitas duas representações na Corregedoria.

Uma, contra o investigador. Outra, contra o delegado da Corregedoria, que mesmo ouvindo o depoimento do comerciante, dos clientes e dos funcionários, não tomou nenhuma providência quanto aos atos de Leonel.   

“Mas vale frisar que a Corregedoria só instaurou o inquérito na última segunda-feira, logo após a exibição das imagens na TV”, afirma.

A advogada também disse que entrou com ações cíveis contra o Estado, por “ter mantido um servidor desse nível”, e contra a cliente da loja, por incitação ao crime. Ambas requerem indenização por danos morais.

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) enviou nota confirmando que a Corregedoria da Polícia Civil ouviu o depoimento do comerciante na tarde desta quinta-feira, em sua sede.

“Estão em andamento um inquérito policial e um procedimento administrativo disciplinar que está apurando, além das agressões e do abuso de autoridade, a utilização de viatura, mesmo com o investigador estando em férias. O policial foi afastado preventivamente por 180 dias, e o  Delegado Geral de Polícia Civil determinou a entrega do distintivo e da arma até o final da apuração”, conclui o comunicado. 

Foto: Newton Menezes/Futura Press/Estadão Conteúdo