Brasil

Lava Jato chega bem perto do ex-presidente Lula


Operação lançada nesta quarta (27/01) apura lavagem de dinheiro, por meio de imóvel do Guarujá, com triplex reservado ao ex-presidente. Mas ele nega vínculo com OAS e com a corrupção


  Por João Batista Natali 27 de Janeiro de 2016 às 16:57

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


A Operação Lava Jato se aproximou nesta quarta-feira (27/01) de forma ainda inédita do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, embora ele não seja por enquanto acusado de qualquer irregularidade.

A 22a fase da operação, batizada de Triplo X, procura estabelecer uma relação entre a empreiteira OAS, responsável pela conclusão das obras de um condomínio de luxo no Guarujá, e a lavagem de dinheiro que mais uma vez compromete o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, preso desde abril do ano passado e já condenado a 15 anos.

Vaccari foi presidente da Bancoop, uma cooperativa habitacional que também funcionava como banco e que fora criada por sindicatos. Ao quebrar, ela transferiu para a OAS o condomínio Solaris, dois prédios cujos três últimos andares formam, cada um deles, um único tríplex.

Um desses apartamentos pertenceria a Lula, segundo revelação feita pela revista Veja. Há duas semanas a Folha de S. Paulo informou que a mulher de Lula, Marisa Letícia, chegou a visitar o imóvel, que a OAS estava decorando depois de equipá-lo com um elevador privativo.

O jornal também disse que, diante da controvérsia criada pelo noticiário da mídia, Lula desistiu do apartamento, do qual não tem ainda a escritura.

O Instituto Lula divulgou ao fim da tarde nota na qual afirma que o ex-presidente nunca negou ter adquirido cota de participação da Bancoop, tendo-a declarado em seu Imposto de Renda. Negou, no entanto, qualquer vínculo com a OAS com relação ao imóvel, sobre o qual não chegou a exercer, afirmou, a preferência de compra.

O jornal O Estado de S. Paulo revela que a delegada da PF que determinou prisões e averiguações escreveu que "manobras financeiras e comerciais complexas, envolvendo a empreiteira OAS, a cooperativa Bancoop e pessoas vinculadas a esta última e ao Partido dos Trabalhadores apontam que unidades do condomínio Solaris (...) podem ter sido repassadas a título de propina pela OAS, em troca de benesses junto aos contratos da Petrobras".

Nesta quarta o procurador Carlos Fernando Lima, que faz parte da Lava Jato, declarou que o condomínio foi um investimento com o qual a OAS e empresas offshores (instaladas em países estrangeiros) lavaram dinheiro obtido com a corrupção na Petrobras.

Mas o procurador disse estar investigando todos os apartamentos do condomínio “e nenhuma pessoa em especial” –menção indireta a Lula.

Lima afirmou que o empreendimento imobiliário se tornou objeto de investigações por ser propriedade, formalmente, de uma offshore chamada Murray, que foi aberta pela empresa brasileira a Mossack Fonseca, citada em depoimentos dos delatores Renato Duque e Petro Barusco como envolvida nas propinas da estatal.

Fora da esfera da Lava Jato, o mesmo apartamento tríplex – a denominação de Triplo X, dada pela Polícia Federal, é mais que evocativa – é objeto de investigação do Ministério Público estadual de São Paulo. 

Na sexta-feira (22/01) o promotor paulista Cassio Conserino afirmou ter indícios para denunciar Lula, a partir da transferência do tríplex, da Bancoop para a OAS, em 2009. O ex-presidente não apenas negou envolvimento, como ameaçou processar Conserino.

Em Brasília o episódio dominou os comentários dentro e forra do governo. Em Quito (capital do Equador), onde se encontrava, a presidente Dilma Rousseff se irritou ao ser indagada sobre o tríplex do Guarujá. Disse serem apenas “insinuações” que vazaram nas investigações da Lava Jato.

O episódio é inoportuno para o Planalto, às vésperas da reunião, nesta quinta, do Conselho Econômico, Político e Social, um colegiado que não se reunia há um ano e meio e pelo qual a presidente pretende dialogar com a sociedade (são empresários, sindicalistas, universitários e artistas).

É um tópico da « agenda positiva » com a qual Dilma pretendia sair do imobilismo e provar que está governando e disposta a superar as dificuldades políticas e econômicas.

Mas o « Conselhão », como é também chamado, acabou eclipsado pelos desdobramentos do apartamento do Guarujá, que seriam ao menos indícios muito fortes dos vínculos entre o ex-presidente e mecanismos suspeitos que ligam a Petrobras a empreiteiras.

FOTO: Leonardo Benassatto/EC