Brasil

Lula entra desgastado na quaresma


Ex-presidente passou a ser investigado na Operação Lava Jato e está na mira do Ministério Público paulista


  Por João Batista Natali 10 de Fevereiro de 2016 às 15:43

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O ex-presidente Lula entrou na quarta-feira de cinzas mais aborrecido que no sábado de carnaval, com a decisão do juiz Sérgio Moro, anunciada na terça (09/02), de investiga-lo para apurar se o sítio que ele e a família frequentam, em Atibaia (SP), tem ligações com a lavagem de dinheiro desviado da Petrobras.

O episódio, que pela primeira vez envolve Lula na Operação Lava Jato, tem ao menos um personagem e duas empresas envolvidos.

O empresário José Carlos Bumlai e a Odebrecht providenciaram melhorias no imóvel, com a ampliação da área construída, enquanto aOAS instalou uma nova cozinha com equipamentos requintados.

A Policia Federal investiga se o sítio, que pertence no papel a dois amigos de um dos filhos do ex-presidente, não seria, em verdade, de propriedade dele, o que caracterizaria ocultação de patrimônio.

A investigação, que corre na esfera federal, coincide, na esfera estadual paulista, com a intimação do promotor Cássio Conserino para que Lula e sua mulher deponham, quarta-feira (17/02), sobre um outro imóvel, um apartamento tríplex do Guarujá.

O depoimento de Lula será acompanhado por dois grupos que já agendaram manifestações diante do Fórum da Barra Funda, onde ele deve comparecer. De um lado, o PT e associados. De outro, Kim Kataguiri, um dos articuladores do movimento pró-impeachment que convocou ativistas de oposição.

A presença de Lula diante de um promotor, não como testemunha mas como investigado, já é um episódio altamente significativo de desgaste político.

Lula era até há pouco visto como candidato presidencial do PT em 2018, mas ele, segundo o jornal Valor Econômico, teria afirmado que sua imagem pessoal em declínio poderia levá-lo a apoiar um outro nome, o do petista Fernando Pimentel, governador de Minas Gerais.

Mas voltemos ao MP paulista. Ele investiga as ligações entre a falida Bancoop (banco e construtora dos bancários ligados à CUT) e a construtora OAS. A empreiteira assumiu a conclusão da obra do edifício no litoral paulista e fez reformas no apartamento reservado ao ex-presidente, dotando-o, inclusive, de elevador privativo.

No final do ano passado, quando o imóvel já era tema da mídia, a mulher de Lula teria aberto mão da compra do apartamento, que, semanas antes, ela e o presidente da OAS haviam visitado, em companhia de um dos filhos do ex-presidente.

Os dois imóveis, o sítio em Atibaia e o apartamento no Guarujá, são apresentados por dirigentes petistas próximos de Lula como em nada excepcionais.

Luís Marinho, prefeito de São Bernardo, disse ser normal que alguém ceda a Lula um imóvel para que ele passe os fins de semana, enquanto o ex-ministro da Casa Civil, Gilberto de Carvalho, afirmou não haver nada de mais em empreiteiras presentearem com reformas físicas o imóvel de um ex-presidente.

Na última segunda-feira (08/02), o presidente nacional do PT, Rui Falcão, publicou texto em que afirma haver no país “tentativa de linchamento moral” de Lula, que a seu ver vem sendo “caluniado, difamado e injuriado”.

Falcão, a exemplo de Lula e da presidente Dilma Rousseff, não aparecem na propaganda do partido veiculada pela televisão durante o Carnaval. Em meio a um chamado ao otimismo da população, nem a cor do PT, o vermelho, fez sua aparição.

Na mesma linha que o presidente do partido, o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo disse nesta quarta, em entrevista a O Globo, que Lula é “vítima” dos procedimentos derivados da Operação Lava Jato.

O ex-presidente já prestou dois depoimentos, como testemunha, no quadro da Operação Zelotes, que investiga tráfico de influência na venda de medidas provisórias.

Luís Cláudio Lula da Silva, seu filho caçula, é investigado na operação por ter recebido R$ 2,5 milhões de um lobista para supostamente interceder em favor de isenções fiscais para uma monadora de veículos.