Brasil

Mercado começa a se desencantar com o governo


Objetivo seria uma pequena Reforma da Previdência. Mas Temer demonstrou fraqueza (só 251 votos) na rejeição da segunda denúncia da PRG. Bovespa refletiu o novo ceticismo


  Por João Batista Natali 03 de Novembro de 2017 às 08:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Apareceram nuvens escuras no horizonte em que moram as previsões do mercado sobre Michel Temer. A nova tendência é de descrença com a possibilidade de aprovação de pontos mínimos da Reforma da Previdência.

O pessimismo tem como principal termômetro a Bolsa de Valores. Em 25 de outubro, horas antes de a Câmara dos Deputados rejeitar a segunda denúncia da Procuradoria Geral da República contra o presidente, o índice Bovespa estava com 76.600 pontos.

Entrou em queda no pregão do 26, até atingir 73.800 pontos no quinto pregão seguinte, nesta quarta-feira (01/11).

A percepção era de que as reformas não mais entrariam na pauta do Congresso e, com 2018 se avizinhando com a imobilidade de ano eleitoral, mudanças fundamentais no Estado ficariam para 2019, com o próximo presidente.

E isso se forem essas a vocação e a plataforma política do próximo eleito.

O fôlego menor atribuído ao Planalto se traduz agora pelo desapontamento com o projeto de, por meio da Previdência, reduzir o desequilíbrio fiscal, o que daria à União energia para investimentos.

UMA REFORMA PEQUENINA

O curioso é que hoje se esperaria para a Previdência algo bem mais modesto que o conteúdo do projeto aprovado em maio pela comissão especial da Câmara.

Bastaria, agora, legislar sobre a idade mínima para a aposentadoria, por mais que somente ela não contenha o rombo de R$ 205 bilhões para as contas de 2018, segundo estimativa de Marcelo Caetano, secretário de Previdência do Ministério da Fazenda.

É muito dinheiro. O mercado não faz suas previsões com quantias abstratas.

Uma das consequências da manutenção desse buraco no orçamento está na tentação de aumentar impostos para tapá-lo, o que, diga-se de passagem, é o novo balão de ensaio ventilado pela equipe econômica.

Aumentar a tributação é tudo o que a economia não quer.

Nesse rodamoinho, afundam as esperanças de reforma personificadas no presidente da República.

A decepção que ele desperta não faz parte, aos olhos do mercado, do jogo entre partidos políticos, que se comportam já com forte componente eleitoral.

Criticar um presidente impopular coloca o crítico do lado positivo de alguma popularidade. Mesmo se, nesta quarta (01/11), pesquisa do Poder360, um site de informações políticas, revela que a percepção negativa sobre Temer caiu de 79% para 71%.

Ou seja, ele não é mais tão malvisto em outubro quanto era em setembro.

Mas a reputação do presidente que conta de verdade é outra. Ela tem a capacidade política que lhe resta para fazer com que as reformas avancem mais alguns centímetros.

Por esse ângulo, as coisas estão muito ruins.

Vejamos. No último dia 25, Temer teve 251 votos para derrubar a segunda denúncia do ex-procurador-geral Rodrigo Janot.

A Câmara tem 513 deputados. Foi pela primeira vez, em votação importante, menos da metade dos votos em favor do Planalto.

Quando da votação da primeira denúncia, em 2 de agosto, Temer recebeu 263 votos.

PLANALTO PERDEU 116 DEPUTADOS

Mas agora ele não está apenas com 12 deputados a menos. Tem 116, se for para comparar com a votação da Câmara em abril de 2016, em favor do impeachment de Dilma. O cálculo foi feito pela Folha de S. Paulo.

Foram naquela noite 367 votos, o melhor resultado que o então vice-presidente colheu.

Quando da votação da PEC dos Gastos Públicos, em outubro do ano passado, Temer ficou com um voto a menos: 366.

Agora, ele registra queda de apoio em todos os partidos. Até no PMDB, do qual ele já foi presidente. Dos 59 que votaram o impeachment, hoje apenas 51 deputados o apoiam.

Não entremos em considerações sobre a maneira pela qual o apoio no último dia 25 foi obtido, com emendas parlamentares e distribuição de cargos do segundo ou terceiro escalão.

O que vale é a quantidade de votos que o presidente da República tem ao seu lado. São votos, agora, absolutamente deflacionados, conclusão que também vale para o Senado – embora os senadores, pela Constituição, não votem a autorização para processar o presidente, uma autorização que os deputados negaram por duas vezes.

O número dois da hierarquia institucional, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) já afirmou que Temer não tem mais poder para aprovar projetos importantes.

Maia tem sido leal. Ele poderia ter boicotado Temer na votação de 2 de agosto –a primeira denúncia da PRG –, para com isso levar ao afastamento do presidente e ocupar o lugar dele.

Mas existem áreas de atrito importantes entre o presidente da República e o presidente da Câmara. Ambos disputaram, por exemplo, a adesão de deputados do PSB que queriam mudar de partido.

Temer e Maia não têm tampouco o mesmo ponto de vista quando se trata das presidenciais de 2018. Maia faz de tudo para não atrelar o DEM aos projetos e às ambições do PMDB.

O fato, portanto, é que o horizonte não é glorioso para Temer. E, com isso, a possibilidade de reforma se tornou, no anedotário de Brasília, o “wishful thinking” do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

 

FOTO: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo; EDIÇÃO:William Chaussê/DC