Brasil

Joaquim Barbosa, quem diria, virou forte opção presidencial


Ex-ministro do STF tem entre 8% e 10% das intenções de voto e defende, ainda vagamente, privatizações e a distribuição de renda


  Por João Batista Natali 19 de Abril de 2018 às 14:22

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Em 2003, logo no início de seu primeiro governo, o ex-presidente Lula pediu que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, fizesse uma garimpagem para a escolha de um jurista negro para o Supremo Tribunal Federal.

A escolha recaiu sobre Joaquim Benedito Barbosa Gomes, que estava na época com 49 anos e era procurador do Ministério Público Federal.

O único senão biográfico era o de uma agressão física contra sua ex-mulher, registrada na polícia, episódio que Barbosa minimizou em conversa com Bastos e que deixou Lula preocupado, pelas potenciais repercussões –que finalmente não ocorreram –entre as feministas do PT.

Barbosa foi ministro do Supremo entre 2003 e 2014. Presidiu o tribunal de 2012 a 2014, um período politicamente difícil em razão do julgamento do Mensalão, que mandou para a cadeia os petistas José Dirceu e José Genoíno.

Abriu um escritório de advocacia ao deixar o STF. O ex-ministro não recusava um único convite para palestras em sindicatos ou associações estudantis.

Era uma agenda de candidato à Presidência da República, apenas assumida no início de abril de 2018, com sua filiação ao PSB.

Antes disso, pesquisa qualitativa encomendada pelo PT apontava na candidatura de Barbosa uma coincidência com a imagem para a qual o partido mantinha artificialmente acesa a chama de Lula.

Nascido no município mineiro de Paracatu, de origem humilde, Barbosa tinha ainda, como vantagem, sua atuação judicial na abertura do caminho à luta contra a corrupção, o que o associava à Lava Jato.

A grande surpresa favorável a Barbosa aconteceu no último domingo (15/04), quando a pesquisa Datafolha deu a ele 8% das intenções de voto, com a candidatura Lula, e de 9% a 10%, sem a opção pelo ex-presidente.

Um resultado melhor que o de Geraldo Alckmin (PSDB) e o dobro das intenções de Ciro Gomes (PDT), em cenários sem Lula como candidato.

O QUE ELE PENSA

O problema, no entanto, estava no fato de Barbosa ter-se fechado emo copas e, sem dar entrevistas, suas posições eram incrivelmente desconhecidas.

Sabe-se, por exemplo, que ele se opôs ao impeachment de Dilma. Mas nada disse sobre a prisão de Lula.

Manteve contatos com jornalistas. Mas suas confidências eram eufemicamente vazadas como conteúdos de “conversas com amigos”.

A Folha de S. Paulo, por exemplo, publicou que Barbosa defendia a distribuição de renda e a diminuição da pobreza. Mas, ao mesmo tempo, era favorável às privatizações.

Ao acertar uma martelada no cravo e outra na ferradura, o ex-ministro do Supremo não se distanciava do projeto um tanto difuso que o PSB elaborou para o Brasil.

O partido é o mais moderado entre aqueles que se definem como de esquerda e que se juntam ao grupo que quer Lula fora da prisão da Polícia Federal de Curitiba, onde ele está preso desde 7 de abril.

Mas essas pistas são bastante escassas para que Joaquim Barbosa conquiste, paralelamente, a confiança da esquerda e do empresariado.

Barbosa é o bastante cuidadoso para se manter em silêncio. Sabe que, se começar a falar e defender posições mais categóricas, perderá um pouco do capital que já reuniu em torno de seu nome.

Sua cautela é estimulada pelo cenário confuso da atual sucessão presidencial, em que a única e categórica definição vem da extrema-direita, com o deputado Jair Bolsonaro (PSL).

As divisões são muito fortes na esquerda e no campo liberal, ambos hoje fragmentados em termos de intenção de voto e simpatias em potencial.

Nesta quinta-feira (19/04), a mesma Folha informou que ele se dispõe a fazer um aceno sedutor ao mercado financeiro, sem, no entanto, deixar de flertar com a esquerda, ao insistir na distribuição de renda.

PARCERIA COM MARINA

Outra incógnita que persiste em torno de Joaquim Barbosa está em sua possível parceria com Marina Silva (Rede), que pretende se candidatar à Presidência pela terceira vez.

O lançamento da dupla é sobretudo patrocinado pelo ex-ministro do STF Ayres Brito. Mas persiste como fator desconhecido um importantíssimo detalhe.

Tanto ela quanto ele não abrem mão –por enquanto –da exigência de encabeçarem a chapa presidencial.

Pelo Datafolha, Marina tem 17% das intenções, um capital maior que o de Barbosa. Mas o ex-ministro argumenta que ele carrega a grande novidade na atual disputa, tendo por isso um potencial de crescimento maior -o que o credenciaria a ser cabeça de chapa.

Além disso, dizem os favoráveis a Barbosa, em 2014 Marina aceitara ser vice de Eduardo Campos, assumindo a disputa pelo PSB apenas quando o então candidato morreu em acidente aéreo na cidade de Santos (SP).

É possível que a parceria entre ambos não saia do papel. Marina avança mais rapidamente seus peões.

Já tem entre seus conselheiros em economia Eduardo Giannetti da Fonseca e André Lara Resende, dois nomes da mais pura cepa tucana.

Não que Barbosa esteja em desacordo com ambos, mas é provável que pretenda se cercar de nomes que ele próprio escolheu.

Por mais que não dê certo, esse casamento seria interessante por reunir dois candidatos que vieram do chão da hierarquia social e cujo mérito é comprovado pela própria ascensão que cada um carrega na biografia.

Marina foi ministra do Meio Ambiente de Lula, mas está rompida com o PT depois da hedionda campanha que Dilma Rousseff lançou contra ela em 2014, quando, por estar assessorada por uma das filhas de Olavo Setubal, a então candidata do PSB foi acusada de vínculo com “banqueiros” que fariam a comida sumir do prato de comida dos mais pobres.

A moral da história é por enquanto a seguinte: venha ou não a se compor com Marina Silva, Joaquim Barbosa se tornou o grande fato novo na política. E teve a habilidade de se tornar uma opção eleitoralmente atraente.

 

 

FOTO: Fellipe Sampaio//STF/Divulgação