Brasil

Lava Jato ainda assusta muita gente. Ainda bem


Renan Calheiros, investigado pela operação, tenta colocar freios nas delações premiadas, pelas quais Marcelo Odebrecht atinge agora em cheio Dilma Rousseff


  Por João Batista Natali 21 de Junho de 2016 às 15:43

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Já era mais ou menos esperado e veio desta vez de Renan Calheiros (PMDB-AL). O presidente do Senado pretende tomar carona em projetos já em tramitação para tentar colocar três freios pesados na Lava Jato.

Segundo a edição desta terça (21/06) do Valor Econômico, ele propõe que as delações premiadas sejam anuladas, caso o delator não documente em 45 dias as acusações formuladas. Quer também a anulação se as informações da delação vazarem para a mídia. E, por fim, pretende proibir a delação de réus que estejam presos.

Independentemente de outros processos a que já responde – como o fato de uma empreiteira ter pago a pensão de uma filha que nasceu fora do seu casamento – Renan é objeto de sete inquéritos da Lava Jato no STF (Supremo Tribunal Federal).

É uma carga judicial com a qual, hoje, dificilmente alguém sobrevive politicamente. O que justifica o desespero com o qual o presidente do Senado ameaçou de impeachment o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em represália à perseguição que acredita recair sobre sua supostamente inocente pessoa.

Janot havia pedido a prisão preventiva dele e de três outros peemedebistas: o ex-presidente José Sarney, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o deputado Eduardo Cunha (RJ). O ministro do STF Teori Zavascki negou na semana passada o pedido, o que levou Janot a uma reação violenta na última segunda-feira (20/06).

Mencionou a suspeita de "acordão" para barrar a Operação Lava Jato – em conversas dos três peemedebistas, gravadas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado -, e afirmou se tratar de "um dos mais graves atentados já vistos contra o funcionamento das instituições brasileiras".

Mas há outros acordões circulando. Um deles, noticiado pela Folha de S. Paulo e pelo site O Antagonista, diz respeito a um projeto de anistia para todos titulares de cargos eletivos indiciados ou mencionados na Lava Jato.

Em troca, os beneficiados se comprometeriam a renunciar a seus mandatos e a abandonarem a vida pública.

Se iniciativas semelhantes foram tão longe, é porque elas refletem a mais absoluta incerteza quanto ao alcance das revelações que ainda poderão ser feitas por delatores em Curitiba.

Um exemplo. Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empreiteira que traz o seu nome, adiantou aos procuradores que cuidava pessoalmente dos repasses, oficiais ou de caixa-dois, que sua empresa transferiu para as campanhas presidenciais de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014.

A informação foi publicada nesta terça pela Folha de S. Paulo, e explica a mobilização de há meses, por parte da presidente afastada, para que Odebrecht fosse solto o mais rápido possível e não fizesse delações que iriam comprometê-la.

Em sua delação, o ex-senador e ex-líder do governo no Senado, Delcidio do Amaral, revelou que, por ordem de Dilma, propôs nomeação a um candidato ao STJ (Superior Tribunal de Justiça), em troca de um habeas corpus que tirasse Marcelo Odebrecht da prisão.

Este é um dos dois episódios com os quais a Procuradoria Geral da República poderá indiciar Dilma por obstrução de Justiça. O outro episódio é a tentativa de nomeação de Lula para a Casa Civil, em março último, para que ele não fosse preso pelo juiz Sérgio Moro.

O resumo da ópera está no fato de as tentativas de colocar um cabresto na Lava Jato serem proporcionais aos incômodos que ela poderá a médio prazo provocar.

Mas qualquer iniciativa bem-sucedida provocará, mesmo se difuso, um enorme descontentamento popular.

Basta lembrar que as manifestações de rua pelo impeachment de Dilma não transformavam em herói nenhum personagem da classe política. O único que aparecia com esse estatuto foi sistematicamente o juiz Sérgio Moro.

Ele representou para a Lava Jato algo que o imaginário coletivo identificou no ministro Joaquim Barbosa durante o longo julgamento do Mensalão.

Barbosa se aposentou e hoje faz palestras nas faculdades que o convidam. Razão pela qual em Brasília muitos atribuem a ele a possibilidade de se candidatar à Presidência em 2018.

Moro é um jovem juiz de carreira e ninguém atribui a ele intenção semelhante. O mesmo, no entanto, não corre com Rodrigo Janot. O procurador-geral – e é um “diz-que-diz-que” no Congresso – tem de tudo para subir nas pesquisas eleitorais a bordo da Lava Jato.

 

FOTO: Agência Brasil