Brasil

Manifestações mornas não afetam a reforma da Previdência


Atos públicos da oposição nesta quarta-feira não abalaram convicções do governo, nem foram preâmbulo de suposta greve geral


  Por João Batista Natali 16 de Março de 2017 às 15:48

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O presidente Michel Temer e seus aliados no Congresso puderam dormir tranquilos nesta quarta-feira (15/03). As manifestações em 19 capitais de Estados e no Distrito Federal não chegaram a arranhar a convicção de que as reformas trabalhista e da Previdência continuarão a ser normalmente discutidas.

Não há a mínima possibilidade de que o governo retire os projetos sob a pressão das ruas, conforme “exigência” de Vagner Freitas, presidente da CUT.

E tampouco se levou a sério a bravata do minúsculo PSTU, que acredita haver clima para uma grande greve geral. A mesma postura incrédula vale para a plataforma da Apeoesp, o sindicato dos professores da rede pública paulista, que pediu a anulação do afastamento da ex-presidente Dilma.

Caso a quarta-feira tivesse sido marcada por uma greve significativa, com milhões de cidadãos indo às ruas, deputados e senadores passariam a hesitar.

Eles se convenceram, em 2016, de que o impeachment se tornara uma forte bandeira popular com o peso das manifestações de 13 de maio, que reuniram, segundo as polícias militares, algo em torno de 4 milhões de pessoas.

Não foi o que a atual oposição conseguiu desta vez. Na avenida Paulista, que teve o maior ato do país, apenas três quarteirões registravam uma concentração humana mais compacta. Os organizadores chegaram a falar em 300 mil pessoas. Seria mais realista, no entanto, reduzir esse cálculo para um quarto ou um quinto.

A Paulista em toda sua extensão estava tão esvaziada quanto em 11 de setembro último, quando a Frente Brasil sem Medo convocou ato público contra Temer. E não chegou aos pés da manifestação de 18 de março de 2016, a maior que o Partido dos Trabalhadores reuniu em favor de Dilma Rousseff.

SEGUE A ROTINA DAS REFORMAS

Em Brasília, nesta quinta (16/03), a rotina prosseguiu normalmente no governo e no Parlamento. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, permanece válida a decisão do presidente da Mesa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que, a pedido do PSB, prorrogou até sexta o prazo para a apresentação de emendas à reforma da Previdência.

É uma reforma que tem desencadeado uma imensa operação de desinformação, a começar pela afirmação de que seria possível se aposentar apenas aos 65 anos e depois de 49 anos de contribuição.

Esses tetos existem, mas eles valem para quem quiser receber a pensão integral. Nada impede que se aposente antes desse limite, mas com o recebimento parcial da pensão, como ocorre hoje com o chamado fator previdenciário.

Mesmo assim, o ex-presidente Lula - o mais inspirado e menos rigoroso dos oradores do palanque da avenida Paulista - afirmou que “Está ficando cada vez mais claro que o golpe dado nesse país não foi apenas contra a Dilma, contra os partidos de esquerda, foi para colocar um cidadão sem nenhuma legitimidade para acabar com as conquistas da classe trabalhadora ao longo de anos, com a reforma trabalhista e da Previdência”.

Digamos, por hipótese, que tal afirmação fosse consensual. Nesse caso, o Brasil teria sido paralisado.

Foi longe de ser o caso. Os professores fluminenses da rede pública disseram-se em greve. Mas só 3% das 2 mil escolas deixaram de funcionar. Em São Paulo, os sindicatos dos professores do Estado (em greve até o dia 31) e do município conseguiram mobilizar só uma parcela minoritária de suas categorias.

Vejamos os ônibus. As garagens paulistanas foram abertas na quarta às 8h, e às 11h30 a Prefeitura calculava que 85% da frota já estava circulando. Mas para paralisar o setor basta a formação de piquetes diante dos depósitos dos veículos. 

Algo parecido aconteceu em São José dos Campos, onde o sindicato dos metalúrgicos está nas mãos do PSTU. Bastou impedir que circulassem os ônibus que transportam  os operários. Foi isso que impediu por três horas o funcionamento da General Motors. Em São Bernardo do Campo, piquetes permitiram que o mesmo acontecesse com a Volkswagen.

Ou seja, nessa queda de braço em torno da Previdência e da flexibilização da CLT, a população não está propriamente em estado de rebelião. Ela ficará insatisfeita, o que é previsível, e reagirá de maneira mais ruidosa do que nas semanas de tramitação da PEC do teto dos gastos públicos.

A BATALHA PERDIDA DA COMUNICAÇÃO

Temer ganhou então a batalha da comunicação? Claro que não. Suas últimas declarações foram excesivamente otimistas.

Ele disse na quarta que o governo está apontado um caminho para "salvar a Previdência Social do colapso”, evitando que ocorra o mesmo colapso que atingiu países como Portugal e Grécia, onde as pensões precisaram ser cortadas.

Temer também sabe que seu governo está enfraquecido pela lista Janot - os 83 políticos que passarão a ser investigados na Lava Jato. Até agora já vazaram 26 nomes. Há gente como Eliseo Padilha, ministro chefe da Casa Civil, os presidentes da Câmara e do Senado, Lula e Dilma e mais alguns governadores do PT e do PSDB.

Mas, detalhe importante, o nome de Temer não apareceu, e tudo indica que não aparecerá. 

Seria previsível que ele, em 2014 presidente nacional do PMDB, tivesse distribuído dinheiro recebido de caixa dois para as eleições daquele ano. Mas tal hipótese não foi comprovada. 

Segundo um colunista do jornal O Globo, Marcelo Odebrecht e um dos diretores daquela empreiteira disseram que o atual presidente não entrou em detalhes sobre as doações e não acompanhou a obtenção de recursos.

Ou seja, ponto para Temer. E ele está precisando.

FOTO: Antonio Cruz/Agência Brasil