Brasil

Lula e PT: uma simbiose em queda


Partido se ressente de popularidade baixíssima de Dilma e ficou sem argumentos para defender ex-presidente, envolvido em suspeitas


  Por João Batista Natali 16 de Fevereiro de 2016 às 14:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O Partido dos Trabalhadores está enfraquecido e na defensiva, quadro agravado pela recessão e pela baixíssima popularidade da presidente Dilma Rousseff.

Ainda nesta segunda-feira (15/02), em reunião do Conselho Político da presidência do PT– instituição convocada só em circunstâncias excepcionais – o presidente Rui Falcão não encontrou nada mais original que, mais uma vez, denunciar um suposto projeto de golpe das elites, interessadas em atacar Luís Inácio Lula da Silva para desmontar seu “projeto de Nação”.

Há um evidente contraste entre essa retórica e trajetória triunfalista que definiu o partido em seus 36 anos de história. Da primeira eleição que disputou, em 1982, elegeu apenas dois prefeitos e oito deputados federais.

Em 2014, além da presidente e de cinco governadores, enviou para o Congresso 59 deputados e 13 senadores. Dois anos antes, obteve 635 prefeituras.

Segundo maior partido, depois do dividido e instável PMDB, o PT nunca esteve tão enfraquecido, e são sombrias as previsões para seu desempenho nas eleições municipais de 2016.

Nas presidenciais de 2018, caso se apresente, Lula seria derrotado, informa o Datafolha, pelos dois adversários que Dilma enfrentou nas últimas eleições: Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (Rede).

A direção nacional petista prevê – e não é um cálculo público - que nos próximos meses terá perdido dez deputados e três senadores.

Há um conjunto de fatores por trás da atual debilidade. O primeiro é o ético. Na crise do Mensalão (2005) deixaram o PT lideranças como Heloísa Helena, Marina Silva e Cristovam Buarque, que não aceitaram a ideia de distribuição de fundos ilícitos em nome de um projeto de poder.

A condenação penal de personalidades como José Dirceu e José Genoíno, dois ex-presidentes do partido, paradoxalmente não os maculou. Pelos argumentos da época, foi em nome desse projeto, e não para o enriquecimento pessoal, que ambos teriam atuado.

Essa distinção – razões partidárias contra benefícios pessoais – nunca foi objeto de declarações e documentos internos explícitos. Mas em nome dela que Dirceu continuou a ser qualificado de “guerreiro” e suposto “prisioneiro político”, a partir de uma conspiração imaginariamente comandada pelo ministro Joaquim Barbosa, no STF (Supremo Tribunal Federal).

A situação de José Dirceu se inverteu com a Operação Lava Jato que o levou de volta à prisão – ele estava em prisão domiciliar. Ele não apenas recebeu quantias desproporcionais em troca de consultoria, como do lobista Milton Pascowitch, como também permitiu que envolvidos reformassem seu apartamento em São Paulo e um sítio que mantém no interior do Estado.

Esse mesmo modelo passou a pesar como suspeita na cabeça de Lula. O partido considerou normal que o ex-presidente recebesse em quatro anos R$ 27 milhões por conferências patrocinadas por empreiteiras.

E qualificou de irrisório o raciocínio de que ele estaria por trás do lobby talvez praticado por um de seus filhos para a aprovação de medidas provisórias.

Mas eis que surgem o apartamento tríplex do Guarujá, reformado pela OAS, e o sítio que o ex-presidente frequenta em Atibaia, formalmente comprado por dois sócios de um de seus filhos e reformado por duas empreiteiras e pelo pecuarista José Carlos Bumlai, preso pela Lava Jato.

Os dois episódios se desdobram ainda por outra história não plenamente apurada sobre o empréstimo de R$ 12 milhões que o PT recebeu do Grupo Schain, que teria sido quitado - em forte ilegalidade - por meio de contrato com a Petrobras.

Desse total, afirmou o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, parte foi paga a um empresário do ABC paulista que chantageava Lula por informações sobre o assassinato, em 2002, do então prefeito de Santo André, Celso Daniel.

Os envolvidos, exceto Schahin, que fez delação premiada, negam essas informações.

A questão básica está no silêncio de Lula. Um dos participantes da reunião do Conselho Político desta segunda-feira, Marco Aurélio Garcia, declarou que “os esclarecimentos (...) já precisariam ter vindo há muito tempo”.

A reação está na Folha de S. Paulo, que também relata reunião na semana passada da direção do Instituto Lula, em que a historiadora Maria Victória Benevides insistiu para que o ex-presidente desmentisse as insinuações sobre o sítio de Atibaia, por prejudicarem sua reputação.

Lula tem respondido que não mistura questões pessoais com problemas políticos ou partidários, o que é um comportamento cômodo, embora insuficiente. Ele está convocado como investigado para se explicar sobre o triplex, nesta quarta-feira (17/02), por um promotor de São Paulo.

A questão básica está, no entanto, na relação de osmose entre Lula e o PT. O ex-presidente construiu um partido com uma multiplicidade invejável de personalidades. Elas cresceram num ambiente de amplas discussões internas.

Mas Lula é centralizador. Sua liderança não é contestada, e em nenhum momento ele indicou um substituto para secundá-lo.

José Dirceu quis ocupar esse lugar, mas foi abatido pelo Mensalão. Aconteceu o mesmo com Antônio Palocci, ministro da Fazenda do primeiro mandato presidencial, mas ele se queimou em escândalos de Ribeirão Preto (SP), de onde foi prefeito, e por consultorias não muito bem explicadas.

O clima, então, é plenamente negativo para Lula. O partido tinha há um ano 1,59 milhões de filiados. Mas não são militantes no sentido clássico da política. Boa parte dessa multidão se aproximou da sigla para se beneficiar do poder. A cada dez filiados, nove aderiram ao PT depois de 2003, quando Lula assumiu pela primeira vez a Presidência da República.

É uma massa inconsistente em termos políticos. Tanto que, em fevereiro de 2015, Lula disse que colocaria “o exercido de Stédile na ruas” – João Pedro Stédile, líder do MST (Movimento dos Sem Terra) – para proteger o mandato de Dilma Rousseff. Não mencionou a militância petista.

Vejamos, por fim, o roteiro mais realista para o petismo. Ele deixará de ser um grande partido, elegendo menos prefeitos, deputados e senadores. Perderá a Presidência da República e alguns governadores.

Mas não sofrerá de uma extinção vegetativa. A democracia brasileira é por definição pluralista. Há nela um lugar para o PT. Mas não mais para sua arrogância e para seus valores flexíveis.