Brasil

Lula foi o "comandante máximo" da corrupção, diz procurador


Deltan Dellagnol, da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, expôs as engrenagens da corrupção na Petrobras e disse que nada seria possível sem a chefia do ex-presidente


  Por Redação DC 14 de Setembro de 2016 às 19:19

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


O procurador da República Deltan Dellagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal, qualificou o ex-presidente Lula como “o comandante máximo” do esquema de corrupção na Petrobras.

Também afirmou, nesta quarta-feira (14/09), em Curitiba, que Lula foi o beneficiado por R$ 3,7 milhões de propina da empreiteira OAS, por meio do tríplex do Guarujá – cuja propriedade o ex-presidente voltou a negar, pelas redes sociais e por meio de seus advogados – e pelo custeio do armazenamento da mudança que ele trouxe de Brasília, em 2011, ao fim de seu segundo mandato.

Dellagnol foi excepcionalmente enfático e detalhista durante a entrevista coletiva, na qual explicou as razões que o levaram a pedir ao juiz Sérgio Moro que Lula fosse transformado em réu.

O juiz ainda não se pronunciou, e Dellagnol e os demais procuradores disseram não ter por hábito anunciar antecipadamente se pediriam ou não que Moro determinasse a prisão do ex-presidente.

Com o auxílio de gráficos e fluxogramas, o procurador se propôs a fazer um resumo de tudo o que a Lava Jato apurou.

Disse se tratar de “um imenso esquema de corrupção” pelo qual o Partido dos Trabalhadores garantia sua governabilidade, comprando o apoio de outros partidos com o dinheiro desviado da Petrobras.

Em paralelo, afirmou, os corruptores também aumentaram seus patrimônios pessoais, com o funcionamento de uma máquina que apenas seria viável se houvesse o comando unificado entre a esfera partidária (PT, PP, PMDB) e administrativa (Petrobras). E esse comando, disse ele, era de Lula.

A seu ver, o mecanismo de corrupção era bancado por cartéis de empresas que se aproveitavam para garantir a assinatura de contratos milionários com o Poder Público.

"Mesmo depois da saída de José Dirceu [ministro-chefe da Casa Civil na época, 2005] e com a troca de tesoureiros no Partido dos Trabalhadores, o esquema prosseguiu por meio do petrolão. Isso demonstra que havia um vértice em comum, e esse vértice é o Lula", reafirmou Dallagnol.

É a primeira vez que o ex-presidente é denunciado à Justiça Federal no âmbito da Lava Jato.

TRÊS FOCOS DE INVESTIGAÇÃO

De acordo com Dallagnol, a denúncia apresentada nesta quarta-feira segue três focos de investigação, todos  envolvendo o ex-presidente Lula. 

O primeiro diz respeito a três contratos assinados entre a OAS e a Petrobras, referentes às refinarias Repar e Renest, entre 2006 e 2012.

Para o procurador, a empreiteira venceu a licitação mediante cartelização, com o pagamento de propinas a diversos beneficiários, inclusive Lula. 

Nessa etapa dos trabalhos, o MPF denuncia Lula por corrupção passiva, e ainda Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, e o ex-executivo da empreiteira Agenor Medeiros, por corrupção ativa.

A segunda parte da denúncia trata da aquisição, reforma e decoração do tríplex de Guarujá. O MPF apresentou evidências de que o apartamento foi adquirido por Lula e Marisa por intermédio da OAS, que também foi responsável pela reforma e decoração. 

Conforme a denúncia, o total em benefícios indevidos é superior a R$ 2,4 milhões. Além do ex-presidente e de dona Marisa, também Léo Pinheiro os ex-executivos Paulo Gordilho e Fábio Yonamine foram denunciados nessa etapa por lavagem de dinheiro.

No último foco, os procuradores informam que a OAS custeou o armazenamento por cinco anos de bens pessoais de Lula. Segundo os procuradores, a empreiteira fez pagamentos sucessivos, entre 2011 e 2016, em benefício de Lula, que chegam a R$ 1,3 milhão. 

Nessa etapa, além do ex-presidente, são denunciados o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, e Léo Pinheiro também pelo crime de lavagem de dinheiro.

Ao longo de todos os episódios de corrupção graúda ocorridos durante os goveros do Partido dos Trabalhadores, Dellagnol disse que a máquina corruptora operava por meio de um caixa geral, que não precisava ser objeto de negociações sobre a repartição da propina a cada contrato.

Podiam sacar dinheiro desse caixa tanto o ex-presidente Lula quanto seu então ministro-chefe da Casa Civil, e já no segundo mandato presidencial os saques poderiam ser feitos pelo tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.

O dinheiro ficava com o PT ou era encaminhado a partidos aliados. Criava-se, disse o procurador, um "colchão de recursos a serem usados em campanhas presidenciais e outras", num projeto de manutenção do poder.

Dentro do que qualificou de « megaesquema » de corrupção, sobre o qual Lula nada fez para que cessasse, a exemplo do que ocorrera no mensalão, o procurador insistiu que o ex-presidente o operava como o grande chefe e nomeava pessoalmente os diretores da Petrobras com a incumbência de praticar desvios.

A denúncia apresentada nesta quarta-feira segue agora para a 13ª Vara Federal de Curitiba, para apreciação do juiz Sérgio Moro. Caso seja acatada pelo juiz, Lula, Marisa e os outros denunciados se tornarão réus na operação.

O OUTRO LADO

Os advogados de Lula repudiaram a denúncia dos procuradores da Lava Jato.

Cristiano Zanin Martins e Roberto Teixeira reafirmam que Lula e Marisa não são proprietários de um apartamento triplex situado no Guarujá, no litoral paulista. Segundo eles, o imóvel pertence à OAS.

 “Para sustentar o impossível – a propriedade do apartamento 164-A, edifício Solaris, no Guarujá – a força-tarefa da Lava Jato valeu-se de truque de ilusionismo, promovendo um reprovável espetáculo judicial-midiático. O fato real inquestionável é que Lula e dona Marisa não são proprietários do referido imóvel, que pertence à OAS”, afirmam os advogados.

Eles também acusaram os procuradores de tentarem politizar o caso para com isso também atingir a credibilidade de Lula e do projeto político do Partido dos Trabalhadores.

*Com Estadão Conteúdo e Agência Brasil

FOTO: Rodolfo Buhrer/Foto Arena/Estadão Conteúdo