Brasil

Lama da corrupção agora sobe até o bico dos tucanos


Em menos de 24 horas, PSDB engole acusação de desvio de R$ 100 milhões no Paraná e de R$ 113 milhões depositados na Suíça, na conta de ex-presidente da paulista Dersa


  Por João Batista Natali 22 de Fevereiro de 2018 às 17:30

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


As últimas horas têm sido de intenso pesadelo para os tucanos.

Nesta quinta (22/02), a Lava Jato desencadeou uma operação que prendeu o diretor do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) do Paraná, e apura um desvio superior a R$ 100 milhões.

Na véspera, vazou documento entregue por procuradores da Suíça à Justiça Federal de São Paulo, informando que Paulo Vieira de Souza, presidente entre 2007 e 2010 da Dersa (órgão estadual paulista de rodovias) chegou a ter depósitos de R$ 113 milhões num banco de Genebra.

O Paraná é governado por Beto Richa (PSDB).

Vieira de Souza, também conhecido como Paulo Preto, é suspeito de ser um dos operadores do senador José Serra (PSDB-SP), que, por ter foro privilegiado, é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF).

Esse conjunto de cifrões compromete a reputação dos tucanos e atinge indiretamente o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Embora não esteja envolvido em nenhum dos dois casos, ele é hoje o presidente nacional do PSDB e virtual candidato do partido à sucessão de Michel Temer.

A lama que começou a sujar a reputação dos tucanos foi primeiramente levantada em Minas Gerais.

O ex-governador Eduardo Azevedo já foi condenado em segunda instância no chamado “mensalão tucano”, que apurou desvio de verbas públicas com finalidades eleitorais.

Mas outra arapuca capturou o tucano de plumagens mais vistosas em maio do ano passado, quando o empresário Joesley Batista divulgou gravação em que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) pedia a ele R$ 2 milhões, para supostamente custear advogados.

O dinheiro, no entanto, foi entregue a uma empresa do também senador Zezé Perrella (PDT-MG), político muitíssimo próximo de Aécio.

O escândalo significou o esvaziamento político do neto do ex-presidente Tancredo Neves, que por pouco não derrotou Dilma Rousseff nas eleições presidenciais de 2014.

A investigação do caso que eclodiu agora no Paraná partiu do gabinete do juiz Sérgio Moro. A Polícia Federal prendeu seis pessoas, entre elas Nelson Leal Junior, o diretor-geral do DER e um dos assessores da Casa Civil de Richa, cujo gabinete foi vasculhado na sede do governo paranaense.

O envolvimento de Richa no superfaturamento de obras para fazer caixa-dois não está desta vez em jogo.

Mas o governador paranaense consta das delações da Odebrecht como tendo recebido, em três parcelas, R$ 2,5 milhões, em outubro de 2014.

O CASO DE PAULO PRETO

Com relação a Paulo Preto, a acusação é de superfaturamento nas desapropriações para a abertura do Rodoanel, via expressa que circunda o município de São Paulo.

Os R$ 113 milhões – em verdade, 35 milhões de francos suíços, em valores convertidos pela atual taxa de câmbio – deveriam permanecer em sigilo, na instrução do processo que corre na Justiça Federal paulista, no gabinete da juíza Maria Isabel do Prado.

Por paradoxal que pareça, o sigilo foi quebrado pelos advogados do ex-presidente da Dersa, ao solicitarem que as informações vindas da Suíça fossem enviadas a Brasília, onde, no STF, a investigação sobre José Serra é feita pelo gabinete do ministro Gilmar Mendes.

Os procuradores suíços revelaram à juíza paulista que Paulo Preto tinha até o início do ano passado três contas bancárias no banco Bordier & Cie.

O titular das contas não era Vieira de Souza como pessoa física, mas uma offshore do Panamá pertencente a ele e que se chama Groupe Nantes S/A.

Tão logo foram divulgadas no início de 2017 as delações dos executivos da Odebrecht, Paulo Preto fechou as contas na Suíça e transferiu o dinheiro para um banco de Nassau, no paraíso fiscal das Bahamas, possessão britânica no Caribe.

Paulo Preto esteve no comando da Dersa quando José Serra ocupava, em São Paulo, o Palácio dos Bandeirantes.

AS VIAS TORTUOSAS DO DINHEIRO

Não é simples imaginar a finalidade desse dinheiro. Como ele não foi incorporado ao patrimônio do então governador, é plausível supor que se fazia uma imensa reserva a ser utilizada em futuras eleições.

Serra disputou com Aécio Neves – e perdeu – a investidura do PSDB para das eleições presidenciais vencidas por Dilma.

No caso do Paraná, o mesmo raciocínio pode ser aplicado a Beto Richa, filho de José Richa, ex-prefeito de Londrina, ex-governador do Paraná e senador constituinte em 1988.

Mas existem indícios de que os operadores receberam polpudos benefícios pelas tarefas que cumpriram.

No caso de Nelson Leal Junior, do DER paranaense, o jornal O Estado de S. Paulo informa que ele comprou no balneário de Camboriú um apartamento de R$ 2,5 milhões, dos quais R$ 500 mil foram pagos em dinheiro.

Quanto a Paulo Preto, o Judiciário foi informado pelo Coaf (órgão do Ministério da Fazenda que monitora depósitos atípicos) que entre 2009 e 2010 ele movimentou quantias superiores a R$ 2,5 milhões.

Em 2014, ele revelou ao Imposto de Renda um patrimônio de R$ 4 milhões. Mas em 2017 sua declaração informava uma quantia menor, R$ 2,8 milhões, o que indicaria “desfazimento de bens a fim de evitar eventual ressarcimento ao erário”, segundo o Coaf.

A moral provisória de todos esses episódios supõe que os tucanos no governo operaram nos últimos 14 anos segundo os mesmos critérios desonestos do PT.

A diferença estaria no tamanho dos desvios. Os petistas desviaram bem mais por terem em mãos o governo federal, que tem mais recursos. Mas os crimes são rigorosamente os mesmos.

 

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