Brasil

Marcelo Odebrecht e seus executivos buscam a delação premiada


A secretária Maria Lucia Tavares declarou, em delação premiada, que o presidente afastado do grupo foi quem solicitou a criação da planilha de pagamentos paralelos


  Por Estadão Conteúdo 22 de Março de 2016 às 22:12

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Os executivos da maior empreiteira do País decidiram buscar o acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República nos processos da Operação Lava Jato.

O empreiteiro Marcelo Bahia Odebrecht, preso na Operação Erga Omnes, desde 19 de junho de 2015, já começou a depor, antes da deflagração da Operação Xepa, etapa da Lava Jato que tem base na colaboração da ex-secretária do grupo, Maria Lúcia Tavares - ela entregou aos investigadores a planilha da propina.

O acordo foi confirmado pelo grupo nesta terça-feira (22/03). O acordo envolve outros executivos da Odebrecht, presos também desde junho de 2015.

Pesou na decisão de fazer o acordo a condenação imposta pelo juiz federal Sérgio Moro. Acusado de lavagem de dinheiro, corrupção ativa e associação criminosa, Odebrecht foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão.

Também pesou o fato de a ex-secretária Maria Lúcia ter feito delação e revelado os caminhos dos pagamentos ilícitos realizados por ordens de seus superiores, entre eles Marcelo Odebrecht.

SECRETÁRIA DEPÕE

A secretário da Odebrecht Maria Lucia Tavares declarou em sua delação premiada, fechada com a Operação Lava Jato, que o presidente afastado do grupo, Marcelo Bahia Odebrecht, foi quem solicitou a criação da planilha de pagamentos paralelos identificada na Operação Xepa.

A procuradora da República Laura Gonçalves Tessler, da força-tarefa da Lava Jato, afirmou que o ex-presidente da Odebrecht "comandava a sistemática de pagamento de propina". Marcelo Odebrecht foi preso na Operação Erga Omnes, em 19 de junho de 2015.

A Operação Xepa é um desdobramento da Acarajé, 23ª fase da investigação.

Em nota, a Odebrecht afirmou nesta terça-feira, 22, que "tem prestado todo o auxílio nas investigações em curso" e "colaborando com os esclarecimentos necessários".

PLANILHA SECRETA

A força-tarefa  identificou recebedores de propina da Odebrecht. Segundo a força-tarefa, a Polícia Federal apurou que a entrega era feita a emissários dos destinatários finais, 'sendo que a identificação correta destes é imprescindível para descobrir quem é o último beneficiário'.

No documento de 39 páginas entregue ao juiz federal Sérgio Moro, os procuradores montaram uma tabela com os nomes dos emissários.

A tabela tem quatro colunas denominadas Codinome/Local de entrega, nome, função e evidências.

Um dos codinomes identificados é 'Gustavo'. Na tabela há ainda as informações "Largo do Machado, 29, Sl 523, Centro, Rio de Janeiro/RJ - recebeu uma entrega no dia 16/06/2015, no valor de R$ 550 mil". Para os investigadores, pode se tratar de Gustavo Falcão, irmão do operador de propinas Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano, um dos delatores da Lava Jato.

Outro codinome indicado na tabela é 'Timão', com as informações 'entrega no endereço Rua Emilio Mallet, 589, apto. 172 em São Paulo, a ser liquidado na data de 23 de outubro de 2014, no valor de R$ 500 mil. Segundo o parecer, o codinome está ligado a 'dirigente do Corinthians Andre Luiz de Oliveira'.

"(A autoridade policial) acrescenta ainda que há indícios que alguns emissários recebedores já identificados possuem vínculos com agentes públicos ou políticos, em que pese a investigação ainda esteja em estágio inicial, não sendo concludente neste ponto.

Outras vezes, os recebedores são executivos da Odebrecht, possivelmente os responsáveis pela entrega até os destinatários finais", aponta o documento.

No parecer, a Procuradoria afirma que no material apreendido na casa da funcionária da Odebrecht Maria Lúcia Guimarães Tavares, suspeita de ser responsável por parte da distribuição da "rede de acarajés" - que seria referência a propina -, 'existe uma série de endereços indicados em planilhas e telas de sistema informatizado com locais de entrega de recursos em espécie associado a codinomes'. 

Ainda de acordo com a representação policial: "Sobre as entregas de dinheiro, Maria Lúcia explica que semanalmente extraía do sistema informações quanto às requisições programadas para aquele período. Cabia a Maria Lúcia verificar quanto seria entregue em cada cidade, de modo a acionar os operadores financeiros ("prestadores"), comunicando a eles sobre os valores a serem entregues, o endereço, o contato e a senha."

Conforme narra a autoridade policial, no material apreendido na residência da funcionária existe uma série de endereços indicados em planilhas e telas de sistema informatizado com locais de entrega de recursos em espécie associado a codinomes.

Cada uma das requisições se encontra vinculada a um executivo da Odebrecht e a uma "obra", sustenta o documento.

O documento destaca ainda que a PF registrou cinco endereços de entregas no hotel Blue Tree Faria Lima com a indicação do beneficiário social e da obra Agroindustrial "nas datas de 24 (R$ 380 mil), 25 (R$ 500 mil) e 26/02 (R$ 500 mil) e nos dias 04 (R$ 500 mil) e 05/03 e (R$ 500 mil). "Não há indicação de número de quarto", diz o parecer.