Brasil

Meirelles para presidente. Será mesmo?


Ministro da Fazenda acredita ser uma das opções do campo liberal. Seu nome foi lançado por Kassab e já foi contestado por João Doria


  Por João Batista Natali 20 de Setembro de 2017 às 16:30

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Será que dá para levar a sério a candidatura presidencial de Henrique Meirelles?

O nome dele foi lançado no início de setembro pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab, que o convidou para se candidatar pelo PSD, partido que criou e sobre o qual exerce amplo controle.

Mas o nome do ministro da Fazenda já circulava havia pouco mais de um ano, quando Michel Temer assumiu em definitivo a Presidência da República, no lugar de Dilma Rousseff.

Tanto isso é verdade que um outro ministro do governo Temer, Moreira Franco, secretário-geral do Planalto, tornou-se uma das fontes de informações ruins para o desempenho do ministro da Fazenda.

Não era uma questão de inimizade entre Meirelles e Moreira. O co-articulador político do presidente (o outro é o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha) temia que a Fazenda ocupasse um espaço político excessivo, no processo de recuperação da economia que todos acreditavam que seria bem mais rápido do que ocorreu.

CORRENDO NA FAIXA DE DORIA

Outro indício bem mais explícito de que Meirelles se propunha a disputar a sucessão de Temer foi dado por João Doria, que vê no ministro da Fazenda um adversário perigoso.

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DORIA: CONSELHO SUSPEITO

O prefeito de São Paulo pediu que Meirelles se dedique em tempo integral à economia e não se paute por ambições presidenciais.

O fato é que o ministro da Fazenda tem um perfil dos sonhos para os que acreditam que a competência em atuar ao lado do mercado é a única alternativa para enterrar de vez as ambições de Lula ou do Partido dos Trabalhadores.

Meirelles, no entanto, não poderia se viabilizar a longo prazo, apenas para as eleições de 2022. Sua última chance será em 2018, quando, se fosse eleito, assumiria o Planalto já com 73 anos. Na eleição seguinte, teria 77.

O problema é saber se ele tem essa ambição, e tudo indica que a tem. A prova estaria no esforço – imperceptível no noticiário político – que ele tem feito para dialogar com a comunidade evangélica.

Tem aceito convites para encontros com dirigentes pentecostais (21% dos brasileiros), que é uma máquina político-religiosa com bancadas próprias e uma estrutura que compensaria a falta de um partido de peso, como o PMDB ou o PSDB.

Meirelles recentemente até gravou um vídeo para essa ala do cristianismo, a qual, obviamente, não é, por definição, uma interlocutora primordial de um ministro que trata da economia.

Para os que torcem por Meirelles, os evangélicos seriam parte da catapulta para o lançamento de uma candidatura. A outra parte seria o partido de Kassab, que, bem ou mal, possui na Câmara uma bancada de 39 deputados.

Meirelles sabe que, em termos de biografia, nenhum liberal de peso tem uma interlocução tão aberta com o PT, ele que foi presidente do Banco Central por oito anos, durante os dois mandatos do presidente Lula.

No campo liberal e de centro-direita, sua vantagem –e nisso ele se mistura ao prefeito João Doria – é a de não ter sido sequer mencionado no conjunto espalhafatoso das delações da Lava Jato.

Sua honestidade é levada tão a sério que ninguém cobrou dele, a partir de março (a gravação de Joesley com Temer), o fato de ele ter sido presidente do Conselho de Administração da J&F, a holding dos irmãos Batista.

Entre os dirigentes políticos e os empresários, a imagem de Henrique Meirelles paira acima dessas coisas.

DEPUTADO PELO PSDB DE GOIÁS

Nascido em Anápolis (GO) em 1945, formado pela Escola Politécnica da USP, com MBA na URFJ, ele foi presidente por 12 anos do Bank Boston no Brasil e depois, por mais três, CEO mundial do mesmo banco.

Aposentando-se em 2002, tentou entrar na política. Elegeu-se deputado federal pelo PSDB – foi o candidato mais votado em Goiás -, mas não exerceu o mandato porque Lula o convidou para o BC.

Dilma Rousseff não o convidou para o governo dela. Teria dito na época que Meirelles era bom de contratar, mas impossível de demitir, sem ao mesmo tempo comprar briga com todo o sistema financeiro.

Em verdade, o distanciamento de Dilma representou para Meirelles a compra de um bilhete premiado. A reputação dele não está historicamente associada a nenhum momento da desastrada “nova matriz econômica” e à recessão em que o país mergulhou, já em 2014.

Por fim, os entusiastas da candidatura presidencial de Meirelles lembram que ele se tornou um bom vendedor das ideias produzidas pelo governo Temer, com vistas ao ajuste fiscal.

Coube ao ministro da Fazenda as explicações técnicas, ao Congresso, sobre a PEC do teto dos gastos públicos e sobre a Reforma da Previdência, que foi abortada por fatores (Joesley) alheios ao ministro.

Os obstáculos de Meirelles, no entanto, são muitíssimos. O principal está no congestionamento de candidaturas, dentro de um terreno que procuram ocupar o mesmo espaço político.

Excetuados Lula (se sobreviver à Lava Jato), Ciro Gomes e Marina Silva, pela esquerda, e Jair Bolsonaro, pela direita, praticamente todos os demais pré-candidatos disputam a mesma faixa em que o ministro da Fazenda pretende concorrer.

Em outubro de 2018 os candidatos a presidente disputarão o primeiro turno. Estamos então a pouco mais de um ano da eleição. Meirelles acredita ter chances e prepara discretamente seus cartuchos.

FOTO: José Cruz/Agência Brasil