Brasil

Lava Jato reforça o fantasma da baixa autoestima dos brasileiros


A limpeza que o Judiciário promove na classe política produz um paradoxo: ficou mais difícil acreditar que, pelo voto, podemos escolher pessoas honestas e competentes


  Por João Batista Natali 05 de Julho de 2016 às 16:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


A Lava Jato não é apenas uma coisa boa para o Brasil. Ela é ótima, por motivos éticos e penais. Mas a limpeza que ela está operando tem uma contrapartida sobre a qual é preciso pensar um pouco. Trata-se da desmoralização da atividade política, que traz como risco a desmoralização do próprio Estado.

É uma questão delicada. O Estado não funciona sozinho. Ele precisa que agentes com a legitimidade do voto possam direcioná-lo, mapeando cenários e implantando diretrizes. E esses agentes são aqueles que, para funcionarem socialmente, precisam ser reconhecidos por boas imagens.

Alguns exemplos. Durante a Segunda Guerra Mundial, Roosevelt e Churchill eram donos de imagens mobilizadoras, tinham a capacidade de arrebatar maiorias e motivar indecisos. Foi a causa que eles representavam – e não apenas a tecnologia bélica – que serviu de motivação para o resultado final.

Anos depois, no Brasil, Juscelino Kubitschek transmitiu como necessária uma pauta de industrialização acelerada, de modernização da estrutura de país ainda acomodada a seu passado rural. O dinamismo daquela época (1955-1960) não voltou a se repetir com a mesma intensidade.

E vejamos dois outros contemporâneos de um passado bem mais distante. Para efeitos de Inglaterra e de Império Britânico, a rainha Victoria (1819-1901) funcionou como força política de aglutinação. Ela não foi poderosa apenas pelo peso demográfico, mercantil e financeiro das instituições que representava. Ela detinha uma imagem que parte do mundo compartilhava como uma mistura de poder e grandeza.

Por aqui, para efeitos de Brasil, d. Pedro 2º (1825-1891) foi um governante bem-intencionado e de alta competência na preservação da unidade geográfica nacional. Mas faltava-lhe o sentido da imagem, essa espécie de liderança que teria modernizado costumes e fortalecido um sentimento da nacionalidade, em que ele – mesmo com a Guerra do Paraguai – foi meio que levado a reboque.

Ou seja, um governante não basta. Ele é uma presença jurídica e institucional muito fria. É também necessária a imagem dele como governante.

Entre os últimos presidentes brasileiros, o casamento entre essas duas dimensões produziu personagens, cada um a seu modo, eficazes. Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva transmitiam vontade, energia.

Não se pode dizer o mesmo de Dilma Rousseff e, agora, de Michel Temer. São pessoas mais à vontade no espaço fechado de um gabinete e menos eufóricos quando colocados diante de uma multidão de cidadãos governados.

A questão que se coloca é que a presidente afastada e seu sucessor pertencem a agrupamentos políticos que foram manchados pelas investigações de corrupção.

Para Dilma, o problema é de agora em diante pessoal, já que, depois da votação definitiva do Senado, ela por certo se retirará para Porto Alegre e passará a cuidar do apartamento e dos netos.

Mas para Temer o capítulo histórico a ser escrito é necessariamente outro. E ele não transmite por enquanto a imagem de um intrépido timoneiro em meio à tempestade da crise que ele não gerou, mas que será apenas apaziguada sob seu comando.

A Lava Jato volta à história porque ela não foi uma invenção do governo anterior ou daquele que constitucionalmente o herdou. Foi e continua a ser um mecanismo autônomo, que ganhou dinâmica própria. Um processo com todas as virtudes positivas que o Estado possa ter.

Se de um lado essa autonomia deva ser incondicionalmente preservada, de outro ela também se presta à leitura de uma destruidora inevitável de reputações. Sejam elas relativas a partidos ou a políticos como cidadãos individuais.

Seria aberrante e histriônico acreditar que “todos os políticos” estão sendo levados de roldão. São 5.563 prefeitos nos 26 Estados e no Distrito Federal. Cada um deles com uma Câmara Municipal, cada Unidade da Federação com seu governador e sua Assembleia Legislativa, e, na esfera federal, o Congresso e o presidente.

Nesse universo numérico, são bem poucos os que caíram no foco do Judiciário. Mas a Lava Jato, por sua merecida notoriedade, acabou por reforçar o velho preconceito segundo o qual políticos e larápios são duas palavras sinônimas no dicionário consensual.

Não há nisso, aliás, nenhuma novidade. A autoestima política da civilização brasileira quase sempre esteve em padrões muito baixos. Isso faz parte da mesma gama de superlativos desinformados pelos quais repetimos que “esse é o pior sistema de transportes do mundo” ou que “esta é, no mundo, a burocracia mais sufocante”.

Sob o pano de fundo do pessimismo, seríamos incapazes de enxergar na Lava Jato um mecanismo de expiação dos maus políticos para que, depois dela, e com a limpeza do campo, viesse uma nova geração de políticos bons, no sentido da moralidade.

Estamos operando dentro de um caldo de cultura desfavorável para pescarmos mais uma prova sobre nossa insignificância ou grau de delinquência internacionais.

É uma imagem pesada em excesso para ser carregada. No entanto, se for para também preservarmos a autonomia e o alcance da Lava Jato, é positivo que naufraguemos no pessimismo.

A Lava Jato vem a ser uma instituição brasileira – um pequeno paradoxo - sobre a qual todos nós nos orgulhamos.

IMAGEM: Thinkstock