Brasil

Lula, a caminho do patético esquecimento


Ex-presidente perdeu no STF a última oportunidade de sair agora da cadeia e mantém a ficção - na qual nem os petistas acreditam - de que continua candidato à Presidência


  Por João Batista Natali 10 de Maio de 2018 às 15:05

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A Polícia Militar do Paraná utiliza um drone para quantificar os apoiadores de Lula acampados em Curitiba. Nos primeiros dias após sua prisão, em 7 de abril, eram em torno de 500. Caíram agora para 70.

E o acampamento tende a desaparecer com a certeza de que a pressão política em nada afeta o Judiciário, como demonstrou a última cartada dos advogados de defesa do ex-presidente, julgada pela segunda turma do STF. O recurso, contra os desembargadores da segunda instância do TRF4, de Porto Alegre, foi rejeitado na noite desta quarta-feira (9/05).

Em outras palavras, caíram para praticamente zero as chances de Lula sair da cadeia e batalhar publicamente pelas duas narrativas de ficção que ele vem alimentando com insistência: a de que é candidato à Presidência, apesar da Lei da Ficha Limpa, e de que é inocente, em que pesem as decisões judiciais – e não apenas a de Sérgio Moro – que o condenaram por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Um dos efeitos desse cenário está no profundo pessimismo que tomou conta do PT sobre a possibilidade de, nas eleições de 7 de outubro, permanecer com a maior bancada da Câmara dos Deputados.

Há quatro anos, o partido elegeu 68 das 513 cadeiras. Está hoje com 57, mas, mesmo assim, continua na frente do PP (54) e PMDB (51).

Esse quadro tende a se modificar em razão da ausência de um candidato ao Planalto que consiga catalisar os eleitores na preferência por candidatos a outros cargos que estarão em disputa dentro de cinco meses.

Essa é uma das razões pelas quais a bancada petista no Congresso resiste à ideia de apoiar a candidatura de Ciro Gomes (PDT), em chapa na qual o PT indicaria o vice. Essa aliança tende a beneficiar o partido de Ciro e seus atuais aliados do Nordeste, mantendo os petistas à reboque.

O PREÇO PELA EXCESSIVA CENTRALIZAÇÃO

A ausência de Lula comprova o imenso paradoxo que definiu seu partido desde o momento de sua fundação, em 1980. De um lado, era aquele em que os diretórios municipais e distritais mais opinavam sobre diretrizes e políticas públicas. Mas prevalecia no topo a doença coronelista da centralização. Lula era quem decidia.

Com o ex-presidente preso, a direção petista se transformou numa caricatura dela mesma.

Nominalmente presidente da sigla, a senadora Gleisi Hoffmann (PR) é contestada por dirigentes mais experientes ou interessados em tirar vantagens com o jogo da radicalização. Esse último grupo sucumbiu à tese de que Guilherme Boulos, candidato presidencial do Psol, é a única grande novidade recente das esquerdas.

O fato é que o PT já perdeu um tempo precioso no espaço eleitoral das palavras, sem ter nada a propor, politicamente, além da libertação do chefe preso por corrupção.

Não há programa de políticas públicas que possa ser aceito por aliados ou rejeitado por adversários. Antes de ser recolhido à Polícia Federal, em Curitiba, Lula encarregou o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, de trabalhar nas propostas partidárias. Mas ninguém sabe se ele já colocou alguma coisa no forno ou se de lá sairá alguma refeição que alimente os debates internos. É um vazio catatônico.

Sem qualquer outra proposta, a não ser a já malograda tentativa de levar os “movimentos sociais” às ruas para libertar Lula, o PT tende a definhar.

AS RUAS ESTÃO VAZIAS

É claro que o próprio Lula se tornou cúmplice desse naufrágio. Ainda nesta quarta-feira (9/05) ele enviou carta a Gleisi Hoffmann, em que afirma que não desiste de sua candidatura presidencial, porque isso seria admitir que cometeu os crimes pelos quais foi condenado.

Forma-se então um círculo vicioso. Já que o ex-presidente nega ser criminoso, ele não incorre na Ficha Limpa e levanta o estandarte de uma candidatura na qual nem os dirigentes petistas mais acreditam.

A verdade é que as ruas estão vazias. O Primeiro de Maio que o petismo pretendia transformar numa grande quermesse em Curitiba, em favor da liberdade do chefe, foi um imenso fracasso e atraiu apenas 5 mil pessoas, por mais que ônibus de outros Estados tenham sido mobilizados para transportar militantes.

Os sem-terra não se rebelaram, desmentindo a ideia de que “o exército do Stédile” incendiaria o país em defesa do ex-presidente. E os sem-teto têm outras pulgas para de coçar, além de terem agora um candidato presidencial próprio (Boulos), que a médio prazo ambiciona assumir um papel bem maior nas esquerdas, colocando em xeque – voluntaria ou involuntariamente – uma liderança que Lula se recusava a dividir com os petistas.

A informação mais patética em todo esse quadro que tende ao esquecimento – afinal, se cumprir o tempo de prisão ao qual foi condenado, Lula tem ainda 12 anos pela frente – está na amargura que o ex-presidente expressou sobre o fato de se falar cada vez menos dele na televisão.

Para alguém que acusava a TV Globo pelo “golpe” e que menosprezava o noticiário do Jornal Nacional, a amargura agora é outra. O JN e toda a mídia tendem gradativamente a esquecê-lo.